Epistemologia Moderna e Contemporânea


Assim como a Teoria do Conhecimento, a Epistemologia – que constitui o seu desenvolvimento – investiga l o conhecer humano, questionando seus limites e suas possibilidades – ou seja, o que se pode conhecer, o
que é conhecimento, qual a sua origem, em que tipos se divide, etc. No entanto, o maior objeto dos estudos epistemológicos é o conhecimento especializado e organizado por um método, que chamamos hoje de ciência.

Esse conceito passou por diversas mudanças históricas, principalmente na Modernidade – séculos XV a XVIII. Por isso, ao falar em ciência antiga e ciência moderna, tratamos de formas distintas de conhecimento, das quais a segunda buscou maior independência em relação à Filosofia, à religião e às crenças que fazem parte do dia a dia das pessoas. Adotando métodos próprios na investigação da realidade, a ciência moderna utiliza observações, hipóteses, experimentos, cálculos, verificações, generalizações e previsões, a fim de conhecer as leis que regem os fenômenos naturais e até mesmo sociais.

Epistemologia

A seguir, você aprenderá um pouco mais sobre o processo de construção desse modelo científico, tão presente nos diversos aspectos da vida contemporânea – ou seja, que interfere na sua própria vida e na das pessoas ao seu redor.

CONCEITO FILOSÓFICO

A palavra método tem sua raiz nos termos gregos meta e hódos que significam, respectivamente, seguir ou estar de acordo, e caminho. Portanto, a tradução literal corresponde a “seguir um caminho” ou “estar de acordo com um caminho”.

Um método constitui o conjunto de procedimentos para orientar determinada atividade ou pesquisa. No contexto científico, corresponde à forma de investigação organizada, que tem condições de ser repetida e de se autocorrigir, tendo por objetivo conduzir a resultados válidos. Entre os exemplos, destacam-se os métodos dedutivo, indutivo, matemático e experimental, cada qual envolvendo procedimentos próprios, adequados às especificidades dos objetos das diferentes ciências que os utilizam.

Uma vez que seguem as orientações de um método, as investigações científicas são consideradas “metódicas”. Ao realizá-las, o cientista procura conhecer leis universais que expliquem determinados fenômenos particulares, por meio da associação de uma classe de objetos a determinados processos e condições empíricos. Por exemplo: os corpos físicos dilatam-se na presença do calor.

As leis apresentam o encadeamento matemático dos fenômenos, permitindo a elaboração de equações para descrevê-los e até prevê-los. As teorias científicas, por sua vez, articulam fatos e leis, demonstrando a relação entre eles. Já as teorias filosóficas nem sempre buscam a comprovação empírica, organizando-se pela coerência lógica das suas afirmações.

Homem x Natureza

Renascimento

Durante o Renascimento, em especial no século XVI, a Europa viveu momentos de grande efervescência cultural, com a releitura de antigas obras, a descoberta de novas terras e, portanto, de outros modos de pensar e viver. O impacto dessa nova conjuntura sobre os padrões científicos adotados até a Idade Média foi imenso. Tanto que o século XVII tornou-se palco de reflexões decisivas para o surgimento da chamada ciência moderna, decorrente da afirmação de novos métodos para investigar a natureza.

Ensino Médio

Entre 1609 e 1642, as obras do físico italiano Galileu Galilei, por exemplo, romperam com o modelo aristotélico-medit de compreensão da realidade. Ele descreveu o mundo natural como um livro escrito em caracteres matemáticos a serem desvendados para que se pudesse compreendê-lo. Negou-se a reproduzir o conhecimento sobre a natureza, legado pela tradição e decorrente da mera especulação racional. Propôs-se a investigar os fenômenos naturais e as suas leis, por meio de observação, experimentação e cálculos que pudessem medir, matematicamente, a regularidade desses fenômenos. Suas afirmações geraram grande polêmica, sofrendo sérias retaliações, a ponto de Galileu ser obrigado pela Inquisição a desmentir publicamente algumas delas.

