Kant e o Mundo que nos Cerca


Vamos começar a nossa conversa com uma provocação realizada por um importante filósofo do século XVIII chamado Immanuel Kant. Saiba que nem todos os filósofos concordam com Kant, mas a maioria admite a força da afirmação defendida por ele. É o meu caso. E por esse caminho iniciaremos…

O que Kant afirma, em síntese, é que não somos capazes de conhecer inteiramente os objetos reais e que o nosso conhecimento sobre os objetos reais é fruto do que somos capazes de pensar sobre eles.
Mas o mundo está aí – você poderia dizer – e nós tocamos coisas, vemos, cheiramos, produzimos. Como não conhecemos o que nossos olhos, mãos e nariz sentem?

Pois então veja: Se o que nos permite conhecer o real são ideias que temos e se boa parte dessas ideias – ou todas elas como pensam outros filósofos – são aprendidas, não é importante querer saber como nós as aprendemos? Quem nos ensina? Com qual interesse nos ensina?

Kant

Bem que você poderia responder: não!

Mas então ouça: Uma das maiores conquistas de quase todo o Ocidente nos últimos séculos foi a liberdade de pensamento e de expressão. Dizer o que queremos, pensar com liberdade e autonomia.
Você não acha que é um direito seu a liberdade de pensamento e de expressão?

Até porque estamos conversando e você está res­pondendo livremente, pois seria estranho responder “não” a esta pergunta, não é? Mas aí é que está: O que você pensa, livre e orgulhosamente, é realmente o que você pensa?

Se eu penso sobre as coisas que eu vejo e ouço e, com base nisso, emito opiniões e tomo atitudes, assumindo-as como minhas, não é importante refletir sobre as condições desse conhecimento?
Acompanhe essas duas histórias: a primeira é um fato real que aconteceu comigo durante uma viagem à Grécia. Eu estava triste e um pouco deprimido por uma série de assuntos de ordem pessoal e ainda can­sado com a subida que tive de fazer até o alto de um morro onde teria de tirar fotos para um trabalho na editora. Era primavera, o dia estava claro e uma brisa amena soprava da Baía de Corinto. Bem, vou deixá-lo com o que escrevi no meu diário:

Fortaleza da Antiga Corinto. Sei que não vou con­seguir com as fotos – que eu mal sei tirar – atingir a beleza e a sensação de estar aqui neste lugar. Magní­fico! Tantas cores, luzes e sons! Imagino como os pin­tores veriam isso! Eu, no meu estado de ostra, ao entrar nesse “retrato impressionista”, comentei lúgubre, com meu amigo: “Deve haver algo morto aqui!” Isto porque eu ouvia um zumbido de “moscas” e tal som me lem­brou imediatamente a morte e a degradação.

Mas aqui?

Na verdade eram abelhas que zumbiam em meus ouvidos. Em vez de morte, o que há aqui é uma explo­são de vida! A outra é a de um filme chamado Muito mais que um crime, do diretor Costa-Gavras. Conta o seguinte:

Uma família de imigrantes húngaros vivia feliz nos EUA havia 37 anos. O pai, fugido do regime comunista, logo após a Segunda Guerra Mundial, trabalhou durante trinta anos em uma siderúrgica, criando dois filhos. O rapaz lutou na Guerra do Vietnã, e a moça transformou-se em uma promissora advogada. Ela deu um neto ao senhor imigrante e ele era para esse menino mais que um avô, era um amigo e conselheiro.

Um dia, o Departamento de Justiça dos EUA enviou um ofício para a família, intimando o senhor que se cha­mava Mike Laszlo – para comparecer ao tribunal, porque o governo húngaro havia solicitado a extradição dele sob a acusação de que era um criminoso nazista, chefe de um grupo de extermínio chamado Arrow Cross, responsável pela morte e deportação de milhares de judeus.
A filha – que se chamava Anne Talbot – assumiu a defesa do pai, estupefata com tamanho absurdo. Afinal, havia uma história que ela conhecia bem, além de todos os anos de convivência com este homem gentil e trabalhador que não combinava em absoluto com aquilo de que o acusavam.

Durante o julgamento, várias testemunhas prova­ram que Mike era de fato um carrasco, um homem monstruoso, capaz de matar a sangue frio e cometer atrocidades inimagináveis. Como Anne Talbot poderia acreditar no que via? Não era possível. Definitivamente isso não é verdade, afirmava ela, incrédula. Bem, o fim do filme não vou contar. Mas já temos o mais importante para refletir um pouco.

Essas duas histórias, além da conversa que inicia­mos, permitem que trabalhemos um pouco sobre as seguintes questões:

•       Sobre qual assunto estamos tratando?
•       Que títulos você daria para as duas histórias, de forma que tais títulos refletissem a mensagem principal das histórias?
•       Qual a importância do assunto que estamos tratando?
•       Você poderia escrever urna história que tenha como principal conteúdo o assunto que estamos tratando?

O título dessa primeira unidade é O mundo que nos cerca, por se tratar de considerações iniciais sobre as coisas do mundo, mas, se você percebeu, toda a conversa diz respeito a nós e como nós sentimos as coisas do mundo. Pois é isso que é impor­tante: O que vemos, como vemos e por que vemos as coisas do mundo. É verdade que também é muito importante sabermos o que fazer com isso, mas isso nós conversaremos mais para frente.