Silepse e a concordância


Apesar de ser o idioma nativo dos brasileiros, falar a língua portuguesa com perfeição é uma tarefa difícil. O idioma é uma língua complexa com diversas variações gramaticais, ortográficas, entre outras. No entanto, é essencial aprender as regras do português para se comunicar melhor no cotidiano e para executar suas funções de maneira correta. A concordância é um tema da língua portuguesa que deixa muita gente de cabelo em pé. O verbo deve concordar com o tempo verbal e com a pessoa verbal. Substantivos e adjetivos devem concordar com gênero, número e grau. No fim das contas, é tanta coisa para se preocupar que surgem diversas dúvidas em relação à construção de frases.

Silepse e a concordância

Na língua portuguesa, existem as chamadas figuras de construção. Quando utilizadas, elas nem sempre dizem respeito à construção que, logicamente, aconteceria caso todos os elementos da frase estivessem presentes. No entanto, termos aparecem em diferentes concordâncias com a função de trazer maior expressão para aquilo que se quer dizer.

Existem três tipos de figura de construção. Uma delas é a elipse, onde há a omissão de palavras da oração. No entanto, é possível identificar a que os verbos concordam facilmente, pelo restante da frase ou por outros elementos que remetam ao significado da oração. Por exemplo: Camila comia muito. Teve de fazer uma dieta. (“Ela” teve de fazer uma dieta).

Outro tipo de figura de construção é o Zeugma. Parecido com a elipse, o zeugma é a figura de construção que diz respeito a quando se omite um termo que já foi utilizado anteriormente. Por exemplo: O sol brilha durante o dia, a lua durante a noite (A lua brilha durante a noite).

A última figura de linguagem e foco principal do texto é a silepse. Vamos tratar mais profundamente sobre a sua utilização e variações.

Silepse: o que é e como funciona?

A silepse é uma figura de construção onde a concordância é estabelecida com o sentido que se deseja passar ao receptor, e não, necessariamente, com as palavras que compõem a frase. Por esse motivo, muitas vezes a utilização da silepse pode parecer uma forma equivocada de concordância. No entanto, se trata apenas de uma expressão da língua portuguesa, evidenciando as possibilidades que esta abrange de diferentes formas. A silepse é uma figura de linguagem presente, inclusive na literatura. Autores como Guimarães Rosa e Olavo Bilac a utilizaram em suas obras.

Para começar a falar sobre silepse, vamos recorrer a alguns exemplos gerais antes de classificá-la. Na silepse, o termo de concordância está oculto. No entanto, isso não prejudica o entendimento da oração. Pelo contrário: ele reforça a ideia transmitida pela frase.

Alguns exemplos: Curitiba é maravilhosa! (A concordância se refere à palavra cidade, que está suprimida na frase).
A minoria dos idosos frequentam bares. (Nesse caso, o verbo concorda com o termo “idosos” e não com “a minoria”, como ocorreria normalmente).
Todos gostamos de chocolate. (Apesar de a concordância tradicional sugerir a utilização da terceira pessoa do plural na frase, a primeira pessoa do plural aparece como uma demonstração de silepse).

Divisões da silepse

A silepse pode acontecer em três categorias de concordância: gênero, número e pessoa. Em cada uma delas, a concordância com um destes fatores irá adquirir a condição de silepse, por concordar os termos de forma diferente da tradicional com o objetivo de evidenciar um significado à oração.

Silepse de gênero:

ocorre quando as características que atribuem sexo as palavras são concordadas de forma diversa. Por exemplo: Rio de Janeiro é muito hospitaleira: Neste caso, hospitaleira é um adjetivo referido a população da cidade. Vossa majestade está irritado: A palavra irritado concorda com o gênero da pessoa que descreve e não com o pronome de tratamento.

Silepse de Número:

esta silepse é caracterizada pela discordância no número da oração. Ou seja, a referência a um número diferente do que está expresso pelos termos da frase. Veja o exemplo: A galera fez a prova e tiraram notas péssimas: A galera aparece como terceira pessoa do singular. No entanto, o verbo “tiraram” reforça a situação de que o termo”galera” representa várias pessoas, aparecendo na terceira pessoa do plural. O grande público tomou o estádio e cantaram o hino: “Cantaram” se refere ao número de pessoas que tomou o estádio, apesar de o termo utilizado na frase ser uma palavra no singular.

Silepse de pessoa:

Na silepse de pessoa, a pessoa verbal da oração é o termo que aparece com concordância diferenciada. Siga o exemplo: Os quatro andavam em direção ao colégio: A utilização da primeira pessoa do plural reforça a participação do emissor na ação descrita. No entanto, a concordância tradicional sugere a utilização da terceira pessoa do plural como forma adequada. Os paulistas somos pessoas aceleradas: Normalmente, a frase concordaria através da terceira pessoa do plural. No entanto, neste caso existe a intenção de evidenciar a presença do emissor.