Representações da Modernidade no Brasil


Pode-se dizer que a reflexão sociológica no Brasil sempre se preocupou com a natureza, o sentido e os des­dobramentos da modernização. O pensamento social do século XIX e o ensaísmo dos primeiros intérpretes do Brasil já se mostravam completamente absorvidos por essa dimensão. E por que, afinal de contas, a preocupação com a modernização mobilizou nesse país tantos intelectuais? O tema da modernização ganha contornos dramáticos no Brasil à medida que, diferentemente dos Estados-Nações europeus que se constituíram no decurso de séculos, nosso processo de independência política demandava a construção de um Estado e de uma nação como forma de legitimação e soberania, e isso num curto espaço de tempo. Além disso, a ausência de um efetivo processo revolucionário tornou ainda mais problemática a nossa experiência de modernização. No texto deste material, abordaremos algumas dimensões do complexo tema da nossa modernização, de forma que se possa compreender sociologicamente seus distintos significados.

Modernidade no Brasil

Intenso processo de transformação

Visualize o Brasil em 1850, na metade do século XIX. Tente imaginar como viviam as pessoas daquele tempo. Em 1850, por exemplo, ainda não havia sequer dados confiáveis sobre a popula­ção, pois o primeiro recenseamento geral do Brasil foi feito em 1872: naquele ano, o país tinha 9 930 478 habitantes. Crescemos a uma taxa média de 2,91% ao ano a partir de 1900, até chegarmos a 169 milhões de habitantes em 2000. Até 1960, a maior parte da população vivia no campo (64% em 1950, 55% em 1960). Somente em 1970, a população urbana superou a rural (56% viviam nas cidades, contra 44% no campo), até atingirmos a marca de 81% da população urbana em 2000. Se a população sofreu tamanha mudança, o mesmo pode ser dito a respeito do processo mais amplo de modernização capitalista. Deixamos de ser uma economia exclusivamente agrária há muito tempo e instauramos um parque industrial moderno e competitivo. Contudo, apesar de avanços consideráveis do ponto de vista económico, sobrevivem padrões de desigualdade que, em determinadas regiões do país, mais se assemelham ao período escravista.

Em resumo, um país que sofreu tamanha modificação social, cultural e económica, no decorrer de pouco mais de um século, torna difícil qualquer comparação com outros países, mas não impossível. Voltemos ao exercício proposto no início do texto e imaginemos a sociedade brasileira do século XIX. Feita esta ambientação, como entender o nosso processo de modernização?

A intenção desta unidade é justamente refletir sobre isso tudo de maneira sociológica. Ou seja, é por meio da análise de formas discursivas, representações da realidade social e formulações ideológicas, feitas por intelectuais, políticos, escritores, cientistas sociais, etc., que entenderemos o processo de modernização do Brasil. Ou seja, o que faremos não é tanto analisar o processo de modernização em si mesmo, mas como ele foi pensado, valorizado ou criticado, analisado sociologicamente ou enaltecido sem muita crítica. É que, em cada época histórica, os indivíduos elaboram um conjunto de representações (ideias, valores, conceitos) que lhes fornecem um mapa cognitivo mais ou menos coerente a respeito do seu momento presente. Assim, o que nós, que vivemos no século XXI, pensamos a respeito do século XIX, não é a mesma coisa que a experiência vivida, real naquele período. É preciso, então, procurar compreender – sociologicamen­te – como foram concebidas, em cada momento histórico, as representações sociais. Por meio delas, as pessoas liam o mundo, identificavam-se e reproduziam, no terreno mental, a realidade social.

Representações da identidade nacional

Entender o processo de modernização, no Brasil, requer uma reflexão sobre passado, presente e futuro, isto é, o que nós teríamos sido no passado e o que viremos a ser no futuro. Como estamos falando de mudança social intensa e ruptura com os modelos de desenvolvimento, é preciso que se pergunte, antes de tudo: mudança em relação a quê? É necessário, para encaminharmos uma resposta, discutirmos a noção de identidade nacional (ver Conceito sociológico no final da unidade).

Em outras palavras, colocando o mesmo problema, agora em uma linguagem e em uma perspectiva mais adequada: quais foram as distintas representações produzidas sobre identidade nacional brasileira? A questão faz todo sentido, já que diferentes imagens, ideias, juízos e conceitos do que era e de como deveria ser o Brasil foram sendo concebidos com o processo de modernização e desenvolvimento nacional. Esse é o tema da questão nacional.

O fascínio pela chamada questão nacional é algo que perpassa a história do pensamento social brasileiro. Sobre­tudo em épocas de crise, a questão nacional tem mobilizado diversos intelectuais que se voltam para tentar repensar a nação, esboçar-lhe um sentido, dar-lhe alguma coerência. Sobre os intelectuais, é preciso dizer algumas palavras.

Embora constituam uma categoria bem visível em nossa sociedade, nem sempre é fácil estabelecer seus limites – quem é intelectual – ou suas funções efetivas – e o que fazem os intelectuais. A própria categoria “intelectual” tem origem recente, no final do século XIX, na França.

Algumas representações têm sido mais vigorosas, mais frequentes ou dominantes, como o motivo idêntico, isto é, a visão paradisíaca do Brasil.

Essa visão, presente pelo menos desde a carta do escrivão português Pêro Vaz de Caminha (Portugal, 1450-índia, 1500), foi expressa de modo exemplar pelo historiador Sebastião da Rocha Pita (Salvador, 1660–1738), em História da América Portuguesa, publicado em 1730.

Entretanto, ao lado dessas representações, houve também, no decorrer do tempo, diversas outras, e que eram correspondentes a momentos distintos do nosso processo de formação social.
No decorrer desta unidade, focaremos as representações voltadas para o debate sobre a modernização e o desen­volvimento, analisando autores que refletiram sobre o destino do país, sobre as relações entre cidade e campo, assim como sobre o papel do Estado nesse processo.

Questões, como Sertão versus litoral, ordem e progresso, civilização versus barbárie, foram pares de oposição usados por diversos autores em um sem-número de ensaios histórico-sociológicos, manuais de Sociologia, romances, poemas, roteiros de filmes, etc. Podemos dizer que essas formas de imaginação histórica, sociológica, literária e cinematográfica sobre a identidade do país foram discursos que tiveram por objetivo estabelecer o que era, bem como o que deveria ser, a nação brasileira.