Estilos e Histórias da Literatura


Ao longo do tempo, desfilam-se diversos estilos de época.

As mudanças desses estilos, no entanto, não acontecem abruptamente. É comum haver um período de transição. Por­tanto, os estilos não admitem limites cronológicos rígidos. O que há é um contínuo modificar-se, um processo dinâmico.

Não se pode dizer que há a simples substituição de es­tilo. As características de um período sobrevivem em outro. Se há substituição de algumas delas, podem-se identificar zonas fronteiriças em que as características se interpenetram, dificultando o estabelecimento de limites.

Estilos e Histórias

Procurando principalmente facilitar a compreensão dessas transformações da arte literária, estudiosos, relacionando critérios sócio-históricos e estéticos, preocupam-se em dividir a história da literatura e nomear os vários períodos literários, aos quais correspondem estilos de época específicos.

Classificar um autor como participante de um ou outro período literário é uma preocupação de natureza didática ou científica.

Há muitos percalços nessa tentativa de classificação.

Apesar de apresentarem afinidades com os estilos predominantes em suas épocas, os grandes escritores procuram produzir obras originais, transcendendo en­tão as características dos períodos literários a que são associados.

Além disso, a obra de um mesmo autor pode, por exemplo, apresentar traços românticos em um certo momento e, depois, mostrar-se marcadamente realista. É o caso da de Machado de Assis. Seu livro Crisálidas (1864) apresenta versos ainda românticos, mas ele é considerado, nos livros de história da literatura, o principal representante do Realismo brasileiro.

Embora tenha nascido no Período Colonial, só no século XIX, segundo o crítico Antônio Cândido, pode-se considerar formada a literatura brasileira “como sistema orgânico que funciona e é capaz de dar lugar a uma vida literária regular, servindo de base a obras ao mesmo tempo universais e locais”. Na Colônia, o sistema educacional era restrito a poucos colégios mantidos pela ordem religiosa dos jesuítas. Os jovens de famí­lias abastadas eram enviados a Portugal para cursarem o ensino superior, pois, no Brasil, não havia instituições desse gênero. A grande maioria da população não era alfabetizada. Consequentemente, o público leitor era muito escasso. Nossas manifestações literárias não se mostravam ainda inteiramente articuladas. A circulação de livros também era precária, já que a Colônia era proibida de ter tipografias. Enfim, faltavam condições propícias para o amadurecimento de nossa literatura.

Além disso, muitas obras desse período eram escritas não com intenção literária, mas com outros fins, como é o caso da literatura do Quinhentismo. Os nossos primeiros escritos, no século XVI, principalmente se destinavam à descrição da nova terra e à apresentação das informações sobre o contato com os habitantes nativos do Brasil – literatura de informação – e à catequização – literatura de catequese -, ou seja, tinham caráter eminentemente informativo, documental ou religioso.

Muitos missionários e viajantes europeus escreveram cartas, tratados descritivos, diários de navegação ou relatos de viagens em que apresentavam muitas informações sobre a vida e os costumes dos habitantes da nova terra e uma descrição pormenorizada da fauna e da flora brasileiras daquela época.

São documentos que, além de revelarem o êxtase do europeu diante da paisagem tropical e a imagem, muitas vezes, negativa que se fez dos habitantes nativos dessa terra, refletem a mentalidade colonizadora da época e a preocupação com a exploração econômica das riquezas da Colônia. Entre outras obras dessa literatura informativa, merecem destaque:

a carta de Pêro Vaz de Caminha a D. Manuel (1500): comunicava ao rei a chegada às terras brasileiras;
a História do província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos de Brasil (1576), de Pêro de Magalhães Gândavo: apresenta-se como uma “propaganda de imigração”, com o claro propósito de atrair pessoas para desfrutar a nova terra;
o Tratado descritivo do Brasil (1587), de Gabriel Soares de Sousa: considerada uma das mais ricas fontes de informações sobre o Brasil do século XVI, apresenta relatos curiosos, como dos suicidas comedores de terra e dos feiticeiros chamadores da morte.

Alguns jesuítas que vieram ao Brasil nessa época também nos legaram cartas, tratados descritivos, crônicas históricas, entre outros documentos, cujo teor estava sempre relacionado à catequese, à missão de difundir a crença religiosa do colonizador.

Entre os nomes mais representativos, estão os padres Fernão Cardim, Manuel da Nóbrega e, principalmente, José de Anchieta, único autor do período cuja produção extrapola o caráter meramente histórico.

Pêro Vaz de Caminha

A carta que o português Pêro Vaz de Caminha (1451?-1500) escreveu a D. Manuel dando conta do “achamento” da nova terra pode ser considerada a “certidão de nascimento” do Brasil.
Nesse documento, Caminha – escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral – relata ao rei a chegada ao Brasil e os pri­meiros contatos entre os portugueses e os habitantes nativos e apresenta uma descrição curiosa de nossa paisagem.