Intertextualidade entre Casimiro de Abreu e Oswald de Andrade


Talvez o tema que iremos abordar no artigo de hoje pareça um tanto quanto complicado para aqueles que não apreciam muito o estudo da língua portuguesa. Hoje iremos falar sobre intertextualidade, você sabe o que é isso?

O que é intertextualidade?

Basta lançar em qualquer buscador online a palavra “intertextualidade” para perceber que Casimiro de Abreu e Oswald de Andrade figuram nos principais textos sobre o assunto. Para os mais esquecidos vamos relembrar do que se trata o assunto.

Intertextualidade

Pois bem, a intertextualidade ocorre quando um texto, por algum motivo, apresenta certa ligação – como se fosse um tipo de relação – com outro texto. Funciona como se ambos conversassem entre si. Mas é bom lembrar que tal fenômeno não acontece apenas na Literatura, podendo, inclusive, ser notado nos mais diversos tipos de comunicação.

Casimiro X Oswald

Contudo, já que hoje o foco é intertextualidade entre Casimiro de Abreu e Oswald de Andrade, vamos nos ater a Literatura. O principal exemplo de intertextualidade entre esses dois amantes da língua portuguesa é o poema “Meus oito anos”.

O poeta brasileiro, pertencente à segunda geração do romantismo, Casimiro de Abreu escreveu “Meus oito anos” no Século XIX, enquanto isso, o escritor e dramaturgo Oswald de Andrade escreveu o seu já no Século XX. Sendo assim, Oswald cita Casimiro, portanto aí está a relação de intertextualidade.

Vejamos o trecho de um dos poemas:

“Oh! Que saudade que eu tenho

Da aurora da minha vida,

Da minha infância querida

Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,

Naquelas tardes fagueiras

À sombra das bananeiras,

Debaixo dos laranjais!”

(…)

“Meus oito anos” – Casimiro de Abreu

Passemos, agora, ao próximo:

“Oh que saudades que eu tenho

Da aurora de minha vida

Das horas

De minha infância

Que os anos não trazem mais

Naquele quintal de terra

Da Rua de Santo Antônio

Debaixo da bananeira

Sem nenhum laranjais.”

(…)

“Meus oito anos” – Oswald de Andrade

Uma rápida análise

Percebe a sutileza existente entre ambos os poemas? Não é incrível pensar que ambos tenham sido escritos com um século de diferença, e mais, por dois escritores de estilos completamente diferentes? – lembrando que Casimiro de Abreu era um poeta romântico, enquanto Oswald de Andrade era um escritor modernista -.

É notável que existam muitas semelhanças entre os dois textos, porém, ao mesmo tempo em que isso acontece percebemos também sutis diferenças. São frases, trechos, palavras trocadas como que de propósito, todos esses elementos contribuindo para a intertextualidade.

Vamos nos ater agora as influências que a escola (literária) de cada autor traz para essa intertextualidade.

Como já dissemos no início do texto Casimiro de Abreu era um poeta pertencente ao Romantismo que buscava explorar os elementos da natureza. Para confirmar isso repare nestas frases do autor: “a sombra das bananeiras”; “debaixo dos laranjais”. Além disso, tinha como prerrogativa envolver o ambiente em um clima mágico e nostálgico.

Agora, avaliando Oswald de Andrade, como um modernista seu principal objetivo vinha em expor a realidade tal qual ela era. Se continuarmos a leitura de seu poema veremos que o escritor imprime a esse um sentido irônico falando do crescimento desordenado pelo qual passavam as cidades naquela época. Acompanhe:

“Eu tinha doces visões

Da cocaína da infância

Nos banhos de astro-rei

Do quintal de minha ânsia

A cidade progredia

Em roda de minha casa”

Outras explicações

Mas não pense você, caro aluno e pesquisador, que o texto de Oswald de Andrade trata-se de cópia “descarada” do trabalho de Casimiro de Abreu, desenvolvido um século antes. Diversos especialistas em Língua Portuguesa e Literatura acreditam que o modernista queria dialogar com o poeta, nada mais do que isso.

É importante ressaltar que quando existe um tipo de “diálogo” entre os textos estamos presenciando, além do fenômeno da intertextualidade, também o da interdiscursividade, conceituado como a concepção de que não importa o quão novo, ou, inédito seja um discurso, ele sempre terá relação com outros discursos que já foram proferidos anteriormente.

Aqui cabe mais uma informação: toda relação intertextual é também discursiva, e, vice versa. Mas, cabe lembrar a intertextualidade se refere, basicamente, a um texto, enquanto isso, a interdiscursividade vai mais longe fazendo referência a uma ideologia de determinado poema, texto, ou, discurso.

Por fim, cabe dizer que a intertextualidade é mais comum em nosso dia a dia do que imaginamos. Pare para pensar, quando você vai escrever um texto, redigir uma redação e até mesmo um trabalho acadêmico não procura referências em outros textos que tratem do mesmo assunto? Pois bem, aí está um exemplo de intertextualidade.

Além disso, não é comum repetirmos ideais, ou, frases com as quais nos identificamos? Mesmo que elas tenham sido ditas por outras pessoas? Isso também é intertextualidade, aliada a interdiscursividade.

E assim finalizamos mais um artigo. Obrigado por nos escolher como seu site de pesquisas. Bons estudos e até a próxima!