Socialismo, Valores e Sistema Social para Marx e Engels


No decorrer do século XIX, várias correntes socialistas se organizaram politicamente em diversos países europeus (Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica, etc.). Elas pretendiam ser uma resposta ao mesmo tempo teórica e prática aos conflitos que opunham patrões e empregados tanto nas indústrias quanto nas minas de carvão, tanto em pequenas quanto em grandes cidades. O “socialismo” que inspirou a maior parte das revoltas no século XIX é na realidade um conjunto heterogêneo de doutrinas sociais. Na maior parte do tempo, ele funcionou simplesmente como um guia, um norte para a ação coletiva. Essas ações pregavam ora a ruptura com a ordem estabelecida, ora medidas de reforma social ou política, como a implantação do sufrágio universal. Marx e Engels12, em seus trabalhos, denominaram a maior parte dos criadores das doutrinas socialistas exis­tentes no século XIX de socialistas utópicos. Em oposição aos socialismos utópicos, eles cunharam a expressão socialismo científico, que marcou profundamente todas as ciências sociais (ver Leitura sociológica a seguir). Weber e Durkheim, cada um à sua maneira, contestaram e procuraram superar a posição de Marx e Engels, não apenas sobre o modo de entender e explicar a sociedade capitalista, mas também sobre o desenvolvimento histórico que os socialistas científicos imaginaram para os países europeus na segunda metade do século XIX. Por isso, as concepções de socialismo, como sistema social (isto é, como uma forma de governo e um sistema econômico), e sua dimensão especificamente cultural (a questão dos valores humanos) variaram bastante em cada um dos clássicos trabalhados neste material.

Marx e Engels

É preciso ficar claro enfim que, em relação a esse tema, não estavam em jogo apenas definições teóricas ou questões puramente conceituais, mas sobretudo o futuro – político e econômico – de todos os países que integra­vam consolidando o sistema capitalista e mesmo daqueles periféricos que lentamente seriam envolvidos por ele.

Tanto Marx e Engels, como Weber e Durkheim, se impuseram a tarefa de pensar essa ideologia política – o socialismo – e a perspectiva histórica que se abria com sua possível vitória sobre o capitalismo, em especial na Europa, na passagem do século XIX para o século XX. Quais são, basicamente, as diferenças entre esses sistemas de pensamento diante do “socialismo”?

O SOCIALISMO SEGUNDO MARX E ENGELS

Segundo Marx e Engels, o socialismo seria a primeira fase após o desmoronamen­to do capitalismo. Isso era inevitável, uma questão de tempo. As contradições do capitalismo (tendência geral à queda na taxa de lucro, mecanização da produção13, pobreza dos trabalhadores e consequente luta de classes) já estavam em curso e levariam àquela primeira fase (acima citada) em que seriam socializados os meios de produção (a terra e as máquinas antes concentradas nas mãos das classes dominantes) e em que o poder do Estado seria enfraquecido. Chamaram essa fase de “socialismo”.

Na fase “socialista”, persistiriam ainda as classes sociais, trabalhadores e em­presários. Cada um continuaria a receber um salário de acordo com sua produção. O importante é que, pela primeira vez na história, os meios de produção estariam a serviço daqueles que produziam: os trabalhadores. Por isso, Marx e Engels afir­mavam que, com o socialismo, seria inaugurada a Ditadura do proletariado (ver Conceito sociológico no final desta unidade).

Para alcançar o socialismo, para socializar os meios de produção, os trabalhadores não teriam tarefa fácil. Só uma solução seria possível: a revolução. Esse foi o motivo pelo qual tanto Marx quanto Engels se envolveram diretamente com os trabalhadores, participando ativamente da organização de suas associações, como foi o caso da reunião da Primeira Associação Internacional Socialista.
Deve-se compreender assim que, para os dois, o socia­lismo não era apenas um sistema social como os outros, mas a única possibilidade que os trabalhadores tinham para se libertar da exploração e da alienação (ver Conceito socioló­gico no final desta unidade) a que estavam submetidos no capitalismo. Era a possibilidade de sua emancipação (ver Conceito sociológico no final desta unidade). E essa emanci­pação libertaria também os empresários da busca desenfreada pelo lucro (hoje em dia, chamamos isso de concorrência) a que estavam submetidos para prosperar nos negócios.

O socialismo era, enfim, uma etapa de um processo que havia começado, em termos gerais, com a Revolução Industrial, e cujo final seria o comunismo14, concebido como um modo de produção em que estariam abolidos a propriedade privada dos meios de produção, as classes sociais e o Estado. Um sis­tema que libertaria tanto empresários quanto trabalhadores, implantando a igualdade entre os indivíduos e permitindo a humanização das relações sociais.