Conhecimento Científico x Religião


A ciência adota um procedimento que conjuga a observação dos fenômenos com a elaboração de teorias. Entre os dois processos – elaboração e observação -, deve ocorrer um círculo virtuoso: por um lado, as teorias descrevem e explicam aspectos específicos da realidade, indicando como tais aspectos funcionam e como seus elementos interagem entre si; por outro lado, busca-se verificar se o que a teoria descreve realmente acontece: caso aconteça, tiram-se as conse­quências teóricas; caso não aconteça, busca-se determinar o que estava errado na teoria ou no experimento, a fim de corrigir um e/ou o outro.

Em virtude disso, a ciência adota uma perspectiva relativista, isto é, que aceita os seus limites – o ser humano dispõe de uma inteligência e de sentidos limitados – e que procura corrigir seus erros ao longo do tempo.

Conhecimento Científico

Ciência x Religião

O conhecimento científico está em constante mudança. A simples afirmação sobre o que uma coisa “é”, a simples crença em “como algo funciona para determinada realidade” não basta para que isso seja verdade. É necessário confirmar que a afirmação ou a crença corresponde à realidade dos fatos. Como a ciência investiga apenas aspectos específicos da realidade, ela fornece perspectivas analíticas.

Nos termos que apresentamos, é fácil ver que o relacionamento básico entre a ciência e a religião é tenso. Já o relacionamento entre ciência e Filosofia é de colaboração. Entre Filosofia e religião há tanto colaboração como tensão.

No que se refere ao par “ciência-religião”, há tensão porque as perspectivas gerais e as preocupações que adotam são opostas: enquanto a ciência é imanentista e relativa, investiga sempre questões particulares (ou seja, é especializante) e exige um diálogo contínuo e permanente entre a formulação de teorias e hipóteses e a verificação empírica (Ver Conceito sociológico no final desta unidade), a religião afirma verdades absolutas, indiscutíveis, a respeito das quais não se pode contestar nem colocá-las à prova. Na realidade, nem faz sentido para o pensamento religioso questionar se as suas afirmações correspondem ou não à realidade dos fatos. Além disso, a religião adota perspectivas gerais, ou seja, que conferem sentido ao conjunto da existência humana, em vez das perspectivas especializadas da ciência.

A Filosofia mantém com a ciência uma relação de colaboração porque aquela (a Filosofia) lhe fornece a visão geral do mundo e do ser humano que falta a esta (a ciência). Essa visão de mundo fornece pressupostos para as teorias científicas, sugere hipóteses e articula entre si os vários resultados específicos das diversas ciências. Em outras palavras, a Filosofia oferece uma visão sintética para os vários resultados analíticos da ciência. Inversamente, os resultados teóricos ou empíricos da ciência podem confirmar, corrigir ou até negar ideias e ideais filosóficos. O que importa notar, neste momento, é que a ciência procura pôr à prova empiricamente suas afirmações, o que não é o caso da Filosofia.

Entre Filosofia e religião, as relações são mais extensas: ambas procuram visões sintéticas da realidade, o que permite o diálogo entre elas. Ao mesmo tempo, muitos filósofos têm crenças religiosas, o que aumenta a proximidade.

Mas, como a Filosofia adota um procedimento mais livre na compreensão da realidade, essa liberdade gera uma disposição de espírito que pode se chocar com o caráter autorreferente da religião.
Entretanto, é importante enfatizar que as relações apresentadas acima constituem tendências gerais e não esgotam as possibilidades de relacionamento entre essas formas de perceber o mundo.
Assim, por exemplo, muitos cientistas desenvolvem pesquisas cuja importância filosófica é marcante, ou que podem ser entendidas como investigações filosóficas: na Física, as teorias de Copérnico e de Einstein têm conse­quências filosóficas de grande envergadura, ao sugerirem ou afirmarem que a Terra (e, por extensão, o ser humano) não está no centro do Universo ou que a matéria pode se converter em energia se estiver à velocidade da luz.

Sociologia nesse contexto

Na Sociologia, é perfeitamente válido ler as obras dos autores clássicos (Comte, Marx, Durkheim e Weber) de maneira filosófica, como se elas fossem filosofias sociais. Também há inúmeros cientistas que fazem suas inves­tigações procurando comprovar ou aplicar ideias originadas de suas crenças religiosas. Talvez o maior exemplo disso seja o de Kepler, que chegou às suas leis da Mecânica Celeste porque acreditava que os planetas descreviam movimentos semelhantes a músicas compostas por Deus.

Quaisquer que sejam as crenças intimas dos cientistas, importa notar que, ao realizar suas investigações, eles adotam os procedimentos indicados acima – verificação e comprovação. A simples afirmação da fé não basta na atividade científica.