Sistema de Objetos


As ciências humanas, naturais ou sociais, além dos geógrafos propriamente ditos, produzem constantemente leituras e conceituações sobre o espaço.

Um sistema de objetos e ações indissociável é uma das premissas para a atual construção da leitura geográfica do espaço. Eles interagem entre si ininterruptamente, atuando de forma solidária ou contraditória e através da sua constante interação a história se constrói: Os objetos condicionam as ações realizadas no espaço e as ações, por sua vez, exigirão novos objetos, sendo ambos, portanto, o objeto e o resultado um do outro, concomitantemente.

Sistemas de Objetos

Mas como compreender o motivo dessa interação de sistemas estabelecerem uma forma tão importante de analisar o espaço geográfico? Por que tal visão se sobrepõe às limitações geográficas antes tão fundamentais em qualquer análise das sociedades?

A presença dos objetos na história da humanidade

Desde o início da história do homem sobre a terra, a sua evolução e o meio em que vive são marcados pela sua intervenção sobre a natureza. O meio natural inicial foi, pouco a pouco, dando lugar a uma natureza modificada, cheia de itens que não os iniciais, adaptados pelo homem de acordo com suas necessidades, repletos de funcionalidades mais ou menos específicas. Pouco a pouco, os objetos naturais são substituídos por outros com técnicas apropriadas, de maior complexidade e com crescente capacidade produtiva.

Esse processo forma, pouco a pouco, o espaço geográfico e traz inúmeras características sobre aqueles que o habitam. Podemos, portanto, ressaltar pontos importantes sobre a visão do sistema de objetos e ações:

  • O espaço é produzido pelo homem a partir da interação e modificação da natureza de forma atender suas necessidades;
  • A partir das relações sociais (independente de barreiras físicas), o homem modifica a natureza;
  • Há suma importância nas relações sociais de produção e de consumo nas alterações do espaço;
  • Os objetos são constituídos de formas, estruturas e funções que permitem o estudo do espaço;
  • A interação social e as relações que dela nascem trazem utilidades e funções novas ou modificadas para objetos preexistentes, fazendo com que objetos de diferentes momentos históricos façam parte de novos espaços.

Quando fazemos a observação de que é necessária cada vez mais qualificação profissional (técnica) para se destacar no mercado de trabalho, por exemplo, essa é uma consequência direta da especificidade dos objetos mais atuais. A produção constante e imensamente veloz de novos objetos direciona a escolha de pessoas capacitadas para manipulá-los a conhecimentos crescentemente específicos.

Assim os objetos condicionam a vida e o espaço, produzindo novas percepções e sentidos, e dando o toque para o crescimento e a evolução daqueles que os modificam e que são modificam por eles.

Dessa forma, vemos a interferência que as ações sofrem e produzem no sistema de objetos e compreendemos porque são indissociáveis: ambos existem em função e em consequência do outro.

Tudo que existe sobre a terra é herança da história natural ou resultado da modificação humana, trazendo, em ambos os casos, uma gama imensa de informações sobre as sociedades. Dissociando a ideia que trazemos comumente dos objetos, nesse contexto específico, os objetos não são itens colecionáveis, mas como sistemas. Por exemplo: edifícios, móveis, barragens, pontes; esses são alguns objetos com funções importantes e específicas e perdem seu sentido se afastados de suas funções, assim a associação entre ações e objetos se torna mais uma vez algo inseparável.

Podemos fazer um paralelo com containers e conteúdos: os objetos ocupam a função espacial, enquanto as ações são os conteúdos específicos vinculados a cada objeto. Ao alterar a ação, é preciso conceber objetos apropriados para sua nova forma e função; ao alterar o objeto, a ação necessita ser modificada e adaptada.

As fronteiras e limitações geográficas

Os espaços não são mais vistos como grande limitador e definidor dos elementos sociais: A globalização alcança cada vez mais locais remotos e confronta realidades, favorecendo ainda mais a troca de informações, a influência dos objetos e ações sobre outros, em outros espaços. Obviamente, o espaço ainda é de suma importância, pois é a partir dele que a sociedade tem as interações mais imediatas, com pessoas influenciando e sendo influenciadas diretamente pelas ideias e ações de seus próximos. Entretanto, essa influência agora conta com diversos agentes dos quais não poderia se utilizar com tanta intensidade anteriormente.

A importância das limitações geográficas diminuiu consideravelmente e permitiu novas formações de interação, a exemplo da gastronomia e dos sistemas de produção e consumo, que hoje permitem que peças produzidas por pessoas em cidades asiáticas desconhecidas serem utilizadas em larga escala nas sociedades ocidentais. Ademais, é a partir das ações de refletir culturas e hábitos de outras sociedades que novos objetos são criados e modificados.

As matérias-primas ganharam mais alcance, pois antes eram limitadas às características de cada local e à sua capacidade produtiva e essas barreiras foram largamente derrubadas, com a troca desses elementos entre as mais remotas regiões. Essa é a ideia primordial do sistema de objetos, intrinsecamente vinculado ao sistema de ações que o complementa.