Indústria Cultural


Heranças dos séculos XVIII e XIX, a tecnologia industrial e o capitalismo atingiram também o campo da Estética. No século XX, marcado por movimentos artísticos, novas ideias políticas e duas guerras mundiais, um grupo de filósofos de orientação marxista, conhecido como Escola de Frankfurt, refletiu sobre os vários efei­tos dessa herança, inclusive a transformação da arte em produto e entretenimento descartável, por meio de suas relações com a tec­nologia e o capital. Por outro lado, as tecnologias de comunicação e reprodução foram bem recebidas pelas massas, que, com maior ou menor senso crítico, passaram a ter algum tipo de contato com obras antes só conhecidas por elites econômicas e intelectuais.

Que defendiam a teoria socialista, desenvolvida pelo filósofo alemão Karl Marx, no século XIX, em contraposição ao modelo capitalista de produção econômica e de relações sociais. Em virtude da cidade alemã em que iniciou suas discussões, o grupo de filósofos marxistas, que cunhou as expressões “indústria cultural” e “reprodutibilidade técnica da arte”, entre outras, ficou conhecido como Escola de Frankfurt. Adorno, Horkheimer e Benjamin, cujas ideias apresentamos neste volume, faziam parte desse grupo.

Indústria

Indústria cultural

Theodor Adorno e Max Horkheimer descreveram um fenômeno cultural recente: a indústria cultural, gerada pelos efeitos da tecnologia industrial sobre as obras de arte e informações, que passaram a ser padroni­zadas para favorecer o consumo e o lucro. Segundo eles, a submissão da cultura aos interesses econômicos e ao consumo promovia os valores do capitalismo e reforçava as desigualdades sociais.

Adorno afirmava ainda que o Iluminismo do século XVIII libertou o homem do domínio de certo “medo mági­co”, para que ele pudesse se afirmar como um ser livre e racional; mas o século XX trouxe um “anti-iluminismo” e com ele a dominação brutal do homem pela técnica. A própria arte tornou-se um produto da técnica, voltado 1 ao mercado e visando gerar negócios, consumo e entretenimento. Além disso, o tempo livre passou a ser gasto com os produtos da indústria cultural, mercadorias fabricadas tecnologicamente para a diversão – o que, num ciclo vicioso, transformou o lazer em extensão do trabalho operário, quando ele deveria ser uma libertação momentânea deste.

Relação entre cultura e comércio. Pode ocorrer, por exemplo, na apresentação de produtos em filmes, novelas e programas ou na associação da marca de programas, personagens ou pessoas a produtos fabricados para o consumo.

Por outro lado, essa indústria teria o poder de estimular e enganar o desejo humano de posse e consu­mo: prometendo e não cumprindo, oferecendo e privando, criando necessidades e estabelecendo os limites da satisfação possível. Produtos culturais seriam desejados por oferecerem erotismo, poder e satisfação que, na verdade, o consumidor jamais alcançaria. Cinema e TV, por exemplo, seriam capazes de estimular o consumo por meio do merchandising de certos produtos, explorando formas de sedução e impondo seus padrões de beleza. Assim, venderiam imagens inatingíveis de felici­dade e sucesso, além da falsa impressão de que ambos só poderiam ser obtidos quando os padrões impostos se realizassem.

Técnica e reprodução

Walter Benjamin falou de um aspecto importan­te para o êxito da indústria cultural: a reprodução técnica das obras de arte. Para ele, a arte sempre foi suscetível à reprodução. À medida de suas possibili­dades, todas as épocas imitaram as obras dos gênios para aprender, difundir ou falsificar a arte e obter lucro. Mas nunca houve tanta tecnologia para facilitar esse trabalho como a partir do século XX, com os avanços da fotografia, do cinema e das outras formas de reprodução, que não param de crescer até nossos dias. Já no século XXI, o que ele não diria sobre a reprodução por meio de informática e da internet?

Segundo Benjamim, a reprodutibilidade técnica tirou da obra de arte a aura sagrada de sua origem, transformando-a em produto artificial e repetitivo. Além disso, as próprias técnicas de reprodução passaram a ser vistas como formas originais de arte, espalhando os valores do capitalismo. Para reverter esse processo, à medida do possível, ele falou da necessidade de politizar a arte, especialmente o cinema, para difundir valores contrários aos do sistema dominante. Vale a pena discutir os limites e as possibilidades dessa proposta!