Agricultura e recursos naturais


Desde que iniciou o seu percurso sobre o território terrestre, o homem tem buscado soluções que lhe permitiram continuar vivendo e dar continuidade ao seu legado por meio da reprodução, isto é, a instituição de sua prole. Se, no começo, os homens nômades viviam deambulando pelo mundo afora e sobreviviam essencialmente da caça e da coleta, com o passar do tempo eles foram se sedentarizando, isto é, fixando território em locais que lhe aprouveram condições adequadas de sobrevivência. Uma localidade na beira de um rio, protegida das possíveis ameaças naturais ou decorrentes de animais que lhe ofereciam risco, poderia ser uma boa pedida. ou ainda: o topo de uma montanha, seguro das intempéries naturais e de outras ameaças que ele não poderia prever. Entretanto, uma vez sedentarizado, o que comer?

Agricultura e recursos naturais

O homem percebe então que será necessário essencialmente intervir na natureza para conseguir extrair dela o seu alimento. Mas desta vez não de acordo com a vontade da natureza em servir-lhe o que comer, porque essa ação espontânea poderia não necessariamente estar de acordo com a sua necessidade. Ele percebe, então, observando os métodos empregados pelos animais e olhando atentamente para o próprio modo como a natureza dá conta de fazer com que os vegetais organizem um ciclo de existência que ele próprio também poderia reproduzir essa ação, de modo que fosse possível decidir quando, de que forma, e em que quantidade ele iria obter tais vegetais para sua alimentação. É assim, nesse contexto, que surge uma das atividades mais antigas da história da humanidade: a agricultura.

Na verdade, podemos pensar que esse tipo de aprendizado que resultou na criação da agricultura se deu a alguns milênios. O que houve, desde então, foi isso que podemos chamar de uma espécie de “aprimoramento” ou “sofisticação técnica” dos procedimentos empregados nesse processo. Na realidade, com o passar dos anos e o aumento da população, a agricultura deixou de ser uma atividade oriunda da necessidade de auto-satisfação para se tornar, cada vez mais, um item indispensável na hora de elencar quais são as prioridades da ação humana diante da natureza. Afinal de contas, se pararmos pra pensar, hoje em dia a agricultura é uma atividade realizada em escala industrial, o que não só aumenta e democratiza o acesso à sua produção como, em certa medida, corrobora para fazer com que a qualidade do que é produzido esteja aquém da quantidade.

Foi com a chamada “explosão demográfica” pela qual passou o mundo a partir do início do século XX que houve uma nítida necessidade do aumento da produção agrícola. O mundo passou a comer mais, se quisermos empregar uma leitura simples e literal. E, em decorrência disso, as lavouras precisaram trabalhar mais e mais intensamente. O problema é que, ainda que a agricultura seja uma atividade que surge na intervenção humana dentro do estado natural das coisas, ela ainda depende sumariamente a boa vontade e do desempenho da própria natureza. Quanto mais o homem tenta forçar os seus resultados, seja na manipulação das sementes que serão plantadas ou das condições em que elas serão plantadas, mais o resultado é prejudicial para a natureza e para quem consome tais alimentos.

Foi justamente na década e 1970 que o mundo assistiu ao que se convenciou chamar de “Revolução Verde“. Estimulados pela alta demanda de alimentos, os agricultores começaram a empregar a utilização de adubos, praguicidas, pesticidas e diversos outros produtos químicos que colaborassem com um melhor aproveitamento – ou seja, um menor índice de perda – dos produtos obtidos por meio da agricultura. Havia inclusive, na época, uma espécie de lenda que permeava o inconsciente coletivo de toda a população, e que atribuía justamente à essa chamada “Revolução Verde” a condição essencial de ser capaz de matar a fome no mundo.

O problema dessa aparente solução é que o modelo agrícola empregado serviu somente para satisfazer as necessidades econômicas dos produtores agrícolas, sem atentar para a eminente necessidade de pensar a agricultura como uma atividade que deveria ocorrer em paralelo ao desenvolvimento natural das coisas, e não usando e abusando do solo em uma perspectiva produtivista. A “Revolução Verde”, no final das contas, era uma revolução que se fez acontecer por meio de uma lente econômica, que valorizava aspectos importantes para a produção industrial mas irrelevantes ou até mesmo nocivos, no limite, para a natureza.

Nos últimos anos, entretanto, vem ganhando força o discurso dos alimentos orgânicos, que prega um retorno ao modo de produção anterior da agricultura, que dispensava, até mesmo por desconhecer, o uso de pesticidas e produtos químicos. Além disso, práticas como a agricultura biodinâmica, agricultura natural e a permacultura colaboram com a compreensão do ecossistema como um todo na hora de pensar em como produzir alimentos que não firam a delicadeza dos solos e respeitem a dinâmica natural da terra.