Somália


Você já ouviu falar de uma antiga cidade-estado chamada Berbera? Ou de um povo conhecido como Punties, cujas casas de palha já apresentavam uma estrutura semelhante ao sobrado moderno para permitir que os habitantes ficassem a salvo dos animais selvagens? E sobre os piratas modernos que são o temor dos navios transportadores de carga no Oceano Índico? Todas essas curiosidades tem uma origem em comum: a Somália, uma das nações mais pobres do mundo, localizada na costa leste do continente africano, em uma região mais conhecida como “Chifre da África”.

A história do pais remonta ao Egito antigo, cujos faraós mantiveram relações comerciais com a Somália principalmente durante a era do faraó Sahure e da rainha Hatshepsut, de acordo com registros históricos. Ao longo de sua trajetória, é possível identificar a ostensiva presença de povos árabes nômades e de invasores islâmicos que dominaram ou fundaram povoados isolados, como é caso de algumas cidades-estado, entre elas a já citada Berbera, Zélia, Barawa, Merca e Bogadíscio – sendo está última, a atual capital do país. As cidades-estado, cujo maior expoente foi Atenas, na Grécia, funcionavam como territórios político-administrativos autônomos, e seu funcionamento e organização era independente de um poder centralizador maior.

Somália

O território somali é composto por diversos platôs, planícies e montanhas e o país é recortado por dois rios que nascem na vizinha Etiópia – o Juba e o Shabele. Essa divisão geográfica curiosamente responde a uma divisão também sócio-política: ao longo dos séculos XIX e XX, a região foi alvo da ocupação de diferentes nacionalidades europeias. Franceses, italianos e britânicos foram os responsáveis por criar alguns domínios na Somália, que resultaram ao longo dos anos em três protetorados centrais: a Somália Francesa, a Somália Italiana e a Somália Britânica. O país, tal qual o conhecemos, só foi formalmente fundado em 1960, com a independência de duas dessas regiões: a Somália Britânica viria a ser a hoje chamada Somalilândia, região administrativa autônoma, enquanto a sua irmã italiana daria origem a República Democrática Somali (a Somália Francesa se transformaria, em 1970, na República Djibuti).

Ainda que a presença islâmica em seu território seja uma constante histórica, foi somente catorze anos depois de sua fundação, em 1974, que o país veio a ser aceito como integrante da Liga Árabe, organização criada em 1945 com o intuito de conglomerar os estados árabes.

A República Democrática Somali tem uma população total de cerca de 9,9 milhões de pessoas, das quais impressionantes 60% são nômades. Ou seja: a Somália é claramente um país rural, com uma baixa percentagem de sua população alocada em centros urbanos. Um de seus índices mais alarmantes diz respeito a mortalidade infantil: de acordo com um estudo realizado pela Unicef em 2010, tal índice atingiu a taxa de aproximadamente 180 mortes de crianças de até 5 anos a cada mil nascimentos. O pais também registra um dos piores números de renda per capita do globo: são 110 dólares por ano a média do que recebe cada somali.

Guerra Civil

Em 1991, com a queda do presidente Siad Barre, resultado da união entre grupos políticos dissidentes e do apoio armado da Etiópia, o pais viu iniciar em seu território o prenúncio de uma guerra civil que viria a ser um marco profundo a reverberar em suas relações políticas e econômicas nas próximas décadas.

A queda de Siad Barre foi a deixa para que a região da Somalilândia declarasse sua independência em maio do mesmo ano, tornando a situação política da República Democrática da Somália ainda mais instável. Ao assumir a presidência provisoriamente, o líder Ali Mahdi Muhammad desagradou parte das forças políticas organizadas no país, dentre elas o Reino do Congresso Somali (liderado pelo militar Mohamed Farrah Aidid), o Movimento Patriótico Somali (liderado por Col Jess), o Movimento Nacional Somali (cujo líder era Abdirahman Toor). As discordâncias entre esses grupos que, de certa maneira, atuam como partidos armados no interior do país, foi o estopim para a guerra civil que, mesmo depois de episódios díspares como a intervenção militar norte-americana autorizada pela Organização das Nações Unidas, assola a Somália até os dias de hoje.

Os piratas modernos

Um fato pra lá de curioso a respeito da Somália é a existência da prática consolidada da pirataria em seu oceano. Aponta-se que depois do colapso que atingiu o país no início da década de 1990, o fato de alguns países vizinhos despejarem resíduos tóxicos em sua área marítima fez com que os pescadores locais passassem a exigir dos navios responsáveis pela poluição o pagamento de uma taxa, uma espécie de indenização pelo distúrbio causado. Tais pescadores passaram a reivindicar para si o posto de defensores do mar somali até que se consolidasse um novo governo. Como essa estruturação política não veio tão cedo, a prática de tais pescadores eventualmente tornou-se mais recorrente e teve seu leque de vítimas ampliado: quaisquer navios passaram a ser alvos em potencial da ação dos piratas somalis. Em um dos casos de maior destaque, os piratas somalis chegaram a sequestrar um navio petroleiro cuja carga possuía um valor estimado em cerca de 200 milhões de dólares.