Bases para uma Filosofia Cristã


A Bíblia, livro sagrado dos cristãos, constitui, na verda­de, a junção de duas coletâneas de livros, denominadas Antigo e Novo Testamento. O último é formado por evan­gelhos (textos dos apóstolos que tratam da boa nova, re­presentada pelo nascimento do salvador da humanidade e seus ensinamentos) e epístolas (cartas voltadas à orientação das primeiras igrejas sobre os princípios evangélicos).
Entre os acontecimentos marcantes da Antiguidade, encontramos o surgimento e a dis­seminação do cristianismo em diversos territórios, inclusive gregos, nos quais se formaram as primeiras igrejas. A partir da metade do século I, a nova doutrina passou a ser registrada em escritos que precisaram ser reunidos, selecionados e interpretados – esse trabalho resultou, por exemplo, na organização atual do Novo Testamento bíblico. Porém, devido às constantes perseguições, à variedade dos textos (muitos considerados inautênticos) e às divergências nas suas interpretações, a defesa do cristianismo em relação às críticas dos seus adversários ganhou importância cada vez maior. Além disso, no século III, manifestou-se a preocupação de buscar argumentos filosóficos para defender a nova religião e até para favorecer a conversão de homens cultos, adeptos à Filosofia. Nesse intento, os defensores do cristianismo também se dedicaram ao estudo do pensamento grego, a fim de conciliá-lo com a revelação cristã. Esse movimento recebeu a designação de Patrística, uma vez que foi empreendido pelos padres da Igreja.

A Filosofia tratava de áreas do pensamento, como a Lógica e outras, ligadas ao desenvolvimento da razão. A Teologia consistia na interpretação das teses bíblicas e dos fundamentos da doutrina cristã.

Filosofia Cristã

Ele teve seu auge entre os séculos IV e V, após o Edito de Milão, promulgado pelo im­perador Constantino, em 313, concedendo liberdade de culto aos cristãos. Isso não apenas favoreceu a atuação religiosa das Igrejas, como também a sistematização das ideias dessa instituição eclesiástica, fundamentando o que alguns estudiosos viriam a designar Filosofia Cristã. Durante esse processo, os padres se reuni­ram em Concílios, debatendo e analisando cuidadosamente alguns conceitos fundamentais para o cristianismo, e que eram estranhos à Filosofia grega, tais como: Trindade, criacionismo, graça e ressurreição, entre outros. Além disso, buscaram relações possíveis entre os novos ensinamentos, – especialmente com base no Evangelho de João e nas Epístolas de Paulo do Novo Testamento – e as teorias gregas – especialmente a platónica (ou melhor, neoplatônica). Vale lembrar que, paralelamente, se desenvolviam algumas escolas filosóficas de inspiração helenista, designadas como escolas pagãs. Elas só seriam fechadas no século VI, por ordem do Imperador Justiniano – em 529. Nesse mesmo período, foram organizadas escolas de orientação cristã nas igrejas, monastérios e palácios europeus.

A Patrística estendeu-se até o século VIII, orientando a formação da Filosofia e da Teologia medievais. Utilizou-se o termo Escolástica para nomear a forma de ensino desses dois saberes, nas escolas que se formaram entre os séculos VI e XIV, bem como nas universidades que surgiram no século XIII. Além disso, o termo “Escolástica” também foi utilizado para designar o pensamento filosófico produzido na Europa entre os séculos IX e XIV.

Neoplatonismo e Patrística

Essa frase é atribuída a Tertuliano, « autor do século II, que defendeu o cristianismo em polêmicas com a Filosofia. Ela se refere ao caráter transcendente da revelação cristã, que deveria ser abraçada por meio da fé e não explicada pela imperfeita razão humana. Essa visão baseava-se na afirmação de que a verdade viera para os simples e humildes e não para os sábios e arrogantes. Ela estava presente em alguns trechos do evangelho (a boa nova correspondente ao conteúdo do Novo Testamento bíblico). ‘

O maior representante da vertente latina da Patrística foi Aurélio Agostinho, considerado santo pela Igreja Católica e um grande marco para o pensamento ocidental. Ele nasceu em Tagaste, território da África pertencente ao Império Romano. Viveu entre os anos 350 e 430 da nossa era. Não dominou a língua grega, estudando o pensamento dos filósofos de origem grega por meio de traduções de algumas de suas obras ou de comentários escritos sobre elas em latim.

