Auguste Comte e a Fundação da Sociologia


Quem fundou a Sociologia? Quais as suas preocupações? Vimos nas unidades anteriores que foram várias as condições para o surgimento dessa ciência, e como os problemas com que ela se defrontou desde o início eram urgentes. Nesse sentido, quais foram precisamente as ideias sociológicas de Auguste Comte? Como elas se inseriram em sua época?

D confusão terminológica: os “positivismos”

Ao fundar a Sociologia, Auguste Comte incluiu-a em um conjunto maior de ideias a que chamou positivismo. Todavia, tanto nas Ciências Sociais quanto nas Ciências Naturais, a palavra “positivismo” gera confusão, pois indica várias coisas, muitas delas conflitantes entre si. Mesmo as observações a respeito das ideias de Comte fre­quentemente estão erradas. Assim, nesta unidade e na próxima considera-se que o positivismo é exclusivamente o nome dado por Auguste Comte à sua filosofia e ao movimento político e social dela derivado.

Auguste Comte

Essa filosofia afirma que é necessário conhecer cientificamente a realidade, o que se dá por meio da desco­berta das leis naturais que regulam o funcionamento da sociedade. A partir daí, é possível agir sobre a realidade.

Há outros sentidos para o termo “positivismo”. Para os juristas, o “positivismo” afirma que as únicas leis e os únicos princípios jurídicos válidos são aqueles estabelecidos nas leis escritas (ou seja, no Direito Positivo), recusando os hábitos, os costumes e a moralidade não escrita como base para a tomada de decisões jurídicas.

Na Filosofia da Ciência e na Sociologia dos Estados Unidos, o positivismo é uma perspectiva radicalmente cientificista, defendendo que o pesquisador tem que ser totalmente objetivo, deixando sua subjetividade e seus valores de lado ao investigar alguma coisa. Com isso, busca os fatos em si mesmos, desprezando a importância das teorias e da subjetividade de cada ser humano. Em decorrência disso, a ciência seria uma atividade que não levaria em consideração nenhum tipo de valor (moral, político, estético, etc.). O resultado é um culto às estatís­ticas e à compilação de dados numéricos.

Essas definições, contudo, guardam pouca ou nenhuma relação com o positivismo de que tratamos aqui, que é o de Auguste Comte.

Resumo biográfico: vida e obra

Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte – ou, simplesmente, Auguste Comte – nasceu em Montpellier, no sul da França, em 19 de janeiro de 1798. Cur­sou, nessa cidade, o equivalente aos ensinos Fundamental e Médio e, em 1814, foi aprovado para a Escola Politécnica, instituição que formava quadros técnicos de elite para o desenvolvimento industrial e econômico da França. Entre 1817 e 1824 foi secretário de Claude Henri de Saint-Simon (que depois Karl Marx consideraria um dos socialistas utópicos).

Nesse período e até 1828, Comte escreveu diversos artigos indicando que uma ciência da sociedade era possível e necessária. Considerando que os procedimentos rigorosos das Ciências Naturais deviam ser aplicados ao novo objeto, essa ciência foi então chamada de Física Social. Além disso, nesses artigos, ele apresentava os elementos teóricos básicos da Física Social.

A partir de 1830, começou a redigir sua obra mais famosa, o Cours de philosophie positive (Curso de filosofia positiva), que teria seis volumes e ficaria pronta só em 1842. Nessa obra, Comte repassou os principais métodos e resultados de cada uma das ciências, de modo a poder estabelecer as bases da própria Sociologia. Em 1836, mudou o nome de Física Social para Sociologia a fim de evitar a ideia de que a ciência que fundava fosse confundida com a mera análise estatística de questões sociais, conforme praticado pelo estatístico belga Adolphe Quételét. Essa mudança de nome deixa claro que a Sociologia tem seu próprio objeto e seus próprios métodos; ela não é a aplicação das teorias da Matemática, da Física ou da Biologia à sociedade.

Em 1848, Comte criou a Sociedade Positivista, com fins de debater e sugerir propostas políticas e sociais para a França: trabalho, educação, organização política, serviços de saúde, etc. Também em 1848 publicou o Discours sur 1’ensemble du positivisme (Discurso sobre o conjunto do positivismo), indicando como a Filosofia Positiva e a Sociologia poderiam ser aplicadas para solucionar os problemas sociais.

Compreensão sociológica

Entre 1851 e 1854, Comte redigiu sua obra mais importante, o Système de politique positive (Sistema de política positiva), em que desenvolve a Sociologia de maneira mais sistemática. Nessa obra, considera que religião não é o mesmo que Teologia, mas é uma situação de unidade humana (individual e coletiva, objetiva e subjetiva), constituída historicamente. A partir disso, criou uma religião humana e sem deus, a Religião da Humanidade. Nesse período, também escreveu o Catechisme positiviste (Catecismo positivista, de 1852); em 1855 escreveu o Appelauxconservateurs (Apelo aos conservadores). Nesses dois livros, apresentava a Sociologia e sua religião e tirava conclusões práticas para a reforma social.

Em 1856, Comte escreveu o primeiro volume de sua Synthèse subjetive (Síntese subjetiva). Faleceu, em Paris, em 5 de setembro de 1857.