Autores da literatura policial fantástica


Não é novidade que o homem projeta na arte todos aqueles anseios para os quais ele não possui resposta. Não à toa, a história da literatura mundial é marcada pela presença do intangível como um fator contundente no desenrolar das tramas. Das tragédias gregas em que os deuses do Olimpo eram os responsáveis por intervir no destino dos heróis até a poesia metafísica dos poetas simbolistas em que o aspecto espiritual e transcendental da existência era exposto como um valor de criação, o mistério reverbera de maneira contundente, tornando óbvio o quanto as perguntas sem resposta intrigam e tornam inquieta a mente humana.

Dentre as diversas vertentes literárias conhecidas, pode-se afirmar que a literatura policial sempre caminhou de mãos dadas com esse gosto pelo obscuro que tanto marcou alguns momentos áureos desse gênero artístico.

literatura policial

Isto porque o romance policial detém uma estrutura básica cujo conflito principal está sempre relacionado a um fato obscuro cuja motivação é desconhecida, bem como a identidade do seu responsável. Em linhas gerais, são histórias onde um crime cometido precisa ser investigado para que seu autor receba a punição que lhe é devida, revelando nessa estrutura a forte carga ideológica atribuída ao gênero. Ou seja: os romances policiais emprestam ao leitor a noção de que o crime não compensa, porque a saga desenvolvida ao seu redor sempre culminará com o criminoso sendo preso.

A origem do gênero remonta à publicação de “Os assassinatos da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, que veio ao público impresso nas páginas do Graham’s Magazine, periódico que circulava na Filadélfia em 1841. Não por acaso, o mesmo Edgar Allan Poe tornou-se um dos escritores de maior destaque no campo da ficção produzida ao redor do macabro, do mistério e do canhestro, sendo hoje reconhecido como maior nome do romantismo norte-americano.

A literatura policial ainda viria a produzir seus dois mais célebres criadores em uma sequência cronológica diretamente posterior à produção de Edgar Allan Poe. Arthur Conan Doyle, com a publicação de “Um estudo em vermelho”, no ano de 1887, iria agraciar o público com a apresentação do mundialmente conhecido detetive Sherlock Holmes. Algumas décadas depois, a escritora Agatha Christie daria início ao périplo de aventuras protagonizadas por seu detetive belga, Hercule Poirot, em publicações policiais que lhe renderiam a alcunha de romancista mais bem sucedida da literatura mundial em número total de livros vendidos e distribuídos.

Dentre as diversas obras de Agatha Christie, “O caso dos dez negrinhos” é um bom destaque quando o assunto é a interação entre o romance policial e a vertente fantástica. No enredo, um grupo de desconhecidos é convidado a visitar uma ilha conhecida como “Ilha do Soldado”, onde se hospedam em uma mansão cujo dono não está presente, mas que sabidamente foi o responsável por organizar o encontro. Aos poucos, os presentes percebem que estão presos na ilha, cujo único meio de transporte para o retorno ao continente era um barco que não realizava o translado continuamente. Acompanhando a narrativa de um poema que relata a morte de dez crianças negras, cada uma de uma maneira, os personagens vão sendo assassinados um a um em alusão ao modo como morrem as crianças. Na medida em que as mortes vão acontecendo, a tensão se instaura no ambiente de maneira irreversível, culminando em um final surpreendente.

O traço fantástico

Os Estados Unidos parecem ser um país possuidor de um talento especial para produzir bons escritores do gênero. É o caso de Raymond Chandler, autor de títulos como “O sono eterno”, “O longo adeus” e “Janela para morte”. Chandler, também com seu detetive recorrente, o amargo Philip Marlowe, apresenta para o leitor uma aura “noir” incutida em seus romances policiais, onde o surreal se mostra como uma premissa inconfundível da solução dos casos que geram os conflitos de suas personagens.

Mas é impossível falar sobre literatura policial fantástica sem esbarrar no nome de seu maior expoente: o escritor norte-americano Stephen King. Autor de trabalhos icônicos que foram posteriormente adaptados para o cinema, como “Carrie, a estranha” e “O iluminado”, King produz uma literatura essencialmente marcada pelo aspecto bizarro dos mistérios, que muitas vezes acabam sendo insolúveis ou permanecendo inexplicáveis em seus livros. King também foi autor do roteiro de alguns episódios do famoso seriado de investigação sobre casos misteriosos “Arquivo X”, em que o foco da trama era, para além dos mistérios terrestres, a constante intervenção de seres de outros planetas

Mas não se engane: o Brasil também produz escritores de literatura policial fantástica. É o caso do escritor Tailor Diniz, em cujo romance “Em linha reta“, uma garota de programa é contratada para passar a noite com um cliente de identidade por ela desconhecida e, sem que possa controlar o fluxo dos acontecimentos, passa a vivenciar momentos onde o real e o imaginário se confundem e a levam a enfrentar situações pra lá de esdrúxulas.