Trabalho Livre e Estratificação Social


O CIDADÃO MA PASSAGEM DO FEUDALISMO AO CAPITALISMO

Sabemos que a emergência do cidadão livre ocorreu lentamente na Europa, entre os séculos XVII e XIX. Mas permitiu aos indivíduos se libertarem amarras do modo de produção feudal? De início, fator “trabalho” teve um papel decisivo. Nesta unidade responderemos à seguinte pergun­ta: quais foram as condições históricas e os processos sociais que permitiram, na Europa Ocidental, o surgimento de um novo personagem – o indivíduo livre -que revolucionou as relações sociais?

Segundo o economista inglês e professor da Universidade de Cambridge Maurice Dobb (1900-1976), o feudalismo se caracterizou pela conjunção entre servidão e exploração do produtor direto (os camponeses) em uma relação de dependência com seu senhor (ver Leitura sociológica a seguir).

Estratificação Social

Definição de feudalismo

A ênfase dessa definição [de feudalismo] estará baseada não na relação jurídica entre vassalo e suserano, nem na relação entre produção e destinação do produto, mas na relação entre o produtor direto (seja ele artesão em alguma oficina ou camponês cultivador de terra) e seu superior imediato, ou senhor, e no teor socioeconômico da obrigação que os liga entre si.

O cidadão livre, sobre o qual falamos, rompeu com a “obrigação” devida ao senhor feudal (a talha, a corveia, as banalidades e toda uma série de tributos), conquistou direitos e mobilidade social, anunciando lentamente o fim do feudalismo. O capitalismo se beneficiou dessas mudanças e foi-se impondo com pequenas variações em cada país europeu. Em termos gerais, entre os séculos XVII e XIX, o indivíduo passou a ser livre não apenas em termos econômicos, mas igualmente em termos políticos e sociais, embora o conceito de liberdade apresentasse significados diferentes em cada país ou região.

O CIDADÃO E OS ESTRATOS SOCIAIS SEGUNDO OS CLÁSSICOS

A velocidade com que o sistema capitalista se expandiu nos mais diversos países europeus (tendo alcançado hoje quase todo o mundo) foi fruto e consequência de características que ultrapassaram os limites da economia ou da busca do lucro. Fatores políticos e culturais e situações históricas particulares também explicam a grande diferença que percebemos hoje nos direitos e deveres dos cidadãos. O mercado livre é, porém, o denominador comum que sustenta as relações entre os indivíduos, colocando-os sempre diante do dilema entre a liberdade civil e a sobrevivência. São as diferentes opções que os indivíduos tomaram ou foram forçados a tomar – as profissões escolhidas e/ou os lugares para onde (cidades ou países) migraram – que explicam a estratificação social (ver Conceito sociológico no final da unidade).

Os clássicos da Sociologia trabalhados aqui – Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim – procuraram explicar não só como os indivíduos passaram a se relacionar com o mercado – com a necessidade de trabalhar -, mas também como foram classificados em termos de sua posição na estrutura social.

Karl Marx (Alemanha, 1808 – Inglaterra, 1883)

Marx mostrou que o lento processo de formação de classes na sociedade capitalista libertava o indivíduo das amarras da sociedade feudal. Mas, ao mesmo tempo que falava da libertação da “idiotia da vida rural” (que ocorria quando os camponeses migravam para as cidades), falava também das péssimas condições de trabalho nas cidades (longas jornadas em espaços insalubres sem descanso
semanal e outros direitos trabalhistas).

Friedrich Engels (Alemanha, 1821 – Inglaterra, 1898), parceiro intelectual de Marx, descreveu com rea­lismo as moradias modestas que os operários ocupavam nos arredores poluídos de Manchester, uma das principais cidades industriais na Inglaterra de então.

Essa contradição foi denominada de luta de classes (ver Conceito sociológico no final desta unidade). Sua origem era o lucro ou mais-valia (ver Conceito sociológico no final desta unidade) que era transferido dos trabalhadores aos capitalistas durante sua jornada de trabalho. Contudo, em termos históricos concretos, Marx percebeu que seu esquema de três classes (grandes proprietários rurais, burgueses e operários) não correspondia perfeitamente às realidades sociais da Europa de sua época. Assim, ele falou em frações da grande burguesia, em setores da pequena burguesia, na classe dos pequenos proprietários, etc. Ele diferenciou ainda a classe camponesa (rural) da classe operária (urbana). O fundamental, contudo, era que esses grupos acabariam por se definir em relação à posição que ocupavam no modo de produção capitalista: compradores ou vendedores de força de trabalho.