Campos conceituais da arte e experiência estética


O acesso à arte ou as experiências de origem artística não é uma realidade comum a todos. Se por um lado esse contato pressupõe como necessidade uma disposição nem sempre constante do público em ser afetado pela experiência artística, por outro, os fatores sociais e econômicos pesam como um agravante para que a arte não seja democratizada e atinja um público massivo. Na esteira desse pensamento, se consumir produtos artísticos é, portanto, um acontecimento por si só restrito, restrição ainda maior nós encontramos ao identificar quem são aqueles que refletem sobre o seu fazer.

E é importante compreender tal restrição porque, quando se fala de arte conceitual, estamos falando principalmente sobre um campo de domínio das artes onde o conceito, isto é, a reflexão por trás da obra é tão ou mais importante que a obra em si. Nesse sentido, fica claro porque, para muita gente, a arte conceitual é abstrata e hermética: para compreendê-la ou, em uma melhor abordagem, para ser atingido por ela é preciso abstrair o objeto artístico em si de sua materialidade e compreender o processo ocorrido por trás dele.

experiência estética

Histórico

Em linhas gerais, a ideia de uma arte conceitual surge do esgotamento dos recursos artísticos bem como das mídias por meio das quais a arte era, até então, transmitida ao público. Esse processo de crise que permeou diversas esferas da expressão artística mundial ao longo do século XX tem como consequência uma explosão de novas possibilidades em que pese um fazer artístico que traga, imbuído em seu processo e conclusão, uma reflexão sobre si mesmo.

O termo “arte conceitual” foi usado pela primeira vez em 1961, pelo artista e pensador Henry Flynt, em um texto onde ele tentava apresentar uma reflexão acerca da importância dos procedimentos artísticos também como matéria da própria arte. Apesar do primeiro registro do termo ter essa data, é incorreto afirmá-la como o dia do nascimento desse novo pensamento artístico: a bem da verdade, quando esse nome é enunciado e passa a se tornar uma categoria de arte, as experiências de outros artistas que caminhavam nessa mesma direção já haviam se instaurado por bastante tempo.

Um bom exemplo disso é a obra artística de Marcel Duchamp, pintor e escultor comumente ligado ao movimento Dadaísta que, ao lado do Surrealismo, do Cubismo e do Futurismo, compõe o grupo das chamadas “Vanguardas artísticas”, responsáveis por introduzir na arte europeia uma série de novas ideias e procedimentos. Duchamp nunca foi um integrante formal do Dadaísmo, mas sua obra dialoga com tal movimento em um lugar bastante caro à ambos: o questionamento do que é o objeto de arte. De dentro desse questionamento, o artista inaugura a ideia do ready made, uma obra de arte que já está pronta justamente porque não foi feita com esse intuito.

Qualquer objeto poderia ser um ready made, desde que o artista passasse algum tempo se relacionando com ele e não desenvolvesse nenhum sentimento de posse ou de afeto. A ideia de Duchamp era ressignificar o já existente, conferindo a um objeto prosaico o status de arte no intuito tanto de apontar para uma eventual democratização ou penetração ampla das artes dentro de universos mais irrestritos, quanto para expor aos consumidores de arte da época – essencialmente a burguesia europeia que financiava a Primeira Guerra Mundial – que quem definia o que era ou que deixava de arte, afinal de contas, era o próprio artista.

Não por acaso, entre suas obras mais famosas estão “A fonte” e “L.H.O.O.Q”, ícones inquestionáveis da arte conceitual. Enquanto a primeira trata-se, basicamente, de um urinol em cerâmica em que o artista registrou à tinta uma assinatura, na segunda a intervenção em questão – um discreto bigode – foi realizado na clássica tela “La Gioconda”, mais popularmente conhecida como a “Monalisa”, de Leonardo Da Vinci. Em ambos os casos o objeto de arte em si não tem tanta importância quanto a ideia – ou o conceito – desenvolvido por trás dele, isto é, anteriormente a execução em si.

Performance

Um dos maiores impactos da crise que se instaurou no campo das artes durante a década de 60 foi o surgimento, ou a denominação, desse tipo de arte que até hoje causa espanto e dificuldade de categorização: a performance.

A ideia da performance surge como uma expressão artística que nasce do limiar entre as diversas linguagens conhecidas – o teatro, a música, a dança e as artes visuais – e que propõe uma ruptura entre os paradigmas estabelecidos ao longo da história da arte – a relação entre o público e o privado, entre o espectador e o emissor e, sobretudo, entre a ficção e a realidade. A performance também nasce da ideia de que o corpo é a mídia primeira, isto é, é o nosso primeiro meio de comunicação com o mundo, e como tal, deve ser explorado ao seu limite. Entre os expoentes dessa categoria artística típica da arte conceitual destacam-se nomes como Marina Abramovic, o Grupo Fluxus e Joseph Beuys.