Gregório de Matos,Padre Antônio Vieira e o Barroco no Brasil


No Brasil, o Barroco desenvolveu-se durante os séculos XVII e XVIII, acomodando-se à realidade colonial. Sua emergência coincide com os ciclos de ocupação e exploração intensa e regular das possibilidades econômicas da Colônia, que, a partir da segunda metade do século XVI, fizeram surgir importantes núcleos urbanos na Bahia e em Pernambuco.

São característicos da literatura barroca o jogo de ideias, explorando as sutilezas do raciocínio e do pensamento lógico, o rebuscamento formal, o jogo de palavras e o uso intenso de linguagem figurada. Na literatura, um dos principais representantes do Barroco foi o escritor espanhol Luís de Góngora, que muito influenciou outros poetas da época.

Gregório de Matos

Destacaram-se, na arte barroca, entre outros, o italiano Caravaggio (1571-1610) e o espanhol Diego Velázquez (1599-1660), na pintura; o italiano Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), na escultura; e o alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), na música.

Os principais representantes da litera­tura barroca no Brasil foram Gregório de Matos (1623-1696) – também conhe­cido como o “Boca do Inferno”, pela violência de seus versos satíricos, que atacavam impiedosamente autoridades da Colónia – e o Padre Antônio Vieira (1608-1697) – defendendo o ideário católico, produziu diversos sermões, que se destacaram pela sua riqueza literária.

Destacaram-se, ainda, Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711) e Bento Teixeira (1561-1600), autor do poema Prosopopeia – publicado em 1601 e considerado o marco inicial do Barroco no Brasil.

Na segunda metade do século XVIII, durante o ciclo do ouro em Minas Gerais, o Barroco atingiu seu auge nas artes plásticas, com as esculturas sacras de Antônio Francisco Lisboa (1730-1814) – o Aleijadinho ~, as pinturas de Manuel da Costa Ataíde (1762-1830) e, na música, com as composições sacras de Lobo de Mesquita. No entanto, a literatura produzida nesse período já não era mais barroca.

Gregório de matos

Considerado o primeiro grande representante da poesia brasileira, o baiano Gregório de Matos Guerra estudou no Colégio dos Jesuítas em Salvador e, depois, em Coimbra, Portugal, formou-se em Direito.

Retornando ao Brasil, desempenhou os cargos de tesoureiro-mor e de vigário-geral, mas foi destituído das funções devido às suas sátiras e por se recusar a vestir o hábito sacerdotal. Envolveu-se em intrigas e perseguições, o que lhe custou a de­portação para Angola.

De volta ao Brasil, doente e proibido de regressar à Bahia, foi para Pernambuco, onde morreu um ano depois.
Produziu também poemas líricos e religiosos, em que transparece o conflito, tão característico do Barroco, entre o pecado e o perdão, a matéria e o espírito. Além do valor literário, seus versos interessam pelo retrato que fazem da sociedade baiana da época.

Em 1989, a cearense Ana Miranda escreveu Boca do Inferno, seu romance de estreia. É um trabalho raro de reconstituição da sociedade baiana do sé­culo XVII. Mesclando ficção e história, Ana Miranda traça um painel da época, revelando um universo de injustiça, corrupção e arbitrariedade, e também do Barroco brasileiro, apresentando o verbo afiado de Gregório de Matos e do padre Vieira.

Antônio Vieira

Nascido em Portugal, Antônio Vieira tinha sete anos quando veio ao Brasil. Na Bahia, estudou no Colégio dos Jesuítas e, depois, ingressou na Companhia de Jesus. Antônio Vieira nos legou uma vasta produção, incluindo profecias, cartas e sermões.

Grande orador sacro, nunca restringiu sua atuação à pregação religiosa. Em seus sermões, Vieira – segundo o crítico português Hernâni Antônio Cidade, “a cada passo mais debruçado sobre a terra do que virado ao Céu e às Escrituras” – tratava de causas políticas que abraçava e defendia. Aliando sua formação jesuítica à estética barroca em voga, Vieira desen­volvia uma poderosa argumentação.

Em sua obra, destaca-se, entre outros, o Sermão da primeira dominga da quaresma, pregado no Maranhão, em 1653, combatendo a perseguição aos indígenas, o que provocou a ira dos proprietários de terra.