Fatores da Mudança e da Reprodução Social


Desde Auguste Comte (França, 1798-1857), considerado o criador da Sociologia como atividade cien­tífica, pensadores sociais preocupam-se em explicar quais os fatores (isto é, as causas) que levam à mudança social. Tal preocupação confunde-se com a própria história da Sociologia porque essa ciência nasceu e se desenvolveu em um mundo em transformação, tendo sido, por isso mesmo, chamada de “narrativa do mundo moderno”3. Trabalhando com os processos de mudança, os clássicos identificaram não apenas os fatores que levam à transformação, mas também aqueles que a impedem, ou seja, os chamados fatores da “reprodução social”.

Kari Marx E O Fator Político: Revoltas, Revoluções E Superação Do Capitalismo

Conforme visto na unidade anterior, Marx definiu o capitalismo como um modo de produção contraditório. Segundo ele, a acumulação de capital, motor do capitalismo, necessitava apropriar-se, incessantemente, do exce­dente do trabalho humano (a chamada mais-valia). O salário pago seria sempre mantido em níveis os mais baixos possíveis, devido ao grande número de trabalhadores sem emprego (o chamado exército industrial de reserva). Esse quadro social produziria nos trabalhadores sentimentos de revolta, greves e movimentos de reivindicação por melhores salários e condições de trabalho, tal como vemos até os nossos dias.

Fatores da Mudança

Marx tomariam consciência também de fazer parte de uma classe, independentemente do país em que residissem ou trabalhassem. Daí a famosa convocação de Marx: “Trabalhadores de todos os países, uni-vos!”, presente no Manifesto comunista (1848). A percepção de que faziam parte de uma classe não serviria apenas para uni-los, mas também para mostrar que eles estavam em luta contra a classe dos patrões, a burguesia. Essa classe detinha não apenas o poder econômico – o capital -, mas também o controle do Estado, o poder político. As revoltas e greves serviriam assim para que os trabalhadores ultrapassassem a questão econômica – a exploração a que estavam submetidos nas fábricas – e com­preendessem a questão política.

Para melhor compreender a dimensão socioeconômica da vida política, faça uma pesquisa na sua cidade sobre os partidos políticos existentes. Pesquise entre seus familiares se, por ocasião de eleições, a escolha do candidato baseia-se em políticos ou em programas partidários.

CAPITALISMO E A ÉTICA PROTESTANTE

Analisando o desenvolvimento do capitalismo, Weber descobriu afinidades entre muitas das práticas profis­sionais nele adotadas e o comportamento de protestantes. Concluiu, então, que o interesse pelo trabalho deveria ter outra origem, talvez a ética religiosa, e não somente a avidez pelo lucro. Para chegar a esse entendimento, Weber compreendeu o capitalismo como uma “cultura moderna” (uma conduta de vida) e o denominou de “es­pírito do capitalismo” (ver Conceito sociológico no final desta unidade). Em seguida, ele definiu, com base no estudo das diversas religiões protestantes, o que denominou de “ética protestante” (ver Conceito sociológico no final da unidade). A base dessa ética era o estímulo ao trabalho duro, por meio do controle disciplinado e diário do próprio corpo. A essa prática rigorosa e cotidiana de controle chamou de “protestantismo ascético” (ver Conceito sociológico no final desta unidade). Afirmou enfim que, para os protestantes, esse controle do corpo para o trabalho seria a melhor forma de cumprir a vontade de Deus na Terra. De certo modo, estaria na religião, no compromisso com o trabalho diário, um importante fator de mudança social e de desenvolvimento do próprio capitalismo.

