Divisões das Ciências Sociais


A final, o que estuda exatamente a Sociologia? Ela não possui divisões internas segundo os assuntos de que trata? A palavra “Sociologia” foi criada em 1836 por Auguste Comte, juntamente com um projeto específico de : ciência da sociedade. Para ele, a Sociologia deveria ser uma ciência geral da sociedade, isto é, que a consi­derasse, antes de tudo, uma realidade total, englobando vários aspectos específicos. A partir dos princípios gerais é que os elementos particulares (família, riqueza, propriedade, governo, etc.) poderiam ser estudados. Ao mesmo tempo, essa teoria geral deveria considerar tanto as sociedades ocidentais quanto as não ocidentais, tanto as civilizações contemporâneas quanto as antigas.

Todavia, os vários objetos de pesquisa e as diferentes perspectivas teóricas e filosóficas suscitaram uma cres­cente especialização no conhecimento sobre o mundo social. Surgiram, por exemplo, formulações e modelos de análise específicos e que não se preocupam em relacionar-se a alguma teoria mais ampla. A teoria da democracia, por exemplo, considera os indivíduos apenas em termos políticos (e, às vezes, também econômicos), mas deixa de lado aspectos religiosos, culturais, intelectuais: não é que esses outros aspectos sejam desprezados, mas não são levados em conta ao se considerar a organização da democracia.

Ciências Sociais

Essa tendência à especialização é estimulada pelo desenvolvimento e pelo fortalecimento da Sociologia como disciplina científica nas universidades e nos institutos de pesquisa. Assim, embora falemos que a Sociologia é a ciência da sociedade, o mais habitual é usar a expressão “Ciências Sociais” para designar as três grandes áreas de pesquisa e especialização sobre o mundo social: a Antropologia, a Ciência Política e a Sociologia.

Nessa divisão, a Sociologia propriamente dita não é mais uma ciência geral, mas uma especialidade, que compartilha os estudos sociais com as outras duas áreas. Ainda assim, consideramos neste e nos demais volumes que a Sociologia é uma ciência geral da sociedade.

Antropologia

A Antropologia surgiu como o estudo das sociedades tribais, isto é, daqueles grupos que têm uma organiza­ção social relativamente simples e que são mais ou menos pequenos (variando entre algumas dezenas a poucas centenas de indivíduos). Por exemplo, os índios das Américas, as tribos africanas e os aborígenes da Oceania.

O que se estuda em tais sociedades são as relações de parentesco, as estruturas linguísticas, os mitos, os ritos coletivos, etc. e como tais elementos influenciam ou são influenciados pela organização social. Mas, as sociedades não ocidentais também integram o campo de estudos da Antropologia; por exemplo, as sociedades complexas da China, da índia, do Japão, da Roma Antiga, do Islã, etc. As sociedades complexas são aquelas que apresentam muitos princípios e elementos de organização e classificação dos seus membros. Suas populações são relativamente maiores (de várias centenas a milhares ou milhões de pessoas).

Na segunda metade do século XX, o objeto da Antropologia mudou, e essa área deixou de definir-se apenas pelo objeto (as sociedades “primitivas”) e passou a definir-se por seu método, isto é, pela abordagem peculiar dos antropólogos.

Assim, hoje a Antropologia não é apenas a ciência que estuda as sociedades tribais e as não ocidentais, mas a que adota certos procedimentos em suas pesquisas. Quais procedimentos? O estranhamento diante do grupo que se estuda, a relativização dos valores do pesquisador e a observação participante.

Ao examinar um comportamento de outra sociedade, o pesquisador pode considerá-lo estranho, como também pode vê-lo como natural: o achar estranho (errado) ou normal deve ser relativizado: os membros do grupo que estuda estão certos no que fazem, já que têm seus próprios motivos para isso. O estranhamento é a sensação subjetiva de que há algo diferente; a relativização é o entendimento de que as práticas sociais do grupo estudado estão “certas”, de acordo com seus próprios valores.

A observação participante consiste no seguinte: a fim de entender o grupo que estuda, o antropólogo passa a viver com esse grupo, acompanhando suas atividades rotineiras, seu cotidiano, tornando-se, virtualmente, membro do grupo. O antropólogo não deixa de ser antropólogo, pois esse pro­cedimento é um recurso metodológico para a pesquisa que realiza. A observação participante é uma técnica exigente, que requer grande dedicação e empatia da parte do antropólogo, além da sua aceitação pelo grupo que pesquisa.

