Realismo e Naturalismo


Realismo e Naturalismo são as tendências que aparecem no final do século XIX e dão face nova para a literatura: em vez de entretenimento (palavra de ordem do Romantismo) fazem denúncia social.

Há uma distância entre ambos: se, por um lado, o Realismo tem preocupação de mostrar o lado de dentro das personagens, desvendando-lhes o psicologismo, o Naturalismo tem como preferência o desnudamento da sociedade, seus comportamentos, desvios e deslizes.

Em Portugal, aparece um prosador impecável: Eça de Queirós, que mistura o Naturalismo ao Realismo e traz à luz tipos inesquecíveis, componentes de pequena e média burguesia lisboeta e seus vícios peculiares: o adultério, os maus costumes, a dissimulação, a mentira.

Realismo

No Brasil, Machado de Assis é a figura mais que importante: um romancista ímpar, um contista excepcional, sutil, capaz de vasculhar fundamente a alma humana e todas as inquietações, ambições e vaidades.

Além de romancista, Machado também é excelente contista; seus tipos humanos, em ambos os gêneros narrativos, são criaturas assemelhadas a nós todos.

Além de Machado, aparecem na ficção romanesca, no Brasil, Aluísio de Azevedo e Adolfo Caminha. Aluísio, desenhou como poucos os tipos humanos, as inquietações sociais, criando personagens inesquecíveis: João Romão, certamente é o mais conhecido de todos eles.

Pressupostos

O Realismo e o Naturalismo, cujas origens centram-se na França, formam as correntes artísticas mais significativas da segunda metade do século XIX, atingindo, inclusive, em alguns países, a primeira década do nosso século. A ficção de Vitor Hugo e de Balzac já prenunciava uma atitude crítica com relação ao mundo da época e não sem razão Karl Marx, o pai do socialismo, observou ter aprendido mais sobre a França dos séculos XVIII e XIX ao ler Balzac, e sentir sua contundência crítica, que estudando os historiadores franceses em suas obras sobre o mesmo período.

No entanto, as primeiras manifestações de contorno realista datam de 1850 e 1853: o pintor francês Gustave Coubert expõe telas que escandalizaram os parisienses : Enterro em Ornans e As banhistas, considerados realistas demais, até mesmo chocantes, porque imitavam a vida. Em 1855, algumas telas de Coubert foram acintosamente recusadas pela Exposição Universal de Paris; em protesto à recusa, o pinto realiza uma exposição com o título genérico de O Realismo. A partir daí, capta com mais intensidade os aspectos da realidade e do cotidiano.

Na literatura, o ano de 1857 é um marco importante. Isso porque o escritor Gustave Flaubert publica Madame Bovary, livro através do qual o autor inicia na França o Realismo e faz uma impiedosa análise de uma mulher burguesa, cuja a vida é destruída por sonhos românticos. Dez anos depois, Émile Zola publica Thérèse Raquim, dando início ao Naturalismo, considerada a vertente mais radical da estética realista.

Portanto, o Realismo e o Naturalismo opor-se-ão ao espiritualismo, e por consequência, ao idealismo da escola romântica. Tudo o que é importante para o romântico, o que signifique transcendência, estados da alma, busca da religião, perderá sentido.

O Contexto histórico-cultural

O Realismo e o Naturalismo possuem um contexto sociopolítico-cientifico e filosófico bem determinado: insere-se em uma época em que predominam a Ciência, a Razão e o Progresso, palavras consideradas de ordem dessa nova época:

A. O Positivismo: essa tese defende a importância fundamental da Ciência e prega o abandono gradual da teologia e da metafísica em detrimento da percepção do que é concreto, palpável, observado ou analisado tudo dentro de uma lógica, ordem e progresso.

B. O Evolucionismo: essa é considerada a mais revolucionaria de todas as teorias científicas do século XIX, alterando as relações entre a igreja católica e o universo científico daquele tempo.

C. O Determinismo: propõe que o comportamento humano, o desempenho do homem, seja submetido a três leis inexoráveis: a herança genética, o meio social e o momento histórico. Isso significa dizer que o ser humano é determinado pelos fatores genéticos, sociológicos e ambientais.

D. O Experimentalismo: gerou a compreensão de que a Medicina é a ciência nutrida pela experimentação.

E. O Pessimismo: embora valorize a ciência, acredita que o homem é uma criatura mesquinha, destinado ao sofrimento e à dor.

F. As leis de Mendel: ganham destaque e são aceitas como fundamentais.

G. Os fundamentos socialistas de Marx e Engels começam a ser aceitos como ideias claras de um novo tempo, significando saídas políticas de ímpeto revolucionário e transformador.

Todo esse ambiente materialista remete a segunda metade do século XIX a um tempo de profundas transformações, levando-se em conta os desdobramentos da chamada civilização industrial: as cidades sofrem veloz expansão, aparecem os trabalhadores proletários e a classe dominante substitui, aos poucos, seu ímpeto revolucionário e libertador por impulsos reflexivos, observação, analise, disciplina e sistematização de conceitos.

É dessa forma que as noções de Deus, transcendência, alma, religião, fundamentais para a época romântica, são deixadas em segundo plano e substituídas pela empiria, pelo anticlericalismo contundente e críticas ao cristianismo que paralisa as atividades do homem ou coíbe seu progresso.