O Criticismo e a Fenomenologia


Comparando as teses de racionalistas e empiristas sobre o conhecimento, veremos que eles concordavam, pelo menos, em dois pontos:

* a existência do sujeito conhecedor e do objeto conhecido – respectivamente, a mente (ou razão) e o mundo (ou realidade);
* a noção de conhecimento como apreensão do objeto pelo sujeito.

No entanto, veremos também que eles discordavam quanto à prioridade do sujeito ou do objeto – isto é, da razão ou das impressões sensíveis – para realizar tal apreensão. Ainda assim, ambos mantinham a realidade conhecida no centro, como algo pronto, que o homem deveria apreender. A questão que os movia era a de en­contrar o método mais adequado para garantir essa apreensão do objeto do conhecimento.

Fenomenologia

No século XVIII, Kant identificou pontos válidos e questionáveis em ambos, afirmando que o conhecimento se adquire pela experiência e pela razão. Essa conciliação, porém, tornou-se uma revolução na abordagem do conhecimento, pois Kant trouxe o homem, que conhece, para o centro, mostrando que só “apreendemos” o que podemos perceber e do modo como podemos percebê-lo. A realidade não é assimilada pelo homem e sempre guarda mistérios, pois a mente participa de sua construção no ato de tentar conhecê-la. Sendo assim, a questão que movia o pensamento kantiano era a de avaliar a possibilidade do conhecimento pelo sujeito.

Segundo o pensamento kantiano, a realidade não é assimilada pelo homem e sempre guarda mistérios. Percebe-se aí a influência de Hume, que ressaltava os limites do conhecimento humano contra o dogmatismo de acreditar que ele apreende plenamente a realidade. Ao refletir sobre essa tese, Kant concluiu que só conhecemos fenômenos, ou seja, a realidade como que “filtrada” pelas estruturas da nossa consciência.

A conclusão de Kant foi a de que não conhecemos as coisas “em si”, apenas fenômenos, ou seja, as coisas tais como aparecem “para nós”. Além disso, ao contrário de Hume, ele acreditava na lei da causalidade, mas dizia que ela, assim como o espaço e o tempo, não está nas coisas e, sim, na própria mente. Portanto, as noções de espaço, tempo, causa e efeito moldam a realidade que conhecemos. Sendo assim, apesar de ignorar as coisas em si, não ignoramos o modo como serão percebidas por qualquer pessoa. Esse filósofo inaugurou o criticismo – uma reflexão profunda sobre os limites e as possibilidades da razão humana -, de que o texto a seguir apresenta, em linguagem bastante acessível, algumas teses ligadas ao conhecimento.

Fenomenologia: um olhar mais recente

Comte analisava as sociedades segundo um modelo de pro­gresso, cuja etapa final seria o desenvolvimento científico presente na modernidade europeia. Sendo assim, con­siderava atrasadas as culturas que não correspondiam a esse modelo, acreditando que elas deveriam progredir, necessa­riamente, em direção a ele.

A Revolução Industrial do século XVIII acelerou o desenvolvimento científico, com destaque para o modelo adotado pelas ciências exatas e naturais, sem demonstrar ainda um reconhecimento significativo das especificidades das ciências humanas. Auquste Comte, por exemplo, desenvolveu o Positivismo, doutrina filosófica e científica que valorizava a exatidão típica da Física e da Matemática. Desejando estabelecer a Sociologia como ciência capaz de descrever as formas de organização humana e orientar o seu progresso, ele propôs a aplicação dos conceitos da Física ao cotidiano dos grupos sociais. Chegou mesmo a designar essa nova ciência como Física Social.

Esse exemplo demonstra que o desejo de dominar e transformar a natureza ainda imperava. Além disso, vale ressaltar que o desenvolvimento industrial levou o conhecimento, em sua forma científica, a afirmar-se ainda mais explicitamente como uma forma de poder, uma vez que ele passou a ser utilizado para desenvolver tecnologias, interferindo intensamente nas relações econômicas e sociais. Por outro lado, embora as reflexões filosóficas apontassem a impossibilidade de conhecer a essência da realidade, ou seja, as coisas em si e as suas causas primeiras, a ciência demonstrava um grande êxito na descoberta das leis de funcionamento dos fenômenos. Surgiu daí uma atitude que ficou conhecida como “mito do cientificismo”, ou seja, a crença de que as ciências eram infalíveis e capazes de manter a neutralidade diante dos fenômenos que analisavam.

Porém, no fim do século XIX e no século XX, a concepção de conhecimento científico enfrentou uma nova crise, pois as teorias defendidas por algumas das ciências naturais foram abaladas por novas descobertas -como veremos ao abordar a chamada Filosofia da Ciência. Por outro lado, o ideal positivista gerava grandes dificuldades para as Ciências Humanas, por não considerar as especificidades dos seus objetos – como o psiquismo, as culturas e as sociedades, por exemplo. Tais objetos não se mostravam tão facilmente classi­ficáveis ou previsíveis quanto os das Ciências Naturais, porque traziam a marca da subjetividade humana.

Nesse contexto de crise da ciência, surgiu uma nova forma de entender o conhecimento, considerando a importância da subjetividade para a sua formação: a Fenomenologia, que teve importante influência sobre a Filosofia e as Ciências Humanas. Ela foi iniciada por Edmund Husserl, desenvolvida por Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Martin Heiddeger e outros.

Para os fenomenólogos, a experiência era essencial, mas eles ressaltavam que ela sempre se dava em pers­pectivas diferentes. Entendiam a consciência humana como algo intencional, isto é, que se voltava para os objetos por meio de diversos atos – como percepção, imaginação, memória -, ligados a contextos, emoções, interesses e desejos distintos. Portanto, cada percepção ou sensação deveria ser en­tendida como um fenômeno singular, pois um objeto se modificaria sob diferentes atos mentais: um cubo, por exemplo, se apresentaria de formas diferentes a uma consciência quando ela o percebesse como objeto exterior, quando o imaginasse ou quando pensasse na sua definição geométrica. Por isso, eles estudavam o conheci­mento com base nos diversos atos da consciência, para decifrar as relações entre o objeto e o sujeito – ou seja, entre o que é conhecido e a consciência que o conhece -, uma vez que, de certo modo, eles se misturam na percepção. Além disso, os fenome­nólogos apontavam uma ligação importante entre os comportamentos e as percepções humanas: constatavam que os objetos percebidos alteram a nossa relação com o mundo e que essa relação, por sua vez, modifica os objetos que percebemos.

s A Fenomenologia, inaugurada por Husserl, apresenta importante relação com o pensamento kantiano. Entendendo a realidade como um conjunto de fenômenos (fatos determinados pelo sujeito, ou seja, pela consciência que os conhece), ela procurou investigar a possibilidade do conhecimento. Nesse processo, destacou uma importante característica da consciência: além das estruturas universais identificadas por Kaiit, com espaço, tempo ou causalidade, ela possuía também intencionalidade, ou seja, era consciência de algo, segundo a perspectiva particular sob a qual se voltava paxá ele. Sendo assim, o mesmo objeto seria conhecido de diversas formas por diferentes indivíduos, em diferentes momentos ou segundo diferentes atos de consciência, como a percepção, a imaginação ou a memória, por exemplo.