Antero de Quental, um poeta de múltiplas faces


Embora o Realismo já tivesse se iniciado por toda a Europa, o começo da década de 60 do século XIX, em Portugal, vai encontrar um Romantismo desgastado, liderado por Antônio Feliciano de Castilho.

Conhecedores da escola naturalista nas artes, um grupo de jovens da Universidade de Coimbra, liderados por Antero de Quental e Teófilo Braga funda a Sociedade do Raio, no ano de 1861. Esta associação congrega cerca de 200 estudantes e tinha o propósito visível de instalar um novo tempo, acabar com o marasmo da academia e de Portugal. Mas o grupo começa a incomodar e a intimidar os velhos autores românticos já nessa época. No ano de 1865, dois acontecimentos colocam Antero de Quental como centro de torvelinho (redemoinho) de transformações: a publicação do livro de poemas Odes Modernas, em 1865, e seu envolvimento na célebre Questão Coimbra (Do bom senso e do bom gosto).

Antero de Quental

Liderados por Antero de Quental, os estudantes portugueses da época pontificavam pelas extravagâncias intelectuais: adeptos de um realismo incipiente, socialistas e revolucionários, viviam um tumulto identificado com as influências francesas, e está claro, contestavam o marasmo intelectual em que vivia o país. Em Lisboa, reinava Antonio Feliciano de Castilho, liderando um mundo decadente de poetas menores e conservadores, fechados neles próprios.

Nascido no dia 18 de abril do ano de 1842, na cidade de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, situada no Arquipélago dos Açores, Antero Tarquínio de Quental partiu para Lisboa com apenas 10 anos, com o objetivo de estudar no Colégio de Pórtico, do poeta Antônio Feliciano de Castilho, com quem, no ano de 1865, travaria uma batalha intelectual sem procedentes: A questão Coimbrã. Porta de entrada para o Realismo em Portugal.

No ano de 1856, Antero de Quental estava em Coimbra, cursando os preparatórios para o Direito; dois anos depois, passa no vestibular e inicia o curso de Humanidades em Direito. Após a batalha verbal com Castilho, engaja-se em uma luta revolucionária pelo socialismo; naquela ocasião, vai morar em Paris, onde decidira viver como reles operário tipografo. Sua doença, uma depressão profunda a que o médico diagnosticou como histeria, apareceu nessa ocasião, na França, e o acompanhou pelo resto de seus dias.

De volta a sua terra natal, passou a defender a ideia de uma República Federal Ibérica; com a ajuda de José Fontana, com quem veio a fundar a Seção Portuguesa da Organização Internacional dos Trabalhadores.

No ano de 1889, seu estado de saúde se agravou e Antero de Quental passou a se isolar cada vez mais e raramente saía de casa, acabrunhando, infeliz. No ano de 1891, mais precisamente no dia 11 de setembro, na mesma cidade onde nasceu, acometido de uma de suas crises de psicose depressiva, Antero cometeu suicídio, dando um tiro na cabeça.

Gênio ou Santo?

Eça de Queirós em um artigo dedicado a vida de Antero de Quental, disse que ele era ‘um gênio que era um santo’, frisando que ele era um poeta de valor, um filósofo de interpretações contraditórias, um orientador intelectual, o desbravador de caminhos obtiveram sempre o respeito devido a um homem que foi, no alto sentido da palavra, um mestre.

É difícil definir se Antero de Quental foi um gênio ou um mito criado por seus contemporâneos, mas sem dúvida, oscilando entre o idealismo e o materialismo, a fé e a dúvida, deixou as mais belas páginas de seu tempo. Alto, belo de porte, ruivo, olhos azuis perdidos no universo cheio de indagações, defendendo a reconstrução de seu povo, através da reforma de suas bases sociais e políticas, da sua cultura e literatura, ganha a densidade de um ser visionário, um lendário animador de discussões filosóficas, literárias e políticas.

Publicou artigos em jornais republicanos, folhetos socialistas visando organizações operárias. Frustrou-se em tudo. Foi de tudo um pouco, mas se consagrou sobretudo na poesia metafísica de sua última fase.

As obras e as fases da poesia de Antero de Quental

A. Prosa

Do bom senso e do bom gosto.

Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais.

Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX.

Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Séculos XVII e XVIII.

Cartas

B. Poesia

Odes Modernas, 1865

Primaveras Românticas, 1871

Verso dos 20 anos, 1871

Sonetos Completos, 1886

Raios de Extinta Luz, 1892

A obra do poeta Antero de Quental, é genericamente dividida em duas grandes fases:

A. A da poesia revolucionária e social, onde transparece um espírito combativo e crítico, inaugurada com o livro Odes Modernas, publicado no ano de 1865.

B. A fase da poesia metafísica: marcada pelo pessimismo, é poesia dilemática e transcendental, plena de temas da Morte e da Busca de Deus. Poemas que oscilam entre a sensação de aniquilamento, como, por exemplo, em No Palácio da Ventura e o conformismo místico na obra Na mão de Deus.