Domínios da Sensibilidade: Conceito de Belo


Suponha que alguém abrisse mão de todo diálogo ou convivência. Privado de muitas experiências, ele deixaria de adquirir certos conhecimentos, mas, apesar da redução de estímulos externos, restariam a ele algumas percepções, ou seja, impressões dos sentidos, acompanhadas de sensações prazerosas ou dolorosas, e até de sentimentos, como alegria, raiva ou medo.

Agora, aprofunde o exercício de ficção e imagine que todo prazer ou beleza fosse, de repente, excluído
da experiência humana. Em tais condições, você acredita que a vida seria suportável? Por quê?

Conceito de Belo

Elementos da percepção

Perceber é ser capaz de identificar o modo como a realidade aparece e ter alguma reação subjetiva a ela, ou seja, uma reação pessoal, individual.
Há muito tempo, a Filosofia aborda as percepções em diferentes áreas de reflexão. A Teoria do Conhecimento, por exemplo, investiga se elas são confiáveis ou não, mas quer elas sejam realidades ou aparências, essências ou fenômenos, o fato de serem ou não agradáveis e a possibilidade de serem universais ou particulares também intrigaram os filósofos.

CONCEITO FILOSÓFICO

O termo sensibilidade aplica-se à fa­culdade de sentir e de perceber sensorialmente a realidade que nos cerca. Decorrem dessa capacidade, as sensações físicas, bem como a ela se relacionam as emoções e os sentimentos.

E Gostar ou não gostar

Você já questionou se as coisas são agradáveis ou desagradáveis em si mesmas ou se isso depende do modo de percebê-las?

Vejamos um exemplo. Podemos dizer que a cor do céu num dia ensolarado seja um dado objetivo, porém ela sempre será percebida de um modo subjetivo por diferentes pessoas e até por outras espécies vivas. Além disso, cada pessoa poderá sentir emoções distintas ao contemplar o céu azul em uma tarde de outono.

Sendo assim, podemos concluir que a faculdade de perceber a cor é universal, enquanto a experiência de apreciá-la ou detestá-la é particular. Além disso, encontramos dificuldades para justificar, por meio de argumentos, as nossas opiniões favoráveis ou desfavoráveis sobre determinado objeto ou qualidade, bem como para explicar por que estímulos diferentes são acompanhados de prazer ou desprazer para cada um. E nos deparamos com uma dificuldade ainda maior no que diz respeito a justificar a impressão que temos de que algo é belo ou feio.

EM BUSCA DO BELO

Além disso, a busca do belo surge até nos aspectos mais corriqueiros da vida humana. Basta observarmos o cuidado das pessoas com a própria aparência e a das coisas que produzem ou adquirem. Perceberemos que nem sempre elas associam a beleza à utilidade ou a qualquer outro valor, desejando certas coisas sim­plesmente por serem bonitas. Embelezam o corpo, mesmo com sacrifícios – o que levado a extremos gera a chamada ditadura da beleza; buscam vestir belas roupas, mesmo que elas não as protejam dos excessos do clima; decoram suas casas, mesmo que isso não as torne mais práticas ou confortáveis.

A seguir, uma música interpretada pela cantora brasileira Zélia Duncan poderá ajudá-lo a refletir sobre essas e outras questões ligadas ao belo e ao valor que ele tem em nossa cultura.

É possível definir o belo?

Na Antiguidade grega, Platão definia o belo como a ideia perfeita que daria forma a todas as coisas bonitas. Entendia a experiência do belo como sendo uma manifestação da alma e não da sensibilidade física. Associava a ideia do belo às ideias de bom e verdadeiro, afastando-a, por isso, das representações artísticas. Já Aristóteles, destacava a relação da beleza com a justa medida, a proporção, a simetria e a harmonia, admitindo a presença do belo também na arte e na ficção.

As teorias desses dois filósofos exerceram uma forte e longa influência sobre as culturas do Ocidente. Além disso, a própria beleza existente na natureza ou nas obras de arte era considerada um reflexo, imperfeito, da beleza divina, tal como defendiam, por exemplo, Agostinho e Tomás de Aquino. Nesse contexto, o segundo indicava três elementos formadores do belo: a integridade, a proporção e a claridade. Isso porque associava a perfeição à inte­gridade (a plenitude de um objeto, ao qual nada falta); a bondade à proporção; e a verdade à claridade (a clareza ou evidência da figura). Portanto, vê-se a relação do belo com o bom e o verdadeiro. Por outro lado, ele definia o belo como o que agrada à visão, o que não excluía a possibilidade de uma música ser bela, nem reduzia a fruição da beleza aos sentidos. Ao contrário, a visão era citada em sua relação com o intelecto, com a razão, capaz de identificar a harmonia entre a integridade, a proporção e a claridade no objeto. Para esse filósofo, a experiência criadora do artista também estava relacionada à intuição humana da beleza maior que provém da divindade.