Raimundo Correia


A literatura parnasiana, escola que vigorou na poesia brasileira paralelamente ao romance de cunho realista e naturalista, tem como um de seus nomes centrais o juiz, diplomata e poeta Raimundo Correia, que figura, ao lado de Olavo Bilac e Alberto de Oliveira numa chamada “tríade parnasiana” brasileira podemos assim dizer. Dos três nomes, Correia se destaca por ser o criador de uma poesia que apresenta em um aspecto geral um tom bastante pessimista diante da vida, com um caráter eventualmente sombrio, e que ainda ecoa alguns rastros de uma influência literária notadamente romântica, que foi recebida pelo poeta de autores icônicos desse movimento, como Castro Alves e Casimiro de Abreu.

Nascido em 1859, a bordo de um navio que estava ancorado no cais do porto da baía de Mogunca, – fato que iria lhe fazer dizer, no futuro, que era um homem sem pátria – Raimundo Correa era filho de uma família abastada do Maranhão. Seu pai, José da Mota de Azevedo Correia, era desembargador federal. Na formação acadêmica do poeta, marcaram presença duas das mais tradicionais instituições de ensino do Brasil: o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, onde Correia concluiu o segundo grau, e a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo.

Raimundo Correia

Raimundo Correia iniciou sua carreira com a publicação do livro de poemas “Primeiros sonhos”, obra na qual ele ainda não assume o caráter parnasiano que viria a marcar toda a sua futura produção. Resultado de uma negação dos ideais românticos e estimulado por uma exaltação do pensamento racional e científico, o parnasianismo propunha para o fazer poético o abandono da subjetividade em prol da materialidade e, para isso, pregava uma atenção toda especial para a forma empregada nos poemas. Aspectos como a métrica, a presença de figuras de linguagem sensoriais – como a assonância e a aliteração – e o rigor estético eram essencialmente valorizados, muitas vezes em detrimento até mesmo do conteúdo do próprio poema. Em outras palavras, o parnasianismo valorizava a beleza ideal da poesia. Não por acaso, o nome do movimento tem sua origem calcada na história do Monte Parnaso, a montanha onde supostamente moravam, de acordo com a mitologia grega, as chamadas “Musas”, seres mágicos responsáveis por inspirar os poetas e artistas.

Foi somente em 1883 que essas preocupações viriam a se afirmar na produção poética de Raimundo Correia, quando o poeta publica o livro “Sinfonias”, prefaciado por Machado de Assis. Nesse momento, ele assume para si o Parnasianismo como escola tutora de sua literatura. Em poemas como “Ser moça e bela ser”, a descrição de uma borboleta em seus mais precisos detalhes é apresentada com um rigor métrico tamanho que imprime na leitura uma sonoridade natural.

Essa preocupação excessiva com a estética da poesia rendeu ao longo da história para os poetas parnasianos a fama de serem produtores de uma literatura alienada das preocupações sociais e da realidade em que estavam inseridos. Nesse sentido, a produção de Correia também se destaca por se diferenciar diante desse aspecto. Um bom exemplo disso é o poema “Banzo”, em que a óbvia influência da poesia romântica ajuda o poeta a reproduzir verbalmente os delírios e as visões da África tidas por um escravo no auge da saudade de sua terra natal.

Esse traço de subjetividade também se faz presente no poema “As pombas”, talvez um dos mais famosos expoentes de sua produção literária, em que Raimundo Correia propõe em seus versos uma comparação entre o voo das aves brancas e os sonhos humanos. Em um momento de rara descrição de beleza no poema, Correia afirma que em todo entardecer as pombas retornam aos pombais de onde vieram, diferente dos sonhos que nunca voltam aos corações humanos. Curiosamente, esse poema rendeu a Raimundo Correia o jocoso apelido de “o poeta das pombas”, o qual ele sempre odiou.

Correia foi também um dos responsáveis pela criação da Academia Brasileira de Letras. A iniciativa da criação foi inicialmente tomada por alguns escritores de renome como Graça Aranha, Artur Azevedo, Visconde de Taunay e José do Patrocínio, além do seu mais famoso membro e primeiro presidente, Machado de Assis. No começo, a Academia possuía apenas trinta membros. Uma vez que sua inspiração era a Academia Francesa de Letras, da qual faziam parte quarenta literatos, foi necessário que mais dez escritores brasileiros fossem convidados para compor o quadro de imortais. Nesse momento, o poeta parnasiano foi chamado para integrar o grupo.

Raimundo Correia veio a falecer em 1911, em Paris, para onde havia ido justamente com o intuito de tratar alguns problemas de saúde que já o acometiam há algum tempo. Somente em 1920, por iniciativa da Academia Brasileira de Letras, seus restos mortais foram retirados da capital francesa e depositados, em setembro daquele mesmo ano, no cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.