Economia cafeeira e industrialização do Brasil


No período conhecido como a República Velha (1894-1930), a economia brasileira era dirigida, sobretudo, por uma produção de caráter essencialmente agrário em que o café era o grande ícone de cultivo e comercialização. Era o café o grande líder das exportações naquela época, também conhecida como “república dos oligarcas”. Além dele, outros produtos também constituíam o nicho de mercado que compunha o cenário econômico do Brasil naquele momento: a borracha, o açúcar e outros insumos essencialmente agrícolas.

Quem liderava esse cenário econômico seja em seu aspecto econômico seja em sua gestão política eram as oligarquias paulistas, compostas pelas grandes famílias produtoras de café – ou, os popularmente conhecidos “barões do café”, que vieram a nomear boa parte das ruas e avenidas do centro da cidade de São Paulo, localidade onde estavam instaladas suas mansões.

Economia cafeeira

Importante frisar que é na esteira decorrente desse cenário que três importantes acontecimentos tomarão lugar no Brasil: a chegada de imigrantes ao país, que irão ser responsáveis por compor a nova mão de obra que moverá a economia; uma consequente urbanização das cidades, principalmente de São Paulo; e, por último e mais importante, a industrialização do país a passos largos.

Desde a metade do século XIX, o Brasil já passava por um processo de embranquecimento de sua mão-de-obra, processo esse fortemente estimulado pelo recebimento de colonos europeus que se contrapunham a força de trabalho eminentemente escrava que dominava as lavouras do país até então. Paralelamente a esse processo, uma pressão mundial incidia sobre a economia brasileira no intuito de extinguir a escravidão do território nacional. Essa pressão, vinda sobretudo da Inglaterra, principal potência do cenário econômico de então, não era decorrente de uma crise moral ou de uma preocupação direcionada às situações sub-humanas a que estavam submetidos os escravos. É importante frisar que nesse contexto de Revolução Industrial e decorrente desenvolvimento do capitalismo, a mão de obra essencialmente assalariada era uma necessidade eminente: não só para sustentar a rolagem da engrenagem que movimentava esse sistema, mas também por ser ela o principal mercado consumidor dos produtos que agora eram produzidos em larga escala.

Sem dúvida nenhuma, a industrialização do Brasil esteve diretamente vinculada ao histórico deixado pelo café ao país – os capitais decorrentes da produção cafeeira foram inegavelmente os ativos investidos nesse processo que também contou com o apoio indispensável do Estado. Não por acaso, a industrialização do Brasil não foi una: ela se deu, inicialmente, na região que também produzia café, ou seja, o sudeste. Essa disparidade de processo, na realidade, imprime sua herança até hoje – não à toa, São Paulo e as cidades do grande ABC ainda são as referências no país quando se pensa em localidades industriais.

O impacto da crise de 29

Com a famosa crise de 1929, que abalou a bolsa de valores de Nova York e atingiu todos os investidores financeiros cujos ativos estavam lá presentes, a produção do café no Brasil também sofreu um abalo fatal. O café era o principal produto de exportação do país, mas a bem da verdade não deixava de ser uma espécie de sobremesa. Isto é: em um cenário de crise, há se de convir que o primeiro produto que os países do exterior deixariam de importar seria o café, uma vez que ele não é um item de primeira necessidade.

O Brasil a essa altura já contava com uma mão-de-obra essencialmente europeia, que já tinha tido algum tipo de contato com o trabalho industrial na Europa. Com a queda da produção de café, entretanto, essa mão-de-obra que se concentrava essencialmente nos interiores do país, nas fazendas onde o café era plantado, passa a se encaminhar para as cidades na tentativa de encontrar novos trabalhos. Esse fenômeno, conhecido como êxodo rural, incide em um inchaço da população urbana e um decorrente excedente dessa mão-de-obra ociosa nos principais centros do país, como São Paulo e Rio de Janeiro.

O cenário, portanto, era perfeito para que a aristocracia rural do país desse um passo em direção à inserção de uma produção industrial: havia a mão de obra disponível e especializada, havia o dinheiro e havia, sobretudo, o poder do Estado nas mãos dessa mesma aristocracia. Isso fez com que se tornasse possível a criação de uma infraestrutura condizente com as necessidades expressas por uma ainda incipiente industrialização. Ou seja: a construção de estradas de ferro, as melhorias nos portos das regiões praianas, investimentos em rodovias e na distribuição de energia elétrica para todas as regiões que iriam abrigar as novas indústrias. Mais uma vez, em mais um episódio da história brasileira, a articulação do poder das elites ocupando o eixo da economia e da política, numa clara aliança entre o poder público e a os interesses privados foi a responsável por dar conta de um processo histórico importante, como foi a industrialização do pais.