Sofistas na Filosofia: Relativismo e a busca pela Verdade


Um dos usos da palavra relativismo em Filosofia refere-se à compreensão da verdade, não como algo univer­salmente válido, mas como algo relativo, isto é, que se modifica no tempo e no espaço, segundo a variedade das relações humanas e dos contextos socioculturais em que elas se estabelecem.

Os Sofistas

Os sofistas foram duramente criticados por toda uma tradição filosófica, fundamentada em princípios socrático–platônicos. A principal acusação que pesava sobre eles era justamente a de relativismo, algo que essa tradição considerava perigoso, tanto para a busca de uma boa conduta, quanto para a busca do conhecimento. Por outro lado, mais tarde, essa tradição sofreria a acusação de dogmatismo, ou seja, de afirmar uma verdade sem considerar a possível inconsistência do seu ponto de vista.

Sofistas

Sócrates foi contemporâneo de alguns sofistas e, tal como eles, investigou o mundo humano, refletindo sobre a vida social, suas leis e os valores que as sustentavam. No entanto, negou-se a aceitar qualquer forma de relativismo. Ele desejava conhecer a essência das virtudes e dos valores, ou seja, compreender o verdadeiro significado do Bem, da Justiça, da Verdade, da Beleza e assim por diante.

No século IV a.C., Platão foi herdeiro do pensamento socrático e investigou inúmeros temas, entre os quais, o conhecimento. Em suas obras, apresentou o conhecimento sensível como fonte de muitos enganos. Mostrou que isso decorria não só de limitações do corpo e dos sentidos, mas também das próprias coisas que se tentava conhecer no mundo físico, pois elas partilhavam a natureza imperfeita, instável e corruptível da matéria.

Da mesma forma, em relação às virtudes e aos valores do mundo social, ele defendeu a necessidade de ultrapassar a diversidade e as contradições entre as opiniões individuais, em busca de uma verdade universal.

Segundo esse filósofo, os objetos sensíveis e as ações humanas expressavam, de forma limitada e mutável, as ideias (ou formas) plenas e eternas dos objetos e das virtudes. Tudo o que existia no mundo sensível em que nos encontramos participava de uma determinada ideia, sem, contudo, alcançar a perfeição e a estabilidade. Logo, seria impossível que alguém encontrasse, por exemplo, uma mesa perfeita ou um cavalo perfeito. Afinal, em relação às ideias correspondentes, cada mesa e cada cavalo sensíveis deixariam de apresentar inúmeros aspectos e qualidades. Além disso, eles estariam sujeitos à corrupção da matéria, deixando de existir em algum momento. Sendo assim, como poderia o conhecimento dos objetos sensíveis contentar àqueles que buscavam a sabedoria? Além disso, mesmo no âmbito social, seria impossível encon­trar a essência das virtudes. Uma boa ação humana, por exemplo, jamais poderia ser comparada à perfeição característica da ideia do Bem.

Platão e a busca pelo Conhecimento

Sendo assim, Platão defendia a superioridade do conhecimento inteligível. No entanto, reconhecia a impossibilidade do acesso direto e da compreensão plena das ideias, pois o homem também possuía uma dimensão sensível. Por isso, ele acreditava que o filósofo deveria dedicar-se a libertar progressivamente a sua alma de desejos do corpo, de ilusões dos sentidos e de equívocos das opiniões irrefletidas dos homens comuns. Esse esforço foi exemplificado por Sócrates, que preferiu morrer a trair o que considerava a busca da verdade. Foi também exemplificado, na Alegoria da caverna, pelo prisioneiro que deixou de lado as sombras, dedicando-se a olhar, cada vez mais diretamente, as coisas em si e a luz do Sol. Mirando-se nesses exemplos, Platão criticava o conhecimento opinativo, que ele designava por dóxa e que nós hoje designamos por senso comum. Julgava que a falta de uma base reflexiva sujeitava esse tipo de conhecimento a contradições. As opiniões nasceriam da aparência múltipla, limitada e instável daquilo que possui a natureza sensível. Elas deveriam, portanto, ser superadas em favor de um conhecimento que tomasse como base a unidade, a per­feição e a estabilidade das ideias.

Nesse contexto, a Filosofia era considerada a busca de um conhecimento intelectual, verdadeiro e uni­versal, capaz de aproximar o homem da sabedoria. Portanto, ela estaria em oposição à experiência sensível e à dóxa ou senso comum, conhecimento parcial, nascido das experiências vividas por alguém ou, até mesmo, ouvidas por ele de outras pessoas. Além disso, Platão acreditava que, num momento anterior à existência corpórea dos seres humanos, suas almas estiveram em contato direto com as ideias no mundo inteligível. Portanto, ao observar os elementos do mundo sensível e as ações nele realizadas, os seres humanos pode­riam, mediante o esforço para libertar-se dos apelos do corpo, relembrar, aos poucos, as ideias perfeitas e eternas das quais eles participavam. Desse modo, na visão platónica, o conhecimento correspondia à busca da essência de cada coisa, por meio da razão e da reminiscência (recordação).