Resumo do pré-modernismo: Monteiro Lobato – Cidades Mortas e um homem de consciência


Ao ser publicado, no ano de 1919, trazia como subtítulo ‘Contos e impressões’. Apoiado numa crônica de 1906, época dramática para o Vale, as impressões focalizadas são de decrepitude das cidades que se arrastam como decadentes, lugar pleno de Itaocas, imobilizadas pela crise, afogadas nas lembranças de um tempo de riquezas que passou.

Formam Cidades Mortas, 41 histórias, algumas antigas, ainda do tempo em que Monteiro Lobato era apenas estudante da Faculdade do Largo de São Francisco. Entre todas, destacam-se fundamentalmente algumas: Cidades Mortas, Pedro Pichorra, Cabelos Compridos e a impagável Um homem de consciência.

Monteiro Lobato – Cidades Mortas e um homem de consciência

Além dos livros de contos Urupês, Ideias de Jeca Tatu, Cidades mortas e Negrinha, Monteiro Lobato escreveu os romances: No mundo da Lua, em 1923, O macaco que se fez homem, em 1923, O choque das raças ou O presidente negro, em 1926. No jornalismo, publicou A Onda Verde, Problema viral. Publicou ainda epistolografia e obra crítica, como Ferro, Mr, Slang e o Brasil, Na antevéspera, O escândalo do petróleo e A barca de Gleyre.

Sua literatura infantil, iniciada a partir de 1925, o transforma no maior escritor infantil brasileiro do gênero. De 1927 a 1931, serve como adido comercial nos Estados Unidos. Mas o fato de permanecer longe do país não o impede de enxergar de maneira clara que o país ia de mal a pior. Ao retornar no ano de 1931, em pleno estado novismo getulista, fundou a Companhia Petróleo do Brasil, e mais tarde desencadeou a campanha ‘O petróleo é nosso’.

Getúlio acabou convidando Monteiro Lobato para ser seu chefe de Departamento da Imprensa e de Propaganda. A resposta de Lobato foi um desafogo, eivada de falta de tato ou de gentilezas e terminada de uma maneira inigualável, típica do caráter forte e do estilo contundente do escrito: ‘Pelo amor de Deus Dr. Getúlio, deixe de lado a sua displicência e veja o que está fazendo o general petrolicida!’.

No ano de 1941, Lobato foi preso e submetido a julgamento do Tribunal de Segurança. Solitária, cela comum, condenado a seis meses de reclusão. Nem assim abandona a sua teoria sobre a riqueza que o petróleo significava e a denúncia que os poderosos não tinham nenhuma intenção de procurar o que já jorrava em algumas partes do país, mola através de que o progresso nos alcançaria.

Briguento, intempestivo, corajoso, Lobato foi sobretudo u grande homem. Viveu para lutar por um Brasil de brasileiros, detestava injustiças. Uma das cometidas por ele teve fim na quarta edição de Urupês. Ele pediu desculpas ao caboclo do Vale do Paraíba, reconhecendo que o Jeca Tatu era um abandonado por todos, cheio de doenças e em difícil situação, Sua Emília, a boneca de olhos de retrós, como ele dizia, foi uma criação fundamental da alma lobatiana. Ensinou gerações a fio sobre os conceitos de democracia, respeito e igualdade.

Querendo conhecer melhor o escritor Monteiro Lobato

Quem quiser de verdade conhecer Monteiro Lobato, seus conceitos, suas discussões por picuinhas, seu costume valeparaibano de comer iças, que são formigas de abdômen enorme, torradas, sua adoração por Eça de Queiroz, caso queira conhecer esse leitor totalmente compulsivo por leitura e que sofria de delírios, quem quiser conhecer o que pensava da biblioteca do avô, o Visconde de Tremembé, o menino José Renato, terá que ler de cabo a rabo a correspondência de Lobato com Godofredo Rangel durante quarenta anos, que está localizada nos dois volumes que compõem A barca de Gleyre.

Com estas palavras, o verdadeiro Lobato descartava um sonho acalentado por muitos: o convite para entrar na Academia Brasileira de Letras. Ele era um valeparaibano de verdade. A linguagem utilizada em suas obras é um verdadeiro misto de despojamento, quando regionalista, e de rebuscamento, indignação, incredulidade. Contador de causos eméritos, Lobato é, antes um escarafunchador de almas, um observador de rápido raciocínio, oscilando entre o que detecta como ridículo, patético e cômico.

Monteiro Lobato é considerado grande quando começa a narrar sobre o que conhece bem: suas Itaocas, oblívions, sobre os caboclos, os joões teodoros, os jecas. Usava de maneira constante neologismos, cria um mundo de palavras novas, sua cabeça dava piruetas, o mundo era pequeno demais, àquela época, para as ideias incríveis de Lobato.

Crítico, teimoso, sereno, impassível, o escritor Monteiro Lobato foi, antes de tudo, gente. Viveu de maneira intensa, mas viveu em um tempo que não era o dele: o Brasil estava, agora, precisando de um bom Lobato. Desde o distribuidor de livros, passado pelo Lobato da personagem Emília, até o Lobato terrível causador de grandes polêmicas.

Leitor assíduo de Eça de Queiroz, de Machado de Assis, de Camilo, e ainda de todos os grandes escritores, este comedor de iças, orgulho da região do Vale do Paraíba, devia estar vivendo nos dias de hoje.