Estética: Características e princípios


Muitas vezes nós nos deparamos com coisas, ambientes, situações ou pessoas que nos encantam meramente por sua beleza. Essa beleza por vezes é tão impactante que é capaz de produzir uma impressão que marcará essa experiência de contato com seu dono por muito tempo, ficando na memória daquele que por ela foi afetado um registro de sensações, misto de prazer e exercício de contemplação. Esse tipo de experiência, entretanto, não é privilégio da modernidade: os gregos antigos já se sentiam afetados por ela e questionavam sua origem e os seus motivos. Ao estudo desse conjunto de fatores que nos levam a sentir a beleza das coisas dá-se o nome de estética. Não à toa, a palavra é uma derivação do termo aisthetiké que significa “aquele que nota, que percebe”.

Estética

Desde cedo, notou-se que a estética é um conceito fundamentalmente ligado à contemplação, ação que, por sua vez, imprime-se de maneira inexorável no campo das artes. Ao passo em que é natural contemplarmos um belo pôr-do-sol ou uma bela paisagem natural, no caso da obra de arte a chave dessa relação é outra: ao contrário da natureza, de onde o ser humano extrai o belo como consequência, a obra de arte tem como pressuposto causar o assombro estético em seu receptor. Para a cultura grega da Antiguidade, uma obra de arte completa era aquela capaz de despertar no espectador a fruição estética, ou seja, imprimir propositalmente em todos aqueles que a vissem a mesma sensação que, de maneira descompromissada, causava o visual do alto de uma montanha ou as belas flores de uma planta, por exemplo.

Platão: a beleza inalcançável

Para o filósofo Platão, a estética não era concebida como um campo de saber isolado dos demais, mas estava inserida em um contexto maior e mais amplo que culminava sempre na busca por uma perfeição que só existia no plano ideal. Ao lado do “bom” e do “verdadeiro”, o “belo” compunha uma tríade cuja completude não era possível de ser alcançada pelo mundo sensível, restando a este somente a tentativa – sempre incompleta – de alcançar tais aspectos. Por consequência disso, ou seja, dessa impossibilidade do mundo sensível e dos homens serem capazes de alcançar esse conceito existente somente no mundo das ideias, era também impossível julgar qualquer produção do mundo sensível sobre o seu nível de alcance estético. O homem, para Platão, comporta-se somente como alguém que é atingido pela beleza. Na contrapartida, isto é, em seu momento de ser emissor dessa beleza, ele atua sempre como um simulador ou, no máximo, um copiador fidedigno de sua essência.

Aristóteles: estética como princípios

Em seu pensamento a respeito da estética, o discípulo de Platão vai deslocar o conceito do belo do plano da idealização para o campo sensível. Aristóteles entenderá o belo como uma expressão física, um conjunto de diretrizes e aspectos formais que, quando caminhando juntos, são capazes de expressar e reproduzir uma fruição estética em quem o assiste. Essa categorização a respeito do belo é típica do pensamento de Aristóteles, e curiosamente estará presente em uma de suas mais famosas obras, a Poética, onde o filósofo reúne uma série de apontamentos a respeito dos ideais estéticos que naturalmente regem ou que, a princípio, deveriam reger as tragédias gregas.

Essa conceituação proposta por Aristóteles, que retira o belo do campo das ideias e o corporifica como sendo um aspecto formal capaz de ser alcançado mediante um esquema pré-determinado possibilita também a aquisição de um juízo de valor a respeito da arte: agora, os homens também são capazes de julgar as obras de arte produzidas tendo em vista a sua adequação a esses aspectos formais.

Kant: a subjetividade como juiz estético

A tentativa de desvendar os mistérios da beleza não foi suprimida pelas propostas dos filósofos da Antiguidade Clássica. Pelo contrário: essa discussão permeou e continua permeando a filosofia. Mais adiante no tempo histórico, quem vai apresentar uma nova conceituação a respeito do belo e de seus desdobramentos é o filósofo alemão Immanuel Kant.

Kant dirá que a beleza atua em nosso inconsciente como um sentimento mediador entre a nossa razão, isto é, nossa capacidade imediata e prática de responder aos estímulos exteriores, e o nosso intelecto, responsável por tentar atribuir uma explicação aos mesmos estímulos. Nesse sentido, a estética seria a expressão subjetiva primeira de um sentimento de prazer que surge dentro de cada um na medida em que um estímulo exterior se apresenta. Ela não corresponde a uma análise profunda do emissor desse estímulo, seja ele um objeto, um cenário ou uma pessoa, mas decorrer de uma sensação decodificada a priori por uma análise de recorte extremamente pessoal. Uma vez instaurada essa sensação, torna-se pertinente e prazeroso continuar olhando para aquilo que nos despertou tal sentimento, e é justamente a manutenção ou a preservação desse estado a que chamamos de beleza.