O Realismo de Machado de Assis


Na segunda metade do século XIX, a revolução burguesa, liberal e democrática, estava politicamente assegurada por um progresso econômico significativa O Estado aristocrático e clerical cede o poder ao Estado burguês, secular, industrial e financeiro. Tem início a fase imperialista do capitalismo. A grande industrialização capitalista, possível pelo progresso tecnológico e científico, faz emergir o proletariado como classe revolucionária.

A rápida mecanização aumenta a produção de bens que são repartidos entre os capitalistas e proletários de modo que o lucro acrescente o capital para reinvestimentos na busca de mais lucro.
O proletariado, em negra miséria, ensaia seus primeiros passos com a determinação da necessidade. Aparecem as Trade Unions (forma dos primeiros sindicatos ingleses), o Manifesto Comunista é publicado em 1848 pela Liga Comunista – “primeira organização política do proletariado que atua sob os princípios do socialismo científico” (W. Roces), as ideias de Proudhon agitam o movimento socialista, estala a Comuna de Paris, em 1871, coroando o processo de ascensão das massas oprimidas.

Machado de Assis

A burguesia, como classe dominante, vai impor à História a sua marca, com a força que foi capaz de acumular. Se o cenário político mostra os primeiros movimentos da luta de classes burguesa e operária, as ciências da natureza ganham poderoso impulso com as teses evolucionistas de Darwin. O positivismo de Augusto Comte e o determinismo de Taine impregnam o pensamento filosófico, social e antropológico, redefinido em bases materialistas.

Todas as teses fundamentais encontram grande ressonância devido ao desenvolvimento do jornalismo e da indústria cultural; a distância entre os homens diminui com os novos meios de comunicação, aplicados em escala internacional.

Um novo mundo se define, as relações humanas se transformam. Não mais estamos na euforia da conquista, o estado de espírito que domina a sociedade tinge-se de cores sombrias e céticas. A divisa “liberdade, igualdade, fraternidade”, realizada pela burguesia na segunda metade do século XIX, é a da liberdade de comércio e concorrência, da igualdade perante a lei (igualdade jurídica, desigualdade econômica), isto é, liberdade e igualdade formais; o ideal de fraternidade contrasta com a existência de um mundo dividido em exploradores e explorados. A consciência da injustiça desse sistema é uma consciência infeliz, que se refere na arte e na literatura.

O REALISMO NO BRASIL

Na esfera literária foi a estética realista-naturalista que procurou dar forma a essa nova disposição de espírito. Assim, em 1881, Machado de Assis publica as Memórias Póstumas de Brás Cubas, enquanto Aluísio Azevedo dá a público O Mulato, dando início ao movimento no Brasil.

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839-1908)

A LINGUAGEM MACHADIANA

É o grande mestre do foco narrativo em 1a pessoa, embora tenha exercido com maestria também o de 3a. Sabe colocar-se no lugar de um hipotético narrador e vivenciar todos os seus grandes problemas
Já na infância apareceram sintomas de sua frágil compleição nervosa, a epilepsia e a gaguez, que o acometeriam a espaços durante toda a vida e lhe deram um feito de ser reservado e tímido.

Pouco depois, é admitido à redação do Correio Mercantil. Trava conhecimento com alguns escritores românticos: Casimira de Abreu, Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida, Pedro Luís e Quintino Bocaiuva. Este o introduz, em 60, no Diário do Rio de Janeiro para o qual resenhará os debates do Senado usando de linguagem sarcástica em função de um ardente liberalismo. Desenvolveu todos os grandes gêneros literários da época, sobretudo o romance e o conto, em que se consagrou. Desempenhou cargo de relevo na administração pública. Foi fundador e presidente da Academia Brasileira de Letras.

Diretamente ligado ao item anterior é o princípio de causalidade: foi exatamente por não explicar tudo que Machado não caiu na vulgaridade de um Aluísio de Azevedo. As coisas mais fundamentais da vida não têm explicação. Podem ter descrição discreta. Nisso Machado foi um grande mestre.

A frase machadiana é simples, sem enfeites. Os períodos em geral são curtos, as palavras muito bem escolhidas e não há vocabulário difícil. Com isso ele consegue um máximo de expressividade;

A descrição de objetos se limita ao que neles é funcional, ou seja, àquilo que tenha que ver com a história que está sendo contada. As interpolações de fatos, acontecimentos, recordações, reflexões também são comuns. A interpolação consiste no ato de intrometer no assunto algo que aparentemente se desvia do tema do livro: é uma espécie de memória acidental, que vai ajudando o autor a compor o plano principal do livro. Às vezes essa técnica de retardamento é chamada digressão;

Chamamos de aparência aquilo que aparece a nossos olhos, aquilo que primeiramente surge à observação; se continuarmos a observar podemos perceber que aquilo que parecia (= aparência) vem a ser uma coisa diferente do que pensávamos, podendo esta última perspectiva ser uma nova aparência ou a própria essência (= verdade da coisa, versão rigorosa, etc). O estilo machadiano vai de fora para dentro, vai descascando os objetos, aparência atrás de aparência. Por isso Machado foi chamado de grande “analista da alma humana”; A linguagem machadiana faz uma espécie de “tabelinha”, de contraponto com estilos de outros grandes autores do Ocidente. Nem sempre Machado revela isso. Essa relação entre o texto de Machado de Assis e frases, citações, capítulos de outros autores é a chamada intertextualidade.