Resumo da desigualdade social do Brasil: Transição demográfica


Antes da década de 1930, pode-se dizer que a maior parte da população brasileira, estava envolvida em relações de trabalho não-capitalistas. Isto não equivale a dizer que o Brasil não era um país capitalista, mas sim que grande parte dos brasileiros não estava envolvida em relações de trabalho assalariado.

Até esta época, a população brasileira se encontrava concentrada no campo, cerca de três quartos. Estas pessoas trabalhavam na agricultura e na pecuária, geralmente como camponeses, em suas próprias terras, em terras arrendadas, ou nas de outras pessoas através do sistema de parceria, ou seja, divisão da produção entre o trabalhador e o proprietário. O que importa e que, de qualquer modo, os trabalhadores rurais desta época, assim como muitos da atualidade, não tinham como preocupação central conseguir um emprego.

Transição demográfica

Como os camponeses não são assalariados o emprego não é o maior problema. O problema é conseguir produzir a quantidade necessária e suficiente para pagar o arrendamento da terra ou para poder dividir a produção com o dono dela e ainda ficar com o necessário para garantir a sobrevivência de sua família.

Características

Outro ponto interessante a destacarmos para a análise da dinâmica populacional nesta época é que para se trabalhar não era necessária formação escolar. Os camponeses jovens aprendiam com os mais velhos as técnicas de cultivo e de criação de animais.

A terceira característica interessante é o fato de que a criação dos filhos era relativamente mais simples no campo, quando comparada à da cidade atualmente. Primeiramente porque os pais trabalhavam mais próximos à casa e, especialmente, as mulheres estavam fora do mercado de trabalho, dedicando suas vidas à criação dos filhos.

Sendo assim, quando as atividades econômicas urbanas não ocupavam o centro da economia nacional, o tipo de vida em que as pessoas estavam envolvidas era bastante diferente daquele que foi gerado a partir de nosso processo de industrialização e de urbanização. Algumas destas características, notadamente a necessidade de mão de obra e a relativa simplicidade na criação dos filhos, impulsionavam uma alta taxa de natalidade, que na década de 1940 girava em torno de 44%.

Mas esta alta taxa de natalidade não significava alto crescimento demográfico. Se por um lado, nasciam muitas crianças, por outro, muitas pessoas morriam. As más condições de higiene e a precariedade de programas de saúde preventiva levavam à alta taxa de mortalidade, que ficava em torno de 25%. Assim, o crescimento vegetativo não ultrapassava a barreira dos 2% ao ano, o que não é um índice elevado.

No momento em que se iniciaram as mudanças na economia que forçavam milhares de pessoas a deixar as fazendas em direção à cidade em busca de emprego, o quadro social mudou. Primeiramente não havia mais vantagem em se ter muitos filhos, já que na cidade não há serviço como no campo, neste contexto, as crianças ficam com maior dificuldade para conseguir empregos, o que as impossibilita de colaborarem com a manutenção da família.

Além disso, a família na cidade passa a ter uma vida mais voltada para fora de si mesma. O pai vai trabalhar fora de casa e, com o passar do tempo, a mãe segue o mesmo caminho. A educação não é mais controlada pela família, como era no campo. A frequência às escolas públicas ou particulares torna-se cada vez mais necessária. Nestas condições, a criação dos filhos se torna mais complicada.

Já com relação às condições de saúde e de higiene, há grade melhoria na cidade em relação ao campo. Mesmo que estas melhorias não tenham sido automáticas e que até hoje tenhamos péssimas condições de vida nas cidades brasileiras, muitas medidas foram tomadas para reduzir a contaminação e a morte das pessoas por diversas doenças. A vacinação em massa e a distribuição de antibióticos são dois bons exemplos disso.

Tais mudanças fizeram com que tanto a taxa de natalidade como a de mortalidade, que eram altas no campo, iniciassem um declínio na cidade. Quanto à taxa de mortalidade, sua queda foi bastante acentuada, pois as melhores condições de higiene, como saneamento básico, ou então as de saúde, como acesso a médicos e medicamentos, tornaram-se mais comuns nos grandes centros, justamente para onde estavam se dirigindo uma enorme quantidade de pessoas. Em contrapartida, a taxa de natalidade teve uma queda muito lenta, já que a família com dez ou doze filhos era algo comum na época, sendo um fator cultura, que vai sendo alterado lentamente pelas pressões econômicas, como educação e alimentação dos filhos.

Em geral, a transição demográfica é um processo de diminuição das taxas de mortalidade e de natalidade, sendo que a primeira diminui mais rápido do que a segunda, causando um período de aumento do crescimento vegetativo e, portanto, de grande acréscimo populacional.

No caso de países desenvolvidos que passaram pelas mudanças econômicas e culturais, principalmente com os processos de industrialização e urbanização, antes do Brasil, a transição demográfica se completou no início do século XX, quando as taxas de crescimento vegetativo tornam-se bastante baixas. Este processo vem se completando nos últimos anos, justamente pelo avanço da vida urbana.