A produção do real a partir do pensado


Tudo o que temos discutido até aqui nos permite concluir que nós pensamos o mundo. O que vemos reflete, na verdade, nosso modo de ver. O senso comum é o modo de ver marcado pela opinião, pelas crenças e superstições, pelas relações qualita­tivas – feio, bonito, alto, baixo, etc. – e pelos pre­conceitos.

O pensamento científico, por sua vez, busca:

•  separar nossas crenças e sentimentos através de uma cui­dadosa análise do que ocorre ao nosso redor;

A produção do real

• realizar uma observação sistemática, além de refazer constantemente experiências, em condições distintas, enumerando e comparando resultados e tirando deles medições objetivas;
•  revisar constantemente seus métodos e resultados, por meio de diálogo aberto e crítico com seus pares.

Assim, parece não existirem dúvidas de que, do conhecimento científico, obtemos uma imagem mais verdadeira do real, enquanto o senso comum distorce e, muitas vezes, inverte o que “realmente” deveria ser visto. Você concorda com a afirmação acima? Então, componha um texto expondo a sua opinião.

Agora vamos repensar algumas coisas importan­tes, começando pela mais básica de todas: Somos todos, “cientistas” ou não, seres humanos, dotados de sentidos e incapazes de conhecer a realidade como ela é, de forma que, de um jeito ou de outro, estamos sempre realizando uma interpretação da realidade.

Essa interpretação da realidade ocorre, como já discutimos, com base nos elementos de que dispo­mos e que foram aprendidos. Eu sei que uma maçã é vermelha, porque aprendi assim; que o fogo queima, porque aprendi dessa forma. O meu conhecimento do mundo é resultado do meu aprendizado. Mesmo sentimentos aparentemente “naturais” foram apren­didos, como “amor pela mãe”, “respeito pelos mais velhos”, etc. São esses aprendizados que nos fazem afirmar coisas. Porém, por sermos humanos, estamos sujei­tos a erros.

Acompanhe a história abaixo:

1. Como o Cebolinha troca o “r” pelo “l”, ele disse ao colega Cascão que estava “rouco”, mas Cascão entendeu diferente.
2. Partindo dessa compreensão, Cascão passou a ver em Cebolinha um comportamento típico de loucos, visto ele saber que loucos se comportam assim.
3. A convicção da loucura de Cebolinha, corroborada por seu comportamento, gera pânico em Cascão e Mônica.

Agora, responda: Alguma vez você modificou sua atitude com alguém, conhecido ou não, por acreditar que esse alguém poderia colocá-lo em risco? Conte sua história.

Os preconceitos não são um “privilégio” do senso comum. Muitas formulações que seguem corretamente a cartilha científica são fortemente marca­das por preconceitos.

Mas, diria você, a interpretação feita pelos cien­tistas não seria sempre correta? Então acompanhe o texto abaixo e, depois, escreva o que você pensa sobre isto:

A estatística a respeito dos campos de concen­tração, mesmo que autores discutam e divaguem se foram “alguns milhões” de vítimas a mais ou a menos, é estarrecedora. Teriam sido dezoito milhões de inter­nados e onze milhões de mortos, seis milhões de judeus. Os números, tão objetivos e exatos, não con­seguem cumprir a função de informar nesses casos: 250000 de judeus mortos em Subibor; 800000 em Treblinka,- 2000000 em Auchwitz-B/rkenau, e assim por diante.

Essa tarefa de eliminar fisicamente milhões de pes­soas exigia um esforço surpreendente dos funcioná­rios do campo, tanto para a execução dessas “funções” quanto para o seu planejamento, que deveria incluir o transporte, alocação dos prisioneiros antes do extermí­nio, segurança do campo e controle dos detentos, além da utilização destes em uma série de atividades que poderiam ser caracterizadas de “esforço de guerra” e que representavam, fundamentalmente, na exploração.

Fazendo um esforço de síntese:

•       Como o real não pode ser alcançado por nós,
•       nós o construímos a partir de nossas sensações…
•       e da nossa razão. No entanto, nossa construção do real é marcada…
•       por tudo o que aprendemos e tudo o que aprendemos é mar­cado por…

Acompanhe mais este exemplo: recentemente o Núcleo de Estudos sobre a Violência da USP divul­gou um interessante perfil sobre os condenados nas prisões paulistas. Tal estudo revelou que:

•       a maioria dos condenados são brancos;
•       possuem Ensino Fundamental;
•       são provenientes da Região Sudeste e Região Sul.

O que parece “estranho” nesses dados? Eles corres­pondem à nossa “ideia” de quem são os “bandidos” nas grandes cidades? Por que temos a ideia que temos sobre quem são os “bandidos” das grandes cidades? Mas então há alguma maneira de o pensar apro­ximar-se do real?

A resposta mais sincera para essa pergunta, mesmo que seja um pouco frustrante é, sem dúvida, não. Mas isso não quer dizer que então qualquer ideia seja correta. Esse relativismo é um mal tão grande quanto a crença em verdades eternas e imu­táveis.

O que devemos é assumir certas posturas que permitam a nós mesmos não incorrermos em erros que impliquem discriminar, ofender e prejudicar os outros. Afinal, a nossa presença no mundo é uma presença com os outros e é isso que devemos levar em consideração quando tentamos perceber o mundo que nos cerca.

É bem verdade que o comportamento dos cien­tistas, com seu “olhar” rigoroso e sistematizado, tem conseguido fazer avançar em muito a nossa com­preensão sobre as coisas. O que precisamos evitar é a idolatria da Ciência, como se tudo o que resul­tasse de uma análise rigorosa e sistemática tivesse que, necessariamente, ser tomado como verdade.

Por outro lado, muito de nossas tradições e cos­tumes, aquilo que apelidamos de senso comum, possui valor inestimável – nossas crenças, só para dar um exemplo – e não é porque não possa ser pro­vado cientificamente que não deva ser respeitado.

Por fim, devo insistir: o limite crítico do conheci­mento do mundo são os outros. E devemos assumir uma postura, seja a partir de nossas crenças, seja a partir da Ciência, para evitar que o outro desapareça do nosso horizonte.