Teoria do Conhecimento na Antiguidade e na Idade Média


reflexão sobre o conhecimento humano perpassa toda a história da Filosofia. No século VI a.C., enquanto investigavam a nature­za, os pré-socráticos já se mostravam preocupados em alcançar um conhecimento seguro sobre ela. Tais filósofos sentiam-se desafiados a compreender e explicar com clareza a realidade que percebiam, tarefa dificultada pela multiplicidade e pela mudança constante dos elementos dessa realidade.

Nesse contexto, Parmênides falou sobre a existência de duas vias que poderiam ser percorridas na busca pela verdade. A primeira, duvidosa e incerta, ele chamou dóxa, cujos significados são aparência e opinião. Seguir por ela, ou seja, confiar nas percepções dos sentidos, afastaria o homem da verdade, condenando-o ao engano. A segunda via, rigorosa e segura, ele chamou epistéme, que significa conhecimento, ciência. Parmênides acreditava que somente ela conduziria o homem ao ser, àquilo que realmente existe, revelando como é a realidade, por meio do raciocínio.

Teoria do Conhecimento

Nesse período, não havia a distinção atual entre conhecimentos cien­tíficos e filosóficos. Portanto, a palavra epistéme não indicava a noção de ciência que temos hoje – pois ela decorre, principalmente,  dos séculos XVII e XVIII, quando se desenvolveu o método experimen­tal, com a aplicação da Matemática e de instrumentos tecnoló­gicos aos experimentos. A palavra epistéme indicava um sentido anterior do termo “ciência“: o saber. E, ainda hoje, quando queremos dizer que sabemos ou que alguém precisa saber algo, podemos afirmar que estamos cientes ou que ele precisa tomar ciência disso.

Retrato de Parmênides, filósofo pré-socrático da   » cidade grega de Eleia. No século VI a.C., ele defendeu a polêmica tese do imobilismo, ou seja, de que o movimento e as mudanças não passavam de aparências.

CONCEITO FILOSÓFICO

A palavra dóxa pode ser traduzida por opinião e aparência. Ela constitui a raiz do termo “doxografia”, utilizado para nomear textos em que determinados autores emitem suas opiniões sobre as ideias de outros pensadores. Boa parte do que conhecemos a respeito da obra dos pré-socráticos, por exemplo, decorre de textos dessa natureza, escritos por filósofos de diferentes épocas e lugares.
Já a palavra epistéme, que traduzimos por conhecimento ou ciência, constitui a raiz do termo “Epistemologia”, o qual também se utiliza para nomear a área de estudos filosóficos a que você está se dedicando, ou seja, a Teoria do Conhecimento.

Se quisermos traduzir a palavra “conhecimento” do português para o grego, encontraremos diferentes alternativas: gnósis, íógos, epistéme, materna, theoria, sophia. Todas elas referem-se a algum aspecto do conhecimento intelectual. Para o conhecimento sensível, encontraremos a palavra áistesis, que deu origem ao termo “Estética“.

Entre os filósofos da antiga Grécia, predominou a valorização do conhecimento intelectual e a atenção à unidade que nos permite reconhecer os elementos do mundo que nos cerca, apesar da multiplicidade e das mudanças que os caracterizam. Isso não significa, porém, que todos pensassem da mesma forma e que não houvesse divergências entre eles em aspectos importantes. Conheça alqumas delas a seguir.

Multiplicidade

No século VI a.C., Heráclito afirmava que a multiplicidade, o movimento e a contra­dição estavam presentes em todas as coisas. Para ele, não havia o ser (uma realidade fixa e imutável), mas o devir (o constante vir a ser das coisas, o seu eterno processo de oposição e mudança). Seria inútil buscar algo uno e fixo nesse constante fluir ou devir de coisas múltiplas e contrárias entre si. Logo, a unidade não poderia ser tomada como base para o conhecimento. Afinal, desse ponto de vista, nada era (definitivamente), tudo estava (provisoriamente), mesmo quando aparentava permanecer igual. Ainda assim, Heráclito valorizou o aspecto racional do conhecimento, mostrando que caberia à razão revelar a verdadeira natureza das coisas, corrigindo a falsa percepção de imobilidade e estabilidade daquilo que era essencialmente móvel e instável.

Relativismo

Nos séculos IV e V a.C., alguns intelectuais, hoje reunidos sob a designação de sofistas, apresentaram também o seu contraponto à concepção de conhecimento que se formava entre os filósofos gregos. Mas, afinal, quem eram e o que se sabe a respeito deles?

Tratava-se de pensadores independentes, que viajavam ensinando aos jovens, mediante remuneração, as artes de bem raciocinar e bem argumentar.

Os termos “sofista” e “filósofo” derivam de sophós, cujo significado corresponde a sábio. Pode-se entender sofista (sophisthés) como um erudito, uma espécie de professor de saberes, e filósofo (philosophós) como um amigo, um amante da sabedoria, alguém que se dedica firmemente a buscá-la. Platão apresenta Sócrates como o modelo de filósofo por excelência, uma vez que, reconhecendo a própria ignorância, ele viveu e morreu em nome dessa busca.

Naquele período, os cidadãos gregos adotavam diferentes critérios para designar alguém por sofista ou filósofo. No entanto, recebemos por herança cultural a oposição estabelecida entre ambos por Platão. Em seus diálogos, ele descreveu os sofistas como homens que aparentavam a sabedoria e os filósofos como aqueles que a buscavam since­ramente. Numa obra intitulada O sofista, ele apresentou diferentes definições para esse tipo de pensador, caracterizando-o, pejorativamente, como um interesseiro comerciante de virtudes e saberes, um debatedor profissional e enganador, um imitador de sábio.

É que, diferentemente dos filósofos conhecidos como pré-socráticos, os sofistas de­sejavam um conhecimento de ordem prática. Seu maior interesse não era investigar as íeis naturais do mundo físico, mas as leis convencionadas pelos homens e instituídas por eles no mundo social.

Nessa perspectiva, a multiplicidade dos valores e costumes humanos ampliava a importância de recorrer aos dados da experiência para realizar uma boa argumen­tação. Além disso, favorecia certo relativismo, por não adotar a concepção da verdade como algo absoluto, considerando as mudanças ocorridas em diferentes contextos sociais quanto à compreensão do que seria o verdadeiro.
Portanto, ao contrário dos pensadores gregos que hoje conhecemos como filósofos, os sofistas valorizavam o conhecimento opinativo, mesmo que ele estivesse sujeito à diversidade e à contradição. Afinal, atuavam no contexto político de uma democracia direta, em que era fundamental para um cidadão a capacidade de convencer os demais quanto à validade das suas próprias opiniões, levando-os a concordarem com elas, por meio de seus discursos.

Um dos mais lembrados representantes da sofística é Protágoras, que teria sido o autor da célebre afirmação: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são”. No decorrer da história do pensamento ocidental, essa frase recebeu inúmeras interpretações. Na Antiguidade, foi criticada, por exemplo, pela corrente platônica, determinada a buscar o conhecimento da “realidade em si”, evitando divagar entre as diversas opiniões que os homens pudessem formar a seu respeito, movidos por aparências ou conveniências.