Escola e Diferenciação Social


As duas primeiras unidades demons­tramos que a educação tem como função promover a equalização dos comportamentos através do processo que a Sociologia denomina de socialização. Nesta unidade, tentaremos demonstrar que a educação também produz e reproduz a diferenciação dos indivíduos.

A atuação da escola é muito paradigmática deste duplo movimento do processo educacional que, a rigor, parece contra­ditório: a socialização e a diferenciação. De um lado, o sistema escolar impõe padrões comuns de comportamento; de outro, individualiza e hierarquiza os agentes sociais segundo o desem­penho e estimula o desenvolvimento de habilidades individuais.

Historicamente, a escola sempre reproduziu de modo notável as diferenças inscritas na sociedade. Lembremos que já houve, no ambiente escolar, separação entre ricos e pobres, mulheres e homens, católicos e protestantes, negros e brancos. A escola não inventou essas diferenças, mas o tratamento pedagógico e disciplinar diferenciado segundo a condição social, sexual, religiosa ou étnica as reforçava, reproduzia e ampliava.

Diferenciação Social

Entretanto, a massificação da instrução acabou por pro­mover maior diversidade na vivência escolar. As escolas têm hoje alunos de diferentes etnias, religiões, classes sociais e géneros convivendo durante longas horas do dia.

Assim, a expansão do sistema escolar acena, de um lado, para a igualdade de oportunidades por meio do acesso à instrução. De outro, institui uma nova perspectiva em crianças, adolescentes e jovens adultos acerca da diversidade cultural e social das sociedades.

Dilemas da diferenciação pelo rendimento escolar

A rigor, a escola é uma instituição meritocrática na medida em que classifica o desempenho dos alunos segundo o mérito. De acordo com essa lógica, quanto maior a dedicação do aluno, maiores serão as possibilidades de êxito escolar.

Entretanto, estudos sociológicos constataram que por vezes o sucesso nas avaliações escolares está também ligado ao cultivo de certos hábitos que são típicos de famílias socialmente diferenciadas (como a leitura de livros e jornais, frequência a espetáculos de teatro e música, ida a museus e exposições científicas). Observa-se que alunos com acesso a esses bens e serviços culturais têm maiores chances de ter um bom desempenho escolar e uma trajetória profissional exitosa. Quando isso ocorre, as diferenças de classe acabam se traduzindo, através do sistema escolar, em diferenças no rendimento e na “capacidade intelectual”.

Os sociólogos Pierre Bourdieu (1930-2002) e Jean Claude Passeron (1930-) verificaram, a partir de análises desenvolvidas na década de 1960 nas escolas francesas, que alunos com maiores probabilidades de êxito eram de escolarização e grande acesso a bens culturais, relacionada não a um dom inato (a inteligência, a escolarização de homens e mulheres no Brasil.

originários de famílias cujos membros tinham elevado nível Os autores constataram que a performance escolar está, pois curiosidade, a capacidade), mas à posse de capital cul­tural (ver Conceito Sociológico no final desta unidade).

Contudo, se radicalizássemos esse achado (o que os autores em questão não fazem), indivíduos pertencen­tes a classes mais pobres estariam sempre mais sujeitos ao fracasso escolar; ao passo que alunos de classes mais ricas teriam invariavelmente mais chances de seguir uma carreira escolar de sucesso. Nesse sentido, a escola não estaria permitindo a democratização das possibi­lidades de ascensão social (ver Conceitos sociológicos ao final desta unidade) através da instrução.

Por isso mesmo, desafios se impõem aos professores – e também aos alunos – para que a democratização escolar não seja apenas formal, mas efetiva.

Reclama-se hoje que a escola assuma o protagonismo no processo de inclusão social das camadas sociais mais pobres, oferecendo a elas o acesso a títulos e a qualificações, bem como a bens e serviços culturais que, de outro modo, lhe seriam negados. Nesse processo, estão contidos grandes dilemas que, no caso do Brasil, são muito debatidos. A reserva de cotas sociais e ra­ciais nas universidades públicas é um exemplo notável desses dilemas.

A escola pode reproduzir não apenas diferenciação de classe, mas também diferenciação entre sexos. Por outro lado, ela pode também, em determinados contextos, auxiliar a transformar as relações entre homens e mulheres. Um dado interessante é que no Brasil a escolarização das mulheres tem se elevado em relação à dos homens. Isso pode transformar, nos próximos anos, a situação dos sexos no mercado de trabalho. Segundo dados do IBGE de 2008, as mulheres no Brasil permanecem na escola por um período médio de 7,2 anos de estudos, ao passo que os homens têm uma escolarização média de 6,6 anos.

