Sócrates e Platão: Relação Discípulo x Pensador


Vimos que o período antropológico foi mar­cado pela investigação filosófica sobre o homem, sua identidade e origem, suas angústias, seus de­sejos e deveres. Sócrates é considerado o grande marco da transição entre as investigações cosmológicas e antropológicas. Essa mudança foi muito significativa para os estu­dos filosóficos da época e exerceu grande influência em toda a história do pensamento ocidental.

Sabe-se que Sócrates abordava seus interlocutores, utilizando uma máxima que se achava inscrita uo templo de Apoio, em Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Por meio de questionamentos, ele levava as pessoas a refletirem sobre a razão humana e sobre seus próprios conhecimentos, interesses, necessidades e senso de justiça. Desconcertante para a época – e talvez ainda o fosse para os dias atuais -, era considerado o mais sábio dos homens e, no entanto, repetia categoricamente: “Só sei que nada sei”.

Sócrates e Platão

Conceito filosófico

Em relação ao pensamento do período antropológico, a palavra “razão” possui um sentido muito específico. O pensamento socrático, revelado pelas obras de Platão, descrevia o homem como um ser essencialmente racional, havendo grande identificação entre a razão e a virtude. O bem era apontado como a ideia mais sublime, identificando-se com a beleza e com a verdade. Sendo assim, o ideal de homem virtuoso era representado pelo filósofo, aquele que se dedicava à investigação racional da realidade, em busca do conhecimento verdadeiro. Afinal, para Sócrates, a ação coerente com o bem se entrelaçava ao conhecimento da verdade.

DISCÍPULO OU PENSADOR?

Platão nasceu em 428-7 a.C., em Atenas, e morreu em 348-7 a.C. Um ano antes de seu nascimento, morria Pérides. Dez anos depois de sua morte, o mundo grego seria conquistado e anexado ao vasto Império Macedônico. Sendo assim, o filósofo viveu entre o auge da democracia ateniense e o fim de uma ordem social que alimentava o pensamento com os ideais de liberdade e realização política. Foi discípulo de Sócrates, mas, ao contrário de seu mestre, praticava e ensinava Filosofia na Academia, um espaço criado por ele para ensinar quem quisesse e pudesse estudar. Utilizava diálogos para demonstrar seus raciocínios e reproduzia essa forma de reflexão em suas obras escritas, construídas como diálogos em que Sócrates era personagem e interagia com diversos interlocutores. Esses escritos apresentam duas fases distintas, reconhecidas pelos estudiosos: uma extremamente influenciada por Sócrates, e outra, posterior, marcada por uma reflexão propriamente platónica.

Tais coisas, sendo múltiplas e mutáveis, não passariam de cópias imperfeitas das ideias unas, estáveis e perfeitas que, no mundo inteligível, serviam-lhes de modelos.

Isso se deve principalmente à morte de Sócrates, condenado a beber cicuta porque sua atitude questionadora atingira os poderosos em seus interesses. Tal injustiça levou Platão a desenvolver teorias em torno de uma sociedade ideal, governada por filósofos verdadeiramente comprometidos com a justiça e a verdade.

Para tratar de assuntos complexos, Platão utilizou, em seus diálogos, o recurso das imagens simbólicas, como as do prisioneiro e da caverna. Elas ficaram conhecidas como alegorias ou mitos. No entanto, possuem uma origem e uma construção diferente em rela­ção às narrativas que compõem a Mitologia grega. São utilizadas para ilustrar teses às quais o filósofo chegou por meio do raciocínio e do diálogo, em que opiniões contrárias se confrontavam. A Alegoria da caverna, por exemplo, é um recurso utilizado para exem­plificar a postura que cabe ao filósofo, em sua busca pela verdade e em sua atuação política, segundo a visão socrática.

Uma vez que percebia corrupção, decadência e injustiças na democracia l ateniense, ele imaginou uma cidade bem governada e preocupada com a virtude. No livro VII desse diálogo, apresentou a Alegoria da caverna, também conhecida como Mito da caverna,Tal como o prisioneiro que sai da caverna, contempla a verdade e procura esclarecer os demais prisioneiros, o filósofo deveria afastar-se do mundo sensível, marcado pelos sentidos e pelas opiniões do senso comum, em busca do mundo inteligível, onde contemplaria o bem e a verdade. Em seguida, caber-lhe-ia a tarefa de orientar os demais cidadãos. Portanto, seu papel seria, ao mesmo tempo, intelectual, político e pedagógico.

Prisioneiros em uma caverna

Imagine uma caverna e, em seu interior, prisioneiros imobilizados, olhando apenas para a parede do fundo. Nessa parede, são projetadas sombras. Na frente da caverna, em um nível mais baixo, existe um caminho, por onde passam muitas pessoas, conversando e carregando diferentes objetos nos ombros ou sobre a cabeça. Enquanto isso, uma chama, eternamente acesa, projeta no fundo da caverna as sombras das coisas que elas carregam. Os prisio­neiros imaginam que as sombras projetadas são as coisas em si, acreditando ainda que as vozes pertençam a elas.
Um dia, com muita dificuldade, um prisioneiro sai da caverna e conhece a realidade do mundo exterior. Então, ele volta à caverna, mas não consegue convencer os demais sobre a existência de outra realidade, muito melhor, do lado de fora.