Em vez de e Ao invés de – marcas linguísticas


Falar sobre a língua portuguesa é falar sobre um rico sistema de significação. Plena em todos os sentidos possíveis, nossa língua é reconhecida por sua complexidade, e para concluirmos isso basta observarmos algum estrangeiro ambientado ao português. Mesmo depois de um ano em contato e praticando ativamente a língua, é muito provável que ele ainda não tenha total domínio da mesma. E a principal responsável por essa extrema complexidade é a gramática.

Em vez de e Ao invés de - marcas linguísticas

A gramática da língua portuguesa (ou seria língua brasileira?) é bastante extensa e complicada, e por isso possui uma ampla tradição de estudos por gramáticos, linguistas e mesmo filósofos. No entanto, é necessário entender qual é essa gramática, já que temos mais que uma, por mais paradoxal que isso possa ser.

Do ponto de vista dos estudos linguísticos, as gramáticas são muitas. Existe, por exemplo, a gramática da língua falada, que conta com uma série de regras próprias como, por exemplo, a colocação do pronome oblíquo. Do ponto de vista da gramática normativa, aquela que estudamos na escola, a expressão “Te amo” está errada, pois segundo a regra pronome obliquo não pode ser utilizado no início de frases. No entanto, na língua falada (e mesmo na língua escrita), a grande maioria das pessoas utilizada “Te amo” e, do ponto de vista da linguística, esse uso está correto, pois é ele o mais utilizado. Inversões sintáticas, (não) concordância verbo-nominal, uso de palavras com sentido diferente do original são apenas mais alguns exemplos de uso recorrentes na fala considerados como “equivocados” pela gramática normativa.

A gramática normativa, assunto deste artigo, é extremamente importante EM DETERMINADAS SITUAÇÕES, como em livros, artigos acadêmicos, jornais, revistas, programas jornalísticos televisivos. Em outras situações a fuga das regras da gramática normativa é mais que permitida. O que realmente importa é que a comunicação, que seja ela escrita ou fala, faça sentido para aqueles que participam e seja adequada para a situação de comunicação.

Diferenças entre as expressões

Uma das confusões mais recorrentes em termos de gramática normativa é o uso de “em vez de” e de “ao invés de“. Essa confusão é justificável, já que as expressões possuem grafia similar, são praticamente iguais em termos sonoros, geralmente ocupam a mesma posição sintática na frase e têm sentido similares. Mas do ponto de vista da gramática normativa trata-se de duas coisas completamente diferentes.

A regra básica é que “em vez de manifestar a ideia de troca, de substituição, de “no lugar de”. Já a expressão “ao invés de” manifestação a ideia de oposição, de algo contrário. Para ficar mais claro, vamos a alguns exemplos.

(1) Fui ao café EM VEZ DE ir ao cinema.
Como é possível observar, neste exemplo o café é uma opção ao cinema, e não seu contrário, ou seja, quando não vou ao cinema não significa que automaticamente irei ao café, pois posso sair para passear com meu cachorro, sair para comer, alugar um filme ou mesmo ficar em casa. Não há a ideia de oposição, mas sim “em vez disso, aquilo”.

(2): Poderia ter chorado, mas AO INVÉS DE chorar preferi sorrir.
Neste exemplo há a clara ideia de oposição. Seguindo uma linha de raciocínio bastante lógica, o sorriso é justamente o contrário de choro, pois além de ser impossível sorrir enquanto se chora e vice-versa, a felicidade, estado em que o sorriso se manifesta, é o oposto da tristeza ou raiva.

Marcas linguísticas das expressões

O primeiro ponto a ser observado em termos de marca linguística diz respeito ao tipo de oração em que as expressões “em vez de” e “ao invés de” aparecem. Por exigirem completo (isso no lugar daquilo ou isso a aquilo) elas nunca estarão dentro de orações absolutas, mas sempre em orações compostas. Vamos recorrer novamente a exemplos para identificarmos outras marcas linguísticas:

(3) Em vez de ficar contando histórias, irei direto ao ponto!
(4) Ele mediu em gramas ao invés de medir em litros.
(5) Demoramos para chegar aqui porque, ao invés de virarmos à esquerda, viramos à direita.
(6) Estudou português em vez de história.
(7) Viajou de carro em vez de avião.
(8) Ele pediu que fosse embora ao invés de ficar e discutir o caso.

Nos exemplos podemos observar que quando se usa “em vez de” não é necessário um verbo auxiliar, pois como se trata de uma repetição, o verbo é omitido, ou seja, ocorre uma elipse (Estudou português em vez de [estudar] história). Quando se usa o “ao invés de”, o padrão é que haja dois verbos, mesmo quando se trata de uma repetição (Ele MEDIU em gramas ao invés de MEDIR em litros).

Consegue descobrir mais alguma marca sintática pelos exemplos acima? Sim? Então parabéns, mas não deixe de dividir com seus colegas. Não conseguiu achar mais nenhuma marca? Sem problemas, procure outros exemplos para analisar, pois além de achar mais marcas linguísticas, você ficará craque no uso de “em vez de” e “ao invés de”.