O trecho de Lévi-Strauss evidencia que a pesquisa empírica da Antropologia é mesmo exigente. O mais importante nela é o controle das próprias emoções: o antropólogo deve aprendera manter-se, ao mesmo tempo, como membro da própria cultura (isto é, a aprender os hábitos da outra sociedade sem deixar para trás os seus próprios) e respeitador da cultura que estuda (sabendo reconhecer e controlar os seus preconceitos, o mal-estar diante do diferente, etc.).

Ciência Política

A Ciência Política é a mais especializada, a mais jovem e a que possui origem mais específica das três Ciências Sociais. O seu objeto de pesquisa é a política em geral; ou melhor, são as relações de poder.

Sem excluir contribuições de outros países (França, Alemanha e Itália), a literatura atual da Ciência Política provém majoritariamente da Inglaterra e dos Estados Unidos. Ainda assim, é interessante notar algumas variações nacionais: enquanto nos Estados Unidos e na Inglaterra há uma grande preocupação com as variáveis especifica­mente políticas (limites e distribuição do poder, organização do Estado, etc.); na França e na Alemanha há maior preocupação com a Sociologia (da) Política, isto é, como a estrutura social se relaciona e como define o poder do Estado. Nos Estados Unidos, a partir do fim da I Guerra Mundial e, ainda mais, depois da II Guerra Mundial e com a Guerra Fria, uma especialidade da Ciência Política desenvolveu-se e adquiriu grande importância: a Política Internacional ou, como também é chamada, o estudo das Relações Internacionais (RI).

Em termos de métodos de pesquisa, a Ciência Política é, junto a determinado tipo de Sociologia, menos teórica, a disciplina que mais recorre a investigações empíricas, isto é, a questionários, entrevistas, quadros históricos, etc. Isso se deve em parte à especialização da área, mas decorre também de alguns hábitos intelectuais estadunidenses, bastante afeitos às pesquisas quantitativas e um tanto avessos às pesquisas qualitativas. Apesar disso, há crescentemente pesquisas que usam poucos ou até nenhum dado numérico: não apenas no âmbito da subárea chamada Teoria Política como também nos procedimentos da Ciência Política interpretativista (que adota procedimentos próximos aos da Antropologia).

Como se pode perceber pelo trecho lido, a Ciência Política trata de questões bastante polêmicas, envolvendo valores fundamentais da sociedade; às vezes as relações de poder são o tema de pesquisa (por exemplo, relações entre governo e cidadãos), mas às vezes essas relações surgem de maneira indireta (por exemplo, a organização do Estado).

A Ciência Política, embora seja a mais específica das grandes especialidades das Ciências Sociais, aborda questões e temas que são universais, ou seja, que dizem respeito a todas as pessoas: as liberdades públicas, a cidadania, os direitos e deveres, etc. Às vezes, essas questões são abordadas por meio do exame de casos bem específicos (por exemplo: como se organiza a Câmara Municipal de algum município com menos de cinco mil habitantes?); às vezes, são questões mais gerais (por exemplo: quais são os poderes do presidente da República e do Congresso Nacional?). Por ser a mais específica das grandes especialidades, a Ciência Política consegue manter com maior facilidade o rigor em suas pesquisas. É esse rigor, aliás, que permite que as questões mais polémicas tenham (alguma) solução e que justifica a perspectiva científica: sem isso, as polêmicas seriam apenas bate-boca.

Sociologia

A Sociologia propriamente dita, isto é, a especialidade acadêmica chamada de Sociologia, é a mais antiga das três Ciências Sociais. Inicialmente, ela buscava elaborar teorias que explicassem a totalidade da sociedade tanto em termos es­táticos quanto dinâmicos, ou seja, como uma sociedade funciona em um momento específico e como ela e seus elementos se modificam no decurso do tempo.
Com a especialização crescente do conhecimento científico, ela passou a examinar a estrutura e o funciona­mento de sociedades específicas: quais grupos a compõem, que relacionamentos eles mantêm entre si, quais os seus valores, quais as suas ideias e assim por diante. Nesse sentido, as relações de trabalho (patrões e empregados, sindicatos de trabalhadores e associações patronais, etc.) são um tema clássico da Sociologia contemporânea, bem como as relações entre grupos étnicos e “raciais” (brancos, afrodescendentes, indígenas, imigrantes, etc.). Também os movimentos sociais, de caráter reivindicatório (movimentos dos sem-terra, dos sem-teto, etc.) e os estudos de gênero (definição dos gêneros em cada sociedade, situação das mulheres, dos homossexuais, dos transgêneros, etc.) constituíram, a partir dos anos 1980-1990, uma área de interesse preferencial dos sociólogos.

Nas últimas décadas, tem sido de grande importância o tema da autonomia de ação dos indivíduos face aos imperativos e aos determinantes sociais.