Aristotelismo e Escolástica


Nas escolas medievais, organizadas a partir do século VI, o ensino dividia-se em três etapas: Introdução ao latim e aos textos bíblicos. Estudo das chamadas “Artes Liberais”, que se dividiam em Trivium – Gramática, Dialética (como era conhecida a Lógica) e Retórica – e Quadrivium – Aritmética, Geometria, Astronomia e Música.

Aprofundamento nos estudos bíblicos.

Com a formação das universidades, no século XIII, o ensino foi reorganizado, dividindo-se em duas faculdades:
a de Artes, com duração de seis anos, em que se estudavam as chamadas Artes Liberais;
a de Teologia, com duração de oito anos, em que se estudava profundamente a Bíblia e a doutrina cristã.

Escolástica

A primeira etapa constituía, portanto, uma preparação (uma propedêutica) para a segunda. Era o mo­mento da formação racional, do contato com as mais recentes produções científicas e filosóficas, antes do aprofundamento nas questões da fé. Dessa forma, a Filosofia estava a serviço da Teologia.

O método de estudos nas universidades envolvia dois procedimentos: a lectio – leitura de um texto de Filosofia, Ciência ou Teologia – e a disputatio – um caloroso debate entre os alunos sobre o conteúdo do texto, seguido pelos comentários do magister, o mestre de Filosofia, que poderia ser um leigo ou um sacerdote. Esse modelo de estudos, pautado pela discussão, desenvolveu-se por toda a Escolástica, favorecendo a tensão constante entre a Escolástica a fé e a razão.

O mais importante esforço para conciliá-las veio com a obra de Tomás de Aquino, que viveu no século XIII (entre 1225 e 1274) e foi canonizado pela Igreja Católica. Considerado o maior expoente da Escolástica, ele expressou uma fé inabalável, dedicando toda a sua existência à vida religiosa, à sistematização e ao ensino da Filosofia Cristã, destacando-se nas principais universidades da época.

No século anterior, a Europa conhecera os originais de obras aristotélicas das quais só possuía alguns co­mentários. Elas estiveram em poder dos árabes e só então foram redescobertas, em meio a disputas políticas e religiosas. Apesar de provocarem grande polémica – devido a diferenças entre as teses do filósofo grego e as dos textos bíblicos -, elas também suscitaram enorme interesse, a tal ponto que Tomás de Aquino veio a inspirar-se profundamente nas obras aristotélicas para levar a cabo o seu intento de sistematizar filosoficamente o pensa­mento cristão. Assim como Agostinho, de certa forma, cristianizou o pensamento de Plotino, Tomás o fez com o de Aristóteles, interpretando a sua Teoria das Causas de tal maneira que Deus passou a ser visto como a causa primeira, da qual todas as coisas seriam efeitos. Além disso, ele construiu uma Teoria do Conhecimento muito semelhante à de Aristóteles, entendendo que era possível conhecer as formas – universais e inteligíveis – a partir dos elementos sensíveis, por meio da abstração. Levando-a às últimas consequências, considerou que a experiência sensível poderia servir como base, inclusive, para o conhecimento de Deus.

Segundo Tomás, sendo o homem um ser dotado de um corpo material, todo o seu conhecimento possuiria uma origem sensível sobre a qual, posteriormente, agiria o intelecto. Ele destacava cinco operações no conhecimento sensível:

sentido próprio: os sentidos particulares seriam afetados pelos objetos que lhes são próprios (a visão pela cor, a audição pelo som, etc.);
sentido comum: as impressões seriam percebidas numa unidade, assim como as sensações que as acompa­nham;
imagem ou fantasia: as imagens das coisas sensíveis seriam conservadas (como uma espécie de memória passiva);
memória ou reminiscência: as imagens poderiam ser evocadas deliberadamente (como uma espécie de memória ativa);
razão particular: objetos e situações particulares seriam imediatamente percebidos como benéficos ou nocivos.

Sobre essa base é que seria possível a formação do conhecimento intelectivo. Inicialmente, o intelecto se apresentaria como uma mera possibilidade de alcançar o elemento inteligível presente nas coisas sensíveis (intelecto possível). Ao realizar essa possibilidade, por meio da abstração, ele se tornaria intelecto agente. Portanto, o conhecimento sensível seria a base até para que a alma pudesse conhecer a si mesma – ao perceber os objetos, a sua própria atividade cognoscente sobre eles e, assim, a sua própria natureza – e a Deus, puramente inteligível. Um dos objetivos da obra de Tomás de Aquino era provar a existência de Deus e, para tanto, ele uti­lizou argumentos que se baseavam no encadeamento entre causas e efeitos, revelado pelos objetos sensíveis e suas relações, permitindo conhecê-los.

Por outro lado, Tomás negava a possibilidade de contradição entre a Filosofia e a Teologia, porque razão e fé, segundo ele, provinham da mesma fonte (Deus) e, portanto, harmonizavam-se. A fé apresentava as verdades necessárias à salvação, igualmente para todos, mesmo aos que não dispunham das condições de realizar profundas investigações racionais a respeito delas. Aos que podiam fazê-lo, a razão apenas esclarecia o que a fé já antecipara. Além disso, ela ainda poderia oferecer sólidos argumentos filosóficos em defesa das verdades reveladas pela fé.

Para finalizar o breve panorama das reflexões antigas e medievais sobre o conhecimento, é preciso destacar ainda que, nos séculos seguintes à morte de Tomás de Aquino (XIV a XVI), novos conflitos vieram à tona entre razão e fé, rompendo o delicado equilíbrio decorrente da conciliação tomista. Era o Renascimento da cultura greco-romana que se anunciava, antecedendo a Modernidade e suas novas concepções de conhecimento.