Jean Jacques-Rosseau


Um dos nomes de grande destaque do pensamento iluminista, Jean Jacques-Rosseau foi um dos maiores pensadores da filosofia e da teoria política francesa. Seu pensamento é marcado por uma forte crítica às regras e a moral vigentes nas instituições sociais educativas que, de acordo com ele, ao restringirem a liberdade própria da natureza humana acabam por deformar nossa moral e nos impedem de formular nossos próprios valores.

Nascido em 1712, em Genebra, na Suíça, Rousseau foi criado até os 10 anos por seu pai, que trabalhava como relojoeiro. Logo no início da adolescência, em 1725, o jovem é enviado para uma escola religiosa. Já em 1728, Rousseau parte de Genebra e muda-se para Annecy, onde empreende alguns trabalhos como professor e tutor de jovens. Sua mudança para Paris, em 1742, marca o início de sua inserção no universo da filosofia.

Rosseau

Naquela época, a exaltação do racionalismo científico e do conhecimento acadêmico frente ao obscurantismo da igreja levava outro filósofo já consolidado a elaborar um plano, no mínimo, pretensioso. Denis Diderot pretendia acumular todo o conhecimento humano em alguns volumes que viriam a ser conhecidos como Enciclopédias. E é justamente para escrever alguns artigos enciclopédicos que Diderot convida Jean Jacques-Rousseau, ainda que nesse momento os anseios do futuro filósofo se voltassem com mais atenção para a música. A essa altura, o envolvimento de Rosseau com a área era tamanho que ele havia até mesmo inventado um novo sistema de notação musical, que foi previamente rejeitado pela Academia de Ciências. Apesar do fato, o filósofo não se afastou da música e chegou a compor nos anos seguintes duas óperas.

É com a publicação, em 1723, do famoso artigo intitulado “Discurso sobre a ciência e as artes” que Rosseau introduz na esfera filosófica as marcas que seriam as bases de seu pensamento iluminista. No artigo, ele faz uma contundente crítica à civilização humana, encarando-a como uma prova do retrocesso e não da evolução do ser humano na terra.

Mas é somente no “Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os homens” que o filósofo apresenta o embrião daquela que seria a teoria associada de modo mais recorrente ao seu nome: a ideia de que o homem em seu estado natural é bom e que a sociedade, com suas regras normativas e suas tendências a prover uma domesticação de aspecto moral e físico é a responsável por corrompê-lo. Nesse discurso, Rousseau fundamenta a ideia de que, na Natureza, o homem não projeta desejos para além de suas necessidades mais imediatas que, por sua vez, respondem essencialmente ao seu caráter animal (comer, dormir, se reproduzir, por exemplo). Entretanto, segundo Rousseau, quando o primeiro homem cercou um trecho de terra e se afirmou como dono daquele lugar, ele tornou-se também o fundador oficial da civilização social. Ou seja: para o filósofo, a criação da propriedade privada é indissociável da criação da sociedade civil. A contradição apontada por Rousseau se expressa na ideia de que a Natureza, tal qual nos foi apresentada desde que o homem surgiu no globo terrestre, não pertence estritamente a ninguém e que, justamente por esse caráter, todos os seus frutos são de posse de todos os habitantes terrestres.

O contrato social

No ”Contrato Social”, o filósofo apresenta uma proposta de reorganização social que se tornaria uma das grandes e inegáveis influências do pensamento republicano. Nessa obra, Rousseau aponta que, apesar de ter nascido livre, o homem está, ainda que metaforicamente, acorrentado em todos os lugares por onde circula – sendo a lei um dos principais elos dessa corrente. Uma vez que essa organização social não é natural, ou seja, é uma convenção estabelecida e ao redor da qual os homens se adaptam, o filósofo se questiona de que maneira seria possível transformar tais convenções em um acordo comum que livraria a todos os seus pactuantes da opressão, garantindo assim uma liberdade plena e partilhada. Na concepção de Rosseau, a democracia só é capaz de se sustentar como regime quando seus cidadãos passarem a ter suas escolhas guiadas não pela necessidade primordial e animal de cada um, mas por aquilo que seja o mais adequado para a comunidade como um todo.

Emílio, ou da educação

Outro livro icônico de autoria do filósofo, “Emílio, ou da educação” foi publicado pouquíssimo tempo após o “Contrato Social”. Em “Emílio”, Rousseau defende um modelo ideal de princípios educacionais que seriam os responsáveis por moldar o caráter das crianças a fim de que elas se tornem, no futuro, bons cidadãos. Nessa obra, Rosseau faz uma defesa explícita de um modelo mais liberal de educação, em que pesem aspectos como o divertimento e a valorização da subjetividade das crianças, propostas radicalmente inovadoras para uma época em que o sistema educacional era calcado em rígidos preceitos morais e comportamentais.

O escândalo gerado pelas ideias presentes nessas duas obras é tão grande que vários de seus exemplares foram queimados em praça pública, fato que levou o filósofo a fugir da França para a Suíça e posteriormente para a Inglaterra, tendo voltado posteriormente a Paris somente em 1770. Oito anos depois, em 1778, Rousseau vem a falecer pouco antes da eclosão da Revolução Francesa, marco histórico inegavelmente influenciado pelo seu pensamento filosófico.