A produção do real a partir do pensado


A produção do real

A produção do real a partir do pensado

Ao encarar o desafio de descrever o ser humano enquanto individualidade, temos o retrato de um ser capaz de mudar a própria realidade externa, característica única entre as demais formas de vida do Planeta.

Teremos que se trata de uma forma de vida que vive em sociedade, em condições mais ou menos conflituosas. Se trouxermos a análise para o século XXI, temos no elemento humano essencialmente aquele que trabalha e produz para consumir.

Trata-se de uma espécie que cria, desenvolve, recria e aperfeiçoa para o próprio conforto. Porém, quando analisamos a sociedade humana contemporânea, percebemos que o traço mais marcante é o indivíduo, não enquanto formulação plena, ciente de seu papel no mundo e na sociedade, mas um ente condicionado por direitos e obrigações.

Temos que a individualidade se confunde com individualismo e essa característica é um dos pilares que sustenta o real. Marx prescreve uma forma de análise que parte do real para o complexo universo das abstrações que habitam e lhe dão forma. É desse mergulho nas diversas formulações, relações e peculiaridades, um desafio ao pensamento e à capacidade de construir teses, que emerge o real sob uma nova perspectiva, como fruto da análise e do pensamento.

O real puramente concreto, puramente descritivo, difere do real como fruto da análise e do pensamento, tendo consideradas as abstrações que lhe dão sustentação. É como mergulhar no universo do corpo humano e perceber o conjunto de interações que explicam como funciona a cognição, a estrutura biomecânica, o sem número de vidas que habitam o interior do corpo.

O pensamento recorrente das sociedades é de que o presente supera o passado enquanto percepção de passo adiante e evolutivo, mas nessa análise está ausente a consideração da natureza humana, dos mais diversos vetores que movem a sociedade, em oposições regulares entre o egoismo e a solidariedade, a ganância e a generosidade, a indiferença e o amor. São traços presentes em todas as épocas e sociedades, que moveram e movem a espécie em uma ou outra direção.

Ideias como propriedade, direito, trabalho e justiça são fruto da complexidade das abstrações e do pensamento, das relações históricas e das tradições. Se determinada condição é justa, isso não se conclui com base nas tradições e na explicação fronteiriça da realidade. É preciso compreender o pensamento que construiu esse real, que só é enquanto produto desse e não de outro pensamento.

Exemplificando, o trabalho é o meio de subsistência, ascensão a categorias superiores de consumo e bem estar, ou é a expressão mais cara e honesta da individualidade humana, um processo que leva à auto-realização? Se o pensamento liberal coloca o indivíduo acima do ser social, como explicar que a entrega seja tão distante do que foi prometido? Como explicar que o indivíduo seja parte de uma engrenagem, instado a buscar o conhecimento que reflita em produtividade e se converta em diferencial competitivo, não em enriquecimento interior e insumo intelectual para se posicionar diante das inúmeras perguntas colocadas pela complexidade das relações humanas?

Reconhecer que o real é produzido a partir do pensado, que reproduz e dá vida a um complexo sistema, que só pode ser compreendido com a viagem ao interior das formulações que lhe dão sustentação, mas também das diversas interações não interpretadas ou desprezadas enquanto fator de produção da realidade, é a forma de dominar os mecanismos que levam à reconstrução da nova realidade.