A vida desse homem foi marcada por duas fases bem distintas: a juventude, na qual buscou avidamente os prazeres do mundo; e a maturidade, na qual se dedicou inteiramente a compreender a revelação cristã. O que determinou essa mudança foi a sua conversão religiosa, aos trinta e dois anos de idade. A partir de então, Agostinho dedicou-se à Igreja – chegando a se tornar bispo da cidade de Hipona – e procurou estabelecer uma Filosofia Cristã que conciliasse a f é e a razão, abandonando o princípio “creio porque é absurdo”, em defesa da necessidade de “compreender para crer e crer para compreender”.

Em inúmeros escritos, abordou diferentes temas fi­losóficos, entre eles o conhecimento. Sua obra procurou responder às teses do ceticismo, representado pelos acadêmicos, em defesa da possibilidade do conhecimento, sob a garantia divina. Ela recebeu alguma influência do Maniqueísmo, doutrina persa que Agostinho conhecera antes da conversão e que afirmava a existência de duas forças contrárias movendo o Universo: o Bem e o Mal. Uma vez convertido, ele passou a ver o mal como a mera ausência do bem, e este último, como o principal atributo de Deus, o criador do Universo e responsável pela sua dinâmica. No entanto, percebe-se em seus escritos a marca de certo dualismo, que opõe o bem e o mal, o conhecimento e a ignorância, o corpo e a alma, as trevas e a luz.
Outra influência importante sobre a obra de Agos­tinho corresponde ao neoplatonismo de Plotino. Este, porém, foi cristianizado pelo novo filósofo, que sobrepôs a figura do Deus cristão à figura do Uno mencionada por Plotino. Assim, defendeu a tese de que todos os seres e objetos sensíveis corresponderiam a ideias (formas ou razões) presentes no intelecto divino. Deus seria, portanto, a garantia da verdade e da possibilidade do conhecimento.

Aquele que conhece, o sujeito do ato de conhecer.

Ao defender o ciclo “compreender para crer e crer para compreender”, Agostinho afirmava a possibilidade de filosofar na fé. Ele tomava como base para essa defesa um versículo do livro de Isaías, do Antigo Testamento: “Se não tiverdes fé, não podereis entender”. Ao interpretá-lo, julgou que a fé apresentava a verdade ao homem e a razão procurava esclarecê-la.

Quando se referisse aos objetos sensí­veis, exteriores ao sujeito cognoscente, o conhecimento seria instável. Esses objetos agiriam sobre o corpo, modificando-o. Tais modificações seriam percebidas pela alma, que, mesmo sem nada sofrer, produziria imagens semelhantes àqueles objetos. Tais imagens cor­responderiam às sensações. Portanto, em relação a elas, o corpo seria passivo, e a alma, ativa.

Por outro lado, o conhecimento seria verdadeiro e estável quando se referisse a realidades não sensíveis, consideradas eternas e imutáveis, como as regras da Matemática ou os princípios éticos. Por exemplo: 2 + 3 = 5, o triângulo é uma figura de três lados e três ângulos, devemos fazer o bem e evitar o mal.

Segundo Agostinho, a primeira forma de conhecimento, limitada aos sentidos, não alcançaria a verdade, mas a segunda, sim. Portanto, a verdade não poderia fundamentar-se no homem, um ser mutável e imperfeito como os objetos sensíveis. Precisaria de um fundamento perfeito e transcendente, que o filósofo encontrava na figura de Deus.

Mas, sendo imperfeito e limitado, como poderia o homem alcançar o conhecimento perfeito da verdade? Para responder a essa questão, ele desenvolveu a Teoria da Iluminação Divina, em que a alma humana trazia em si o conhecimento da verdade, porém necessitava da luz divina para torná-la inteligível.

Sendo assim, o conhecimento verdadeiro seria o resultado da iluminação divina que permitiria ao homem a contemplação das ideias ou formas que fundamentavam a realidade criada por Deus com base nelas. Portanto, a Teoria do Conhecimento de Agostinho preocupava-se principalmente em oferecer provas racionais da existência de Deus, o fundamento de toda a verdade. Além disso, previa a possibilidade da experiência mística, na qual o homem contemplaria não só as ideias iluminadas pela luz divina, mas essa própria luz, atingindo uma compreensão de Deus que transcenderia as possibilidades do pensamento e da linguagem humanas.