Transamazônica


Transamazônica possui mais de 4 mil km de extensão, mas metade é sem pavimentação

A rodovia Transamazônica, também conhecida como BR-230, foi uma das “obras faraônicas” projetadas durante o Regime Militar, especificamente no governo do presidente Médici. A rodovia encontra-se em terceiro lugar entre as maiores do Brasil e possui 4.223 km de extensão.

No ano de 1970, o presidente visitou locais do Nordeste que tinham sido atingidos por uma seca devastadora. A solução encontrada por Médici seria levar “homens sem-terra para uma terra sem homens”, uma de suas frases que se popularizou na época. A saída seria representada pelo início da construção da Transamazônica.

Transamazônica

Dez dias após o pronunciamento do presidente, deu-se a instauração do Plano de Integração Nacional (PIN). A construção da Transamazônica era a obra primordial do planejamento. Os trabalhos começaram três meses depois do discurso de Médici.

O objetivo da obra era interligar a região Norte com as demais áreas brasileiras. Por isso, inicialmente, a rodovia propunha a construção de 8 mil km de comprimento. A estrada também iria conectar o Nordeste e o Norte, brasileiros com o Equador e o Peru. No entanto, o projeto sofreu modificações e deveria receber um total de 4.977 km de asfaltamento. Mas a construção foi interrompida na cidade de Lábrea e a obra totalizou em 4.223 km.

A rodovia percorre os estados de Piauí, Paraíba, Pará, Maranhão e Amazonas. Justamente por “cortar” o Brasil no sentido Leste-Oeste, é chamada de rodovia transversal. Os limites da Transamazônica são os municípios de Lábrea, no Amazonas e Cabedelo, na Paraíba. Um dos grandes problemas da via, entretanto, é que ainda hoje uma parte da obra não recebeu pavimentação.

Para que a obra acontecesse a todo vapor, entre os anos de 1970 e 1973, foram enviados para trabalhar na região em torno de quatro mil trabalhadores. A intenção era abrir estradas e também firmar a comunicação entre as diversas cidades.

Apesar disso, os homens acabavam por ficar totalmente isolados durante os meses de trabalho, o que impedia a comunicação entre os municípios. As informações eram transmitidas somente quando ocorriam algumas visitas às cidades vizinhas. O transporte era realizado, normalmente, com pequenos aviões, mesmo que tivessem que fazer uso de pistas precárias.

Transamazônica também propunha assentamento de 500 mil colonos ao longo da estrada

Para obter dinheiro, o governo Médici buscou auxílio nos orçamentos da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). O sonho do presidente, porém, ia além da construção de uma rodovia. O intuito era levar para a floresta em torno de 500 mil colonos. Esperava-se, com isso, que o povoamento da região levasse outro meio milhão de cidadãos para estabelecer moradia no local.

Todavia, assentar toda essa gente ao longo da estrada se tornou uma das muitas ficções da urbanização do país. O objetivo era colocar os colonos, a cada 10 km, em algumas agrovilas. Cada uma dessas vilas, de acordo com o planejamento, iria receber até 64 casas, mais armazéns, escola primária, clínicas e farmácias.

O propósito era reservar, para cada família, em torno de uma gleba de 100 hectares. Metade dessa terra deveria ser mantida em conservações. De todo o planejamento, sobraram apenas 20 agrovilas distribuídas por toda a extensão da Transamazônica.

Paulatinamente, o sonho de povoamento foi posto de lado. Conforme o canteiro era finalizado, o pessoal também ia embora. Os que permaneceram no lugar enfrentavam as dificuldades inerentes à localização do povoamento. Era difícil, por exemplo, ter acesso aos mercados e ao crédito. Sem contar que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) só conseguiu oferecer loteamento e infraestrutura a 900 famílias.

Apesar de todos os empecilhos relacionados à finalização da obra, a Transamazônica foi oficialmente inaugurada em agosto de 1974. Menos de 10% de todos os colonos estavam assentados. Os moradores que ali se instalaram enfrentaram uma difícil realidade: doenças tropicais, chuvas torrenciais e um solo miserável.

A estrada, que foi entregue em um espaço recorde de tempo, não se encontra finalizada. Segundo o plano de construção inicial, a Transamazônica também serviria como escoadouro para o Pacífico de grande parte dos produtos brasileiros. Da Paraíba, em Cabedelo, a estrada seguiria até o Amazonas, em Benjamin Constant. Dali, a produção poderia ser transportada para Equador e Peru. Entretanto, o ponto final ficou 687 km antes.

O governo militar gastou 1,5 bilhão de dólares para a construção da rodovia. Isso corresponde, hoje, a aproximadamente 7,7 bilhões de dólares. A construção se deu praticamente toda dentro da mata fechada e o comprimento da estrada dava para cobrir o continente europeu inteiro. Mas 2,2 mil km de toda a via não se encontram asfaltados. Nos meses de chuva, transitar por ali é praticamente impossível. Sem falar, é claro, que grande parte da estrada não tem iluminação, nem sinalização.

No estado do Amazonas, apenas 14 km receberam pavimentação. Os problemas começam a partir do Pará, no município de Marabá. Na década de 1990, muitos caminhoneiros insatisfeitos incendiaram as pontes de madeira que cortavam a via e costumavam desmoronar sob o peso das cargas. Uma parte dos rios que passa pela estrada precisa ser atravessado por balsas.

Mas, ainda um dos principais problemas continua sendo o desmatamento próximo à Transamazônica.