Gilberto Freyre e as raízes ibéricas da cultura brasileira


Há um autor que se destaca no conjunto dos intérpretes do Brasil por apostar e valorizar justamente a tra­dição de nossas raízes ibéricas, diferente, por exemplo, da atitude de Sérgio Buarque de Holanda: trata-se do pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987).

Em Caso grande & senzala, escrito em 1933 e que logo se tornou uma referência clássica do pensamento so­cial, sendo inclusive traduzido para diversos idiomas, Gilberto Freyre fez uma longa reflexão sobre a influência da mestiçagem, o papel das culturas e etnias e o valor do patriarcalismo na formação da sociedade brasileira, desde os primeiros anos de colonização. Diferentemente de muitos autores que o antecederam, fez duas importantes inversões de ótica: ao invés da raça ou da biologia para caracterizar os comportamentos sociais, pensou-os a partir da cultura; em vez de pensar o Estado como o núcleo da nacionalidade, ele pensou a sociedade.

Gilberto Freyre

Em relação à questão racial e à mestiçagem, que muitos autores, em particular Oliveira Viana, percebiam como obstáculo ao progresso, Gilberto Freyre a interpretou de forma extremamente positiva: os escravos negros teriam sido, na verdade, introdutores de padrões culturais até mais elevados do que os recebidos por nós pelos indígenas e mesmo por europeus. Ou seja, para Freyre, o negro foi um agente colonizador ao lado do português. Assim, ao rejeitar o debate em torno do determinismo biológico e ao enfatizar a dimensão cultural, o autor conseguiu neutralizar a imagem negativa que parte da intelectualidade tinha em relação à nossa herança étnica e cultural. Mas, será que essa afirmação desmentia, efetivamente, a ideia de culturas superiores e inferiores? Melhor dizendo, a atitude intelectual de Freyre foi realmente antirracista?

Aí é que está! Freyre foi bastante ambíguo em relação a essa questão, pois tinha como pressuposto a ideia de raça histórica, isto é, a ideia de que os grupos étnicos se adaptavam a diferentes espaços e culturas e, ao se aclimatarem, transmitiam aos herdeiros os caracteres adquiridos. Assim foi o caso dos colonizadores portugueses no Brasil: em pouco mais de um século longe da Península Ibérica, já eram “quase outra raça”. Além disso, Freyre supôs, para explicar o Brasil, outra espécie de hierarquia, não mais racial, mas cultural. Os povos seriam inferiores ou superiores em função da complexidade de sua cultura.

Gilberto Freyre também reinterpretou o papel da eugenia no melhoramento da sociedade brasileira. A participação do escravo negro, sobretudo das mulheres escravas no espaço doméstico das casas-grandes, tornou possível a seleção dos melhores indivíduos, isto é, daqueles melhor preparados entre os escravos para a ocupação de funções que, ainda que subalternas em relação aos membros da família senhorial, eram superiores às que o restante dos trabalhadores compulsórios da lavoura eram obrigados a exercer. Em outras palavras, o patriarcalismo que predominou no Brasil não distanciou negros e brancos mas, ao contrário, promoveu uma aproximação que, em outras sociedades es­cravistas, não ocorreu. Tanto nosso patriarcalismo, quanto a própria escravidão teriam sido, segundo Gilberto Freyre, mais brandos, menos violentos, e nisso estaria a singularidade da cultura brasileira: uma sociedade sem preconceito racial.

A brandura do regime escravocrata só foi possível em fun­ção da ação da família senhorial em contemporizar dominantes e dominados, brancos e não brancos, reduzindo as distâncias entre a casa grande e a senzala. Assim, a história da formação do povo brasileiro seria a história da própria família patriarcal que, responsável pelo clima edulcorado do regime escravo, teria permitido a miscigenação em larga escala, criando zonas de confraternização entre vencedores e vencidos.

A menção ao equilíbrio entre esses extremos (sociais, culturais, económicos) pode ser lida aqui como a evidência de uma cultura política da conciliação: ela seria expressão da competência da família senhorial em não permitir que momen­tos de crise desembocassem em rupturas sociais profundas.

Se tal visão extremamente positiva da colonização foi possível, como imaginar, portanto, o processo de modernização sofrido pela sociedade? Em outras palavras, será que a visão de Gilberto Freyre sobre esse processo foi igualmente positiva?

Na verdade, não. Para Freyre, a Abolição da Escravatura, a República, a urbanização, o progresso, o desenvolvi­mento, etc, significaram tão somente a decadência dos valores patriarcais e não significaram maior equilíbrio social.
Pelo contrário, aumentaram as distâncias físicas e morais entre ricos e pobres, brancos e não brancos. Por exemplo, em Sobrados e mucambos, escrito em 1936 como continuação de Coso grande & senzala, o sinal de separação aparece já no título do próprio livro. Repare que, enquanto a integração predominou entre a senzala e a casa-grande, expressa no símbolo “&”, a relação entre os opulentos sobrados nordestinos (representantes da transformação urbana por que passaram a economia e a família tradicionais) e os mucambos desaparece, no novo mundo. Ou seja, no mundo pós–escravista, desfaz-se a integração que havia entre os senhores de en­genho “&” as camadas subalternas. A letra “e”, presente no título de Sobrados e mucambos, diferentemente do símbolo “&”, utilizando anterior­mente em Coso grande & senzala, significa, na realidade, uma distenda, um afastamento.