Desmatamento da Mata Atlântica


Não é de hoje que nós nos vemos sempre imiscuídos dentro dessa polêmica acerca da necessidade da preservação ambiental versus o ímpeto social do desenvolvimento desenfreado que, na tentativa de criar uma perspectiva para o futuro da ocupação humana no planeta terra, justifica toda e qualquer ação na modificação da natureza. A antropologia costuma chamar de “cultura” toda e qualquer transformação humana sobre o estado natural das coisas. Nesse sentido a cultura de um povo implicaria, necessariamente, na intervenção na natureza: o registro pictórico em cavernas, a agricultura, as construções (de cercas ao urbanismo de uma cidade inteira). Nesse sentido, é impossível pensar na presença do homem no planeta Terra sem que este deixe suas marcas, as marcas de sua ocupação. O problema é que tais marcas, quando resultam de uma ação ególatra, acabam por sugerir não uma coexistência entre o homem e o meio, mas a superação do segundo pelo primeiro.

Desmatamento da Mata Atlântica

O desmatamento de florestas e matas nativas é um fenômeno social que sempre existiu no decorrer da história, mas que ganhou repercussão e proeminência sobretudo no desenrolar do século XX, período histórico em que o desenvolvimento capitalista, aliado sobretudo à esfera do capitalismo industrial e financeiro, impulsionaram um discurso comum nos Estados que circulava ao redor de uma noção de progresso e de desenvolvimentismo. Ao longo desse século, as consciências humanas, extasiadas diante da tecnologia e dos conflitos bélicos que pautaram boa parte de sua história, pareceram recrudescer sua insatisfação com aquilo que consideravam primitivo, exaltando substancialmente os aspectos urbanos, valorizando a máquina e rejeitando a natureza também como um pólo de descobertas, necessidades e importância.

É justamente nesse contexto que se insere a questão da Mata Atlântica. Formada por um conjunto de florestas cuja extensão territorial ultrapassa a faixa dos 1.300.000 de quilômetros quadrados, a Mata Atlântica se estende do estado do Rio Grande do Sul até o estado do Piauí, atravessando o país praticamente de norte a sul. Sua existência, entretanto, não está isolada de todos os outros ecossistemas e sociedades bióticas que se inserem na realidade ecológica brasileira. A Mata Atlântica tem um papel essencial na manutenção dos recursos hídricos disponíveis nos principais estados brasileiros, e, das nove maiores bacias hidrográficas do mundo, sete se encontram em seu território.

É evidente, portanto, a sua relevância para a conjuntura geográfica nacional, e é inquestionável o lugar de destaque que ela ocupa quando pensamos em todos os ecossistemas do mundo. Ainda assim, apesar de toda essa importância, a Mata Atlântica foi e continua sendo alvo de um dos maiores escândalos ambientais de todos os tempos: cerca de 93% de seu território original já foi completamente devastado.

Histórico de destruição

A Mata Atlântica foi alvo da exploração predatória desde o período do Brasil Colonial. A princípio, essa exploração desenfreada se deu pela extração do Pau-Brasil essencialmente. Depois, ao longo da história brasileira, muito de seu território foi sumariamente devastado no intuito de oferecer espaço para o plantio de café e da cana-de-açúcar. Hoje, ela se reduz a apenas 7% de sua cobertura original. O que é mais preocupante em todo esse processo é que a Mata Atlântica é o habitat natural de uma série de espécies que lhe são endêmicas, isto é, só vivem e existem aqui, nessa pequena porção florestal, e em nenhum outro lugar do mundo. É o caso de cerca de 20 mil espécies de plantas, além de 350 tipos de peixes, 340 tipos de anfíbios e 197 espécies de répteis.

O aumento vertiginoso das cidades e do avanço industrial que se espalhou por todo o território brasileiro colaborou essencialmente com essa destruição, e ainda lhe impõe algum risco de existência. Por conta disso, muitas instituições de atenção ambiental trabalham na tentativa de reverter esse processo, inclusive empregando ações como o reflorestamento de áreas abaladas. É o caso da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, cujo trecho faz parte da Mata Atlântica original e que só foi recuperado por conta do replantio de árvores nativas.

A importância da abordagem desse assunto nas escolas

De todo modo, é salutar ressaltar que o assunto do desmatamento da Mata Atlântica deve ser debatido nas escolas de primeiro grau, fazendo com que os alunos desde cedo sejam alvo e radar das discussões e reflexões acerca da necessidade de se colaborar com a preservação ambiental. Essa é uma tarefa da escola, sobretudo porque as disciplinas do currículo comum, tais como geografia, história e ciências (ou biologia), podem oferecer o suporte necessário para colaborar com o entendimento da complexidade que está por trás da existência das matas nativas. Ressaltar a importância de sua preservação é fazer com que as crianças compreendam quais são os impactos de uma devastação implicada pelo homem sobre um território natural para o meio-ambiente é fazer, sobretudo, com que essas crianças se tornem, de fato, cidadãs.