Diásporas gregas


Todas as vezes em que ouvimos algum tipo de referência a cultura grega, de imediato nós somos transportados para um universo dominado por imagens ligadas à mitologia, à filosofia, ao teatro grego, e a um determinado ethos que parece estar fixado em um repertório cultural e imagético muito próximo do que nos mostram os filmes e as obras de arte. Não por acaso, muito do que povoa nossa imaginação no que tange a essas referências estéticas se constrói (ou foi construído) em cima das imagens que chegaram até nós por meio dos anos na forma das estátuas e das obras de arte produzidas na Grécia Antiga e que, preservadas, foram capaz de nos transmitir uma série de conceitos referentes ao que pensavam os povos dessa época.

Diásporas gregas

A evolução do desenvolvimento histórico do povo grego, entretanto, ao contrário do que tais construções imagéticas nos fazem querer imaginar, não se deu de maneira uniforme, tampouco corresponde a uma massa coesa de informações e ações. Muito pelo contrário: como todo e qualquer desenvolvimento de um povo à margem do passar do tempo, assistimos também com os gregos a uma espécie de “carrossel” histórico que surpreende justamente pela série de altos e baixos a que esteve submetido.

Todo esse processo que envolveu a formação da chamada “civilização grega” na realidade contou com uma interessante evolução histórica se levarmos em consideração todo o processo que culminou com a ocupação das regiões integrantes da chamada “Península Balcânica”, isto é, a região que hoje nós conhecemos como Grécia. Convém compreender que, antes da firmação desse Estado, isto é, antes de sua consolidação sob a égide de um poder central, a Grécia, durante o seu período clássico, na realidade se constituiu de uma série de agrupamentos de cidades-Estado, como Atenas e Esparta.

É impossível e completamente errôneo compreender esse momento da Grécia como uma civilização uniforme e coesa. A bem da verdade, essa constituição que se desenhou nesse contexto específico contou com influências culturais bem diferentes entre si. Povos como os dórios e os cretenses, por exemplo, apesar de serem ambos identificados sob esse imenso guarda-chuva que abarca o que seriam os “gregos” em geral, na realidade destoam imensamente entre si.

Domínio, regionalização e ocupação territorial

Todo o espaço da região dos Balcãs, ao longo da costa do Mediterrâneo, foi dominado pelo povo grego durante a chamada Era Clássica. Mas não só: basta um olhar mais atento para essa época para compreender que o povo grego foi responsável por dominar boa parte das cidades e dos centros que contemplavam pontos do Mar Egeu, algumas porções banhadas por mar e inseridas na Ásia Menor, além do norte do continente africano, da Península Itálica.

A expansão do povo grego, a bem da verdade, tem seu início durante o século XV a.C. e se inicia basicamente quando os chamados “povos aqueus” passam a dominar a ilha de Creta, e dão início ao que seria futuramente a civilização micênica. Entretanto, antes dessa fundição entre as duas civilizações, é importante frisar que algumas outras tribos que chegaram até o local, isto é, a reigão indo-europeia e à região continental, também desempenharam um papel importante na constituição cultural. Aproximadamente entre 2.000 a.C e 1.200 a.C. alguns povos, entre eles os eólios, os jônios e os micarênios atingiram a Península Balcânica, instalando-se em diversos espaços e promovendo uma ocupação humana ao longo dessa costa inteira

A região dos Balcãs e a ocupação dos dórios

A região dos Balcãs sofreu um violentíssimo processo de invasão e ocupação liderado pelo povo dório durante o século XII a.C. Esse processo contribuiu enormemente para uma ruptura na chamada articulação dos hábitos, dos costumes, das práticas e, finalmente, das instituições que foram se firmando ao longo do desenvolvimento da civilização creto-micênica. É importante ressaltar que os dórios, na realidade, eram um povo bastante nomade, adeptos inclusive do nomadismo como forma de estabelecimento social acordado entre os seus líderes. Além disso outro grande destaque que é importantíssimo na constituição do povo dório era a sua capacidade bélica extremamente desenvolvida. Ou seja: quando pensamos nos dórios, estamos pensando basicamente sempre em um grupo desterritorializado e altamente armado, com potencial garantido de enfrentar populações pacíficas e instaladas em determinadas regiões, expulsando-lhes de lá sem o menor o problema.

Essa ocupação violenta promovida pelos dórios marcou esse evento histórico que passou a ser conhecido como a “Diáspora Grega”, caracterizado essencialmente por esses momentos em que boa parte da população atingida por essa ocupação forçada passou a se lançar ao longo do litoral da Ásia Menor em busca de novos territórios a serem ocupados e desenvolvidos.

É importante pensar que, com essa mudança, isto é, esse deslocamento populacional promovido pela invasão dos dórios, uma série de impactos foram causados. O maior deles, sem dúvida, diz respeito a um enfraquecimento das atividades comerciais existentes na região, além de um eficaz fortalecimento das atividades tipicamente agrícolas em todos esses territórios.