Razão x Sentidos


As mudanças propostas no século XVII em relação aos métodos de produção do conhecimento geraram longos debates sobre os seus verdadeiros fundamentos. Isso levou ao surgimento de novas teorias filosóficas, divididas em duas tendências principais: o racionalismo e o empirismo.

Pensadores de orientação empirista, o inglês John Locke e o escocês David Hume, afirmavam que a base para o que conhecemos é o que sentimos. Já o francês René Descartes e o alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, de orientação racionalista, destacavam as ilusões e os enganos gerados pelos sentidos, bem como o papel fundamental da razão para corrigi-los.

Razão

No século seguinte, o alemão Imannuel Kant analisou criticamente as duas teses, chegando a uma terceira e inaugurando o criticismo. Segundo ele, o conhecimento dependeria tanto das impressões dos sentidos quanto das formas de pensamento que compõem a razão. A seguir, você terá contato com elementos dessas três teorias.

O racionalismo
O empirismo
O criticismo

Racionalismo

Um dos mais célebres representantes do racionalismo foi Descartes, cuja obra revela a busca de um fundamento sólido para as ciências, capaz de garantir a certeza sobre as suas afirmações. Descartes propôs que esse fundamento era a própria razão, pois acreditava que ela fosse dotada de ideias inatas – claras e distintas, ou seja, evidentes -, e que pudesse julgar a verdade ou falsidade das aparências, a fim de conhecer a realidade.

No desejo de evitar os preconceitos acumulados pela tradição, bem como a precipitação de aceitar algo como verdadeiro, sem antes refletir a respeito, ele voltou suas atenções para a Matemática. Desejava alcançar, na Filosofia, verdades tão incontestáveis, evidentes e invariáveis como as que encontrava na Matemática. Portanto, estabeleceu um método, com base na Geometria, para reavaliar todo o conhecimento adquirido em sua formação cultural e orientar a busca de novos conhecimentos. Decidiu duvidar sistema­ticamente de tudo o que percebia e de tudo o que aprendera, submetendo cada crença à necessidade de uma prova racional para, só então, adotá-la. O método era composto de quatro passos, que serão descritos na Leitura filosófica a seguir.

As ideias de Descartes influenciaram pensado­res, como o holandês Baruch Espinosa e o alemão Leibniz. Filósofo, político e matemático, Leibniz desenvolveu o cálculo diferencial ao mesmo tempo que o físico inglês Isaac Newton, mas por caminhos diferentes. Também foi o primeiro a propor a criação de uma lógica que se utilizasse de símbolos, a fim de avaliar as conclusões dos raciocínios por meio de uma espécie de cálculo, adequando os conteúdos a fórmulas prévias.

Leibniz era um grande defensor do racionalismo e do inatismo, ou seja, afirmava que certas ideias e princípios existem em nós previamente e, mesmo sendo perceptíveis na realidade por meio dos sentidos, não provêm deles, mas da razão. Como exemplos de conhecimentos inatos, ele citava os princípios gerais da Aritmética, da Lógica e da Geometria. O texto a seguir apresenta algumas afirmações desse filósofo, que tanto valorizava a razão e a Matemática.

Empirismo

Os filósofos de orientação empirista discordavam do cartesianismo matemático dos radonalistas. Apontavam a experiência como fonte do conhecimento, afirmando que ele se constrói com base nas percepções dos sentidos e não de princípios inatos – isto é, de noções primárias que fariam parte da essência da mente humana, sem depender de qualquer experiên­cia para se formar.

Segundo John Locke, tudo o que conhecemos tinha origem na experiência. Portanto, ele a valorizava como critério para a afirmação da verdade do co­nhecimento e também para a afirmação da legitimidade do poder político, até então considerado um direito inato de certas pessoas.

Locke afirmava que a mente era como uma “tabula rasa”, ou seja, uma folha em branco, preenchida aos poucos com ideias obtidas em experiências, sendo possível o entendimento humano relacioná-las de diferentes formas, por meio da reflexão, compondo, assim, ideias mais complexas e mais abstratas. No entanto, afirmava que nada havia na mente que não tivesse nos sentidos a sua origem.

Hume considerava a experiência como base do conhecimento humano, porém ressaltava os limites desse conhecimento. Segundo ele, considera­mos como leis naturais as relações que habitualmente percebemos entre os fenômenos. No entanto, não há como garantir que essa regularidade se mantenha em todas as nossas experiências futuras.

Hume foi considerado um filósofo cético por duvidar de um conheci­mento completamente seguro. Ele defendia a experiência como fonte de conhecimento, mas lembrava que este último seria sempre limitado e preso aos nossos hábitos. Não acreditava, por exemplo, que uma coisa fosse causa ou efeito de outra. Dizia que o hábito de vê-las em sequência é que nos levava a imaginar uma lei de causalidade entre os fenômenos.

Nos textos a seguir, você verá, respectivamente, algumas afirmações de Locke e Hume sobre o papel da experiência em relação às ideias e, portanto, aos conhecimentos humanos.