ÉMILE DURKHEIM E O FATOR SOCIAL! NORMAS E EDUCAÇÃO NA PRODUÇÃO/REPRODUÇÃO DA SOCIEDADE

Émile Durkheim conheceu de perto muitos dos conflitos que opuseram trabalhadores e patrões, especialmente na França de sua época, como estudado na unidade anterior. Sua geração viveu a derrota militar na Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), o que provocou a derrocada do Segundo Império Francês (1852–1870) e cedeu Lugar à Terceira República (1870-1940)6. Foi um grupo que ficou marcado pela necessidade de se reorganizar o Estado e a nação. Para isso, concentrou seu esforço teórico em demonstrar que somente um conjunto de valores e um conjunto de regras originários da vida social – que ele chamou de moral social e que comparou ao Direito – garantiria estabilidade social e política para todos os indivíduos. Para consolidar o respeito a esses novos valores e regras, propôs a organização de um sistema educacional laico, obrigatório para todos. Desde a infância, a escola deveria ensinar o respeito às instituições nacionais, como o Estado, para além mesmo dos valores domésticos.

Durkheim expôs muitas dessas ideias entre o final do século XIX e o início do século XX em diversos trabalhos, em particular no livro Educação e Sociologia (1922).

A educação teria como objetivo central a socialização (ver Conceitos sociológicos no final desta unidade) das novas gera­ções, transformando-as em seres sociais aptos a desempenharem os papéis que a sociedade lhes destinaria no futuro. Esses jovens aprenderiam, assim, não apenas conteúdos escolares, mas, sobretudo, a respeitar uma disciplina moral e a se submeter à autoridade política. Uma vez que o sistema de ensino alcançasse a todos, a educação seria um poderoso fator de manutenção da sociedade, produzindo-a e reproduzindo-a continuamente.

A preocupação de Durkheim, contudo, não era apenas conservar ou manter, mas, sim, criar as condições para que a sociedade se reproduzisse de maneira relativamente harmônica, poupando-a dos conflitos que ameaçavam sua existência. Para isso, o respeito às regras, aprendido dentro do ambiente escolar, seria uma importante ferramenta. Funcionaria, por exemplo, como um freio aos atos de delinquência. Por outro lado, é certo que, por meio da universalização da educação, as sociedades seriam captadas tecnicamente e se desenvolveriam economicamente. A educação, principalmente dos jovens, seria, assim, um importante fator de mudança social e de progresso.

Em resumo, mesmo reconhecendo os limites da visão de Durkheim sobre os processos de mudança social, seus escritos sobre educação continuam valiosos instrumentos para se pensar o cotidiano de nossas sociedades e para o exercício da cidadania.

CONCEITO SOCIOLÓGICO

Espírito do capitalismo: segundo Weber, esse conceito dizia respeito exclusivamente ao capitalismo de sua pró­pria época. Era o que ele chamava de “conceito histórico”. Apesar de outros períodos históricos terem conhecido o interesse pelo lucro e pelos ganhos comerciais, somente o mundo moderno submeteu suas práticas comerciais à vocação profissional. Eis por que Weber também entendeu o “espírito” do capitalismo como a expressão de valores (ethos profissional), definindo-o em termos culturais (a “moderna cultura do capitalismo”) e não apenas económicos. Por exemplo: a crença (cultural) de que o trabalho profissional é o que dá sentido à vida.

Ética protestante: segundo Weber, era o conjunto de princípios morais de conduta e juízos de valor que caracte­rizaria o comportamento e a visão de mundo dos indivíduos adeptos do protestantismo. Por exemplo: o trabalho árduo e metódico.

Proletariado: segundo Marx, era a classe social obrigada a vender sua força de trabalho para sobreviver na socie­dade capitalista.

Protestantismo ascético: conjunto de atos de controle austero e disciplinado do próprio corpo por meio do tra­balho diário e metódico. Segundo Weber, era a melhor forma de cumprir, no meio do mundo, a vontade de Deus e de realização do dever religioso.

Revolução: Marx utilizava esse termo para se referir à tomada do poder pela classe operária que destruiria o capi­talismo.

Socialização: segundo Durkheim, era o processo pelo qual as gerações mais velhas ensinavam às mais jovens os códigos e valores sociais de uma determinada sociedade. Em muitos manuais de Sociologia, está descrita apenas como”processo que ensina e transmite valores sociais aos indivíduos”.