A explicação mais vulgar para o fenômeno de ascensão das mulheres na vida escolar sugere que meninas estão mais adaptadas às exigências da escola: são mais dedicadas, assíduas, disciplinadas e caprichosas. Meninos seriam indisciplinados e desorganizados. Logo, eles estariam mais facilmente vulneráveis ao fracasso escolar. Essa percepção fundamenta-se na ideia, baseada no senso comum, de que meninas são naturalmente submissas e obedientes, ao passo que os meninos são ousados e irresponsáveis. E que isso é positivo.

Estudos sociológicos procuram compreender e explicar esse fenômeno de maneira mais profunda. Eles consi­deram algumas hipóteses que podem fornecer uma explicação mais razoável, e menos estereotipada.

A primeira hipótese sociológica está relacionada a uma realidade muito comum nas classes populares: a ne­cessidade de ingressar cedo no mercado de trabalho. Dessa perspectiva, leva-se em conta que meninos abandonam mais precocemente a escola devido à necessidade de trabalhar. Essa resposta, porém, não satisfaz completamente os pesquisadores porque meninas da mesma classe social são também submetidas a jornadas extenuantes de trabalho informal e doméstico que poderiam resultar igualmente no abandono escolar.

Outra hipótese considera que, nas classes populares, as meninas têm uma visão mais positiva da escola do que os meninos. Para elas, a escola é espaço de ampliação da sociabilidade e de reconhecimento social, contras­tando radicalmente com os vínculos apenas domésticos e com a invisibilidade das tarefas cotidianas da casa. Ao contrário, para os meninos, o turno escolar é visto como algo muito negativo, pois os obriga a interromperem atividades de lazer como o jogo de futebol. Por esse motivo, talvez, meninos teriam uma visão mais desfavorável da vivência escolar, tornando-se mais indisciplinados.

Outra explicação que não pode ser desprezada é a de que meninas das mais diferentes classes sociais crêem que seu sucesso profissional exige uma trajetória escolar bastante exitosa e uma qualificação mais significativa, pois o mercado de trabalho seria muito mais exigente com as mulheres do que com os homens.

De toda forma, pode-se dizer que as mulheres das novas gerações terão melhor instrução escolar, e uma ins­trução mais extensa do que suas mães e avós tiveram.

Q escola, individualização e autonomia

Nas sociedades contemporâneas, a escola deve também favorecer o desenvolvimento da individualização (ver Conceitos sociológicos no final da unidade). Deve, pois, preparar os alunos para cultivarem habilidades diferentes, tais como: autonomia e autocontrole.

A individualização é um fenômeno típico de sociedades complexas, como a nossa. A integração na nossa sociedade está ligada à individualização porque sua estrutura ocupacional (empregos, posições no mercado e os diferentes tipos de reconhecimento daí derivados) depende do desenvolvimento da diferenciação e da indepen­dência dos agentes sociais.

Não há dúvida de que as disparidades de condutas, habilidades e experiências sempre existiram entre os indivíduos. Mas há sociedades que favorecem particularmente a diferenciação.

Na maioria das vezes, entendemos esse processo de individualização como algo natural, espontâneo. Porém, o ideal de realização individual e de diferenciação social nos é inculcado desde muito cedo.
Nas sociedades complexas, há mecanismos que estimulam esses processos de várias maneiras. Isso ocorre na família e nas práticas esportivas, por exemplo. A família elabora um sistema de diferenciação poderoso entre irmãos ao destacar e estimular características, habilidades e traços de personalidade distintos. Na escola não é diferente: lembremos que teorias pedagógicas e psicológicas contemporâneas enfatizam a autonomia, a criatividade e a expressão individual dos alunos desde crianças. A escola, em parceria com a família, põe-se a ajudar a constituir uma estrutura de personalidade para uma sociedade que preza a liberdade individual. Depois, devemos aprender a agir com autonomia e responsabilidade em relação às nossas escolhas, sejam elas bem-sucedidas ou frustradas.

Na vida contemporânea, há uma gama enorme de possibilidades e temos liberdade para elaborar nossas es­colhas com base em aptidões, desejos e propósitos pessoais. Quando crianças, essas possibilidades estão em sua maior parte ligadas à posição social de nossos pais.