Outro nome que merece referência nesse contexto de transição para um novo modelo científico é o do inglês Francis Bacon. De 1597 a 1626, ele produziu obras que criticavam a concepção de conhecimento dos antigos e medievais. Defendeu a máxima “saber é poder”, desejando formar uma nova ciência, capaz de garantir à humanidade um pleno domínio sobre a natureza. Para ele, a ciência estava diretamente relacionada à técnica, e o seu valor subordinado à utilidade que ela pudesse ter para a vida prática. Ele é considerado o pai do método experimental, pois utilizava procedimentos indutivos de análise e comparação dos fenómenos, a fim de atingir o conhecimento das leis que os governavam. Seu método era rigoroso, seguindo passos predeterminados por aquilo que ele designava “tábuas de investigação”.

A física aristotética serviu como base para as investigações astronômicas de Ftolomeu e constituiu o modelo científico medieval por excelência. Considerada uma ciência teórica e não empírica, ela representava o estudo do movimento, numa perspectiva quali­tativa, ou seja, atribuindo-lhe uma finalidade: Deus (o primeiro motor, aquele que atrai os corpos gerando o seu movimento). Na modernidade, Galileu contribuiu para que a Física abordasse a realidade e o movimento de forma quantitativa. Além disso, passou a utilizar instrumentos de observação, como a luneta (ele até construiu uma em 1609), retirando as pesquisas do âmbito da pura teoria.

As tábuas de investigações eram sequências de procedimentos ex­perimentais, a que os fenômenos particulares deveriam ser submetidos, para se desvendarem as leis gerais que os determinavam. Elas deveriam ser exaustivamente aplicadas a inúmeros casos, a fim de garantir a confiabilidade dos resultados obtidos.

CONCEITO FILOSÓFICO

O conhecimento indutivo analisa os casos particulares para identificar uma lei geral. Observando, por exemplo, que inúmeras baleias lançam leite na água para alimentar seus filhotes, podemos concluir que todas as baleias são mamíferos. Isso exige um número significativo de observações, considerando diferentes espécies e indivíduos, a fim de estabelecer a validade da generalização. Já o conhecimento dedutivo segue o caminho inverso, parte das leis gerais para explicar os casos particulares. Podemos exemplificá-lo da seguinte forma: considerando que todo mamífero é um animal, sendo a baleia um mamífero, concluímos que ela é um animal. Esse tipo de procedimento envolve a reflexão, mas não estabelece novos conhecimentos, apenas demonstra o alcance daquele que já possuímos. Por essa razão, a Modernidade, ávida por novos conhecimentos, empenhou–se em desenvolver métodos de pesquisa que fossem pautados pela indução.

O impulso das teses de Bacon foi essencial para o estabelecimento de novos métodos para a pesquisa científica. Além disso, ele alavancou uma importante mudança de mentalidade ao propor que a busca do conhecimento científico superasse as limitações individuais e culturais dos homens, obstáculos a que se referia como ídolos. Defendendo essa meta, ele imaginou uma espécie de cidade utópica – ou seja, uma cidade idealizada, perfeita -, voltada ao desenvolvimento da ciência e da técnica, visando às suas aplicações práticas. Chamou-a de Nova Atlântida e a descreveu numa obra com esse mesmo nome.

Francis Bacon é considerado o pai da ciência experimental. Defendia a. busca de uma nova forma de conhecimento, asso­ciada à técnica e capaz de garantir ao homem o domínio sobre a natureza. Esse princípio nortearia a ciência moderna até o século XX, quando problemas ambientais provocariam reflexões sobre a necessidade de um novo modelo científico, pautado pela sustentabilidade, ou seja, por um uso mais equilibrado dos recursos naturais, especialmente os não renováveis.

Bacon submeteu as obras anti­gas a severas críticas, o que se revela até mesmo nos títulos de suas obras. A Novu Atlântida parafraseia uma narrativa de Platão sobre um antiquíssi­mo império de mesmo nome, que teria submergido ao mar. Afinal, a cidade idealizada por Bacon equivaleria a um império do homem sobre a na­tureza. Outro exemplo é a obra denominada Novum organun, que parafraseia o título dado ao conjunto de obras de Aristó-teles sobre Lógica. O objetivo é enfatizar a necessidade, segun­do Bacon, de substituição do modelo científico aristotélico.