Questão Filosófica da Arte, Movimentos Artísticos e Vanguardas Brasileiras


Atualmente, novos temas enriquecem a reflexão estética. Entre eles, destacam-se os movimentos ar­tísticos de vanguarda (que propõem linguagens e métodos revolucionários) e as relações entre arte, propaganda e tecnologia.

Arte em movimento

Com o decorrer do tempo, adotaram-se rígidas normas para a máxima perfeição e beleza na representa­ção artística da realidade. Os críticos de arte ancoraram sua análise na fidelidade a tais normas. Porém, no século XIX, a âncora começou a ruir com a chegada de movimentos que se ramificariam pelo século seguinte, influenciando todas as manifestações artísticas. A seguir, tomaremos, principalmente, o exemplo da pintura para demonstrar os efeitos dessa mudança.

Questão Filosófica da Arte

Realismo

O primeiro sinal da mudança mostrou-se no rompimento com uma característica marcante das artes plás­ticas: a idealização dos modelos representados. Uma nova corrente denominada Realismo passou a retratar cenas corriqueiras, pessoas comuns e até elevados temas religiosos com uma desconcertante simplicidade, destacando apenas os elementos principais e excluindo os detalhes em torno deles, numa tentativa de mostrar as coisas como elas são e não como ideais.

Impressionismo

Outro grupo decidiu não retratar as coisas, mas a impressão que elas provocam nos sentidos. Por isso, pintavam ao ar livre, retratando movimentos e reproduzindo efei­tos da luz natural sobre seres e paisagens. Sua recusa a métodos e normas tradicionais abriu caminho a movimentos de vanguarda, que seriam reunidos sob o rótulo de Moder­nismo. Contudo, os impressionistas foram duramente criticados pela confusão de suas imagens, efeito que se atenua a certa dis­tância dos quadros, revelando uma grande habilidade técnica dos artistas.

Expressionismo

O impacto das obras expressionistas foi ainda mais chocante. Sem respeito à aparência natural das coisas, nem com­promisso com o belo, essa nova pintura retratava as emoções do artista diante da realidade. Modificando ou até mesmo ignorando as formas convencionais, ela abriu novas portas à liberdade e à ima­ginação criativa.

Arte pela arte

A defesa da liberdade criativa gerou inúmeros movi­mentos, entre os quais podemos destacar os seguintes:

•  Cubismo: chegou-se à decomposição da imagem em partes geométricas para formar novos conjuntos capazes de desafiar a percepção e a interpretação.

•  Primitivismo: o apego à simplicidade afastou muitos pintores dos modelos tradicionais, envolvendo-os na descoberta de novos arranjos e possibilidades de diferentes cores e formas.
•  Surrealismo: retratar “realidades” oníricas e imaginárias, ou seja, presentes nos sonhos e na imaginação.

Assim, contra as normas dos eruditos, a experi­mentação tornou-se cada vez mais livre, sendo, po­rém, criticada por gerar obras tão abstraías, que exi­giam uma nova erudição para serem compreendidas.

Fim dos movimentos

Nos séculos XIX e XX, enquanto a fotografia modi­ficava o olhar e a ação dos pintores, o apego da arte experimental à simplicidade e sua recusa a métodos e normas tradicionais tornavam ainda mais difícil a tarefa de diferenciar o que é e o que não é arte. E logo os movimentos libertários do Modernismo foram atropelados pela visão eclética da Arte Pós-Moderna, que reunia vanguarda e estilos tradicionais, em uma mistura que tanto agradava quanto escandalizava. Com ela, veio também a pop art, trazendo, para o campo da pintura, temas ligados ao consumo e ao ca-ráter descartável dos produtos no mundo capitalista.

A palavra Modernidade refere-se ao período e à mentalidade que se desenvolveram entre os séculos XVI e XVIII. A palavra Modernismo refere-se aos movimentos culturais e artísticos de vanguarda das primeiras décadas do século XX.

Vanguardas brasileiras

Impressionismo, Expressionismo, Primitivismo, Surrealismo e outros movimentos de vanguarda atingiram também a escultura, a arquitetura, a música, a poesia e a literatura. Além disso, o nascimento da fotografia e do cinema trouxe mudanças importantes. Assim, em pouco tempo, eles também sofreram novas abordagens. Nesse contexto, veja alguns dos mais expressivos movimentos artísticos e culturais do Brasil no século XX:

–    Semana de Arte Moderna de 1922: Trouxe a “estética modernista” para a poesia, a literatura, as artes plásticas e a arquitetura. Baseou-se em elementos, como linguagem coloquial, liberdade expressiva e busca de uma identidade cultural que refletisse como o Brasil “digere” elementos culturais de sua origem indígena, influências africanas, europeias e outras, formando uma cultura singular – atitude denominada Antropofagia. Entre os principais representantes desse movimento, destacaram-se: Oswald e Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Villa-Lobos, Victor Brecheret e António Moya.

–    Cinema Novo: Nas décadas de 1950 e 1960, artistas brasileiros buscaram uma nova forma de fazer” cinema, incluindo críticas sociais e políticas baseadas na realidade do país. Utilizaram uma abordagem conhecida como “estética da fome”, com cenas realistas – gravadas em favelas e comunidades carentes – e um mínimo de tecnologia. Desejavam criar e conscientizar, o que faziam com “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”, segundo as palavras do cineasta Glauber Rocha. O resultado desse movimento recebeu a designação de Cinema Novo e obteve reconhecimento internacional. Seus principais representantes foram: Glauber Rocha, Caca Diegues, Rui Guerra e Nelson Pereira dos Santos.

–    Bossa nova e Tropicalismo: Em 1958, João Gilberto inaugurou a bossa nova, estilo influenciado pelo jazz, que buscava simplicidade no canto e nos instrumentos, com ênfase no violão, na metapoesia e em temas do cotidiano carioca. No ano de 1967, no auge da Ditadura Militar, músicos baianos, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, iniciaram o Tropicalismo, que chegou também ao cinema e à literatura. Eles incorpora­ram múltiplas influências, de forma original – atitude conhecida como “antropofagia”, desde as vanguardas modernistas de 1922 -, além de propor novas linguagens e comportamentos. Os dois estilos foram criticados pelos estudantes mais politizados da época, acusados de ignorarem problemas sociais e de aceitarem influên­cias estadunidenses, como a do rock. Mesmo assim, ambos conquistaram importantes lugares na história da música. Outros representantes que se destacaram nesses movimentos: Tom Jobim, Chico Buarque e Edu Lobo
(bossa nova), Gal Costa, Tom Zé e Mutantes (Tropicália).