O umbigo de Adão e a origem do homem


O nascimento do homem, segundo a tradição judaica, deu-se com a criação de Adão. De acordo com o livro de Gênesis, o primeiro da Bíblia, o primeiro ser humano foi criado por Deus como a sua imagem e semelhança. Durante muitos séculos essa compreensão foi amplamente aceita, principalmente depois do domínio cultural do catolicismo, que segue a tradição judaica.

O umbigo de Adão e a origem do homem

Como o cristianismo católico é uma religião que, diferentemente de outras doutrinas espirituais, procura se adequar à lógica Aristotélica, uma dúvida sempre pairou nos debates. Adão tinha umbigo? Afinal, o primeiro homem foi criado na sua forma adulta por Deus. Logicamente deveríamos supor que ele não possuía umbigo como os humanos que foram gerados no ventre de uma mulher.

A discussão sobre isso já dura séculos. Alguns pensadores dizem que o umbigo de Adão foi formado a partir do momento de sua criação. Há, inclusive, a hipótese de um cordão umbilical que teria existido antes do nascimento do primeiro homem.

A questão sobre o umbigo de Adão permanece porque há algumas lacunas lógicas. Como era a constituição dos corpos, dele e de Eva, no paraíso, antes da expulsão? Se eles foram criados à imagem e semelhança do criador, Deus possui um umbigo?

Embora esses debates sejam recentes, a indagação a respeito da origem humana sempre gerou discussões. Pensadores tentam responder a essa questão chave desde a Antiguidade. A resposta, ainda que impossível de obter, poderia explicar muito sobre a origem do homem.

A conquista da teologia cristã

Depois da queda do Império Romano os países da Europa se encontravam dispersos e sem unidade. Uma das pioneiras foi a Igreja Católica, por meio de uma interpretação própria da doutrina de Jesus Cristo, que uniu os diferentes povos em torno de uma só concepção de criação. Durante os primeiros séculos da cristandade a visão da criação divina foi incontestável. Os questionamentos sobre a origem humana por Adão começaram a aparecer só a partir do Iluminismo, principalmente em meados do século XVIII.

Filósofos racionalistas passaram a questionar a validade dos textos bíblicos, pois a tendência do seu pensamento era a busca de provas. Após o lançamento do livro “A Origem das Espécies”, do naturalista inglês Charles Darwin, a ideia criacionista baseada na Bíblia foi sendo descartada nos meios científicos.

O livro discorria sobre a evolução dos seres vivos, e lançava a hipótese de uma lógica naturalista denominada de “seleção natural”. Segundo ela, o ser humano, assim como outras espécies do planeta, chegou ao estado atual através de um constante aprimoramento genético. Aqueles seres que não conseguem se adaptar, segundo Darwin, são eliminados pela própria ordem natural da vida.

Muitos cientistas consideraram a teoria evolucionista fraca quando tenta explicar a origem humana. Segundo eles, a hipótese careceria de provas fortes que jamais serão dadas, além de inferir concepções equivocadas sobre as espécies atuais, como a ideia de que a aleatoriedade deu origem a complexos seres vivos, entre os quais animais inteligentes como o homem.

A dualidade entre criacionismo e evolucionismo permanece até os dias de hoje. Apesar disso, as duas visões não são totalmente antagônicas, já que uma criação divina não impossibilita, necessariamente, uma evolução. A visão oposta à teoria de Darwin é a fixista, segundo a qual os seres vivos são criações de Deus e imutáveis.

A teoria darwiniana continua sendo a mais aceita na academia, embora tenha limitações. Ela não consegue oferecer um meio de experimentação, já que não existe maneira para avaliar seus axiomas. A concepção cristã também é a mais aceita no ocidente entre os religiosos, embora muitos encarem o nascimento de Adão, como relatado na Bíblia, como uma metáfora.

Hipóteses sobre o umbigo de Adão

Em 1857, dois anos antes da publicação de “A Origem das Espécies”, o naturalista Philip Gosse lançou seu livro “Onfalos”. O autor argumentava que Deus criou Adão e Eva com umbigos pela mesma razão que implantou fósseis no solo e fez pedras com idades que divergem do tempo relatado na Bíblia.

Alguns criacionistas procuram argumentar baseando-se na queda do homem. Ao cometerem o pecado original e serem expulsos do Éden, Adão e Eva perceberam que estavam nus no paraíso. Segundo os criacionistas foi nesse momento que surgiram umbigos no primeiro casal.

A teoria elaborada por Darwin pressupõe que, se é possível determinar os primeiros humanos, consequentemente devemos entender que eles possuíram umbigos. Porém, o debate continua, pois a doutrina teológica cristã, em particular a católica, não contradiz tal afirmação. Como a religião não afirma a veracidade literal da Bíblia, o relato em Gênesis continua aberto às discussões acadêmicas.

Mas vale ressaltar que tal debate se dá, principalmente, entre estudiosos católicos e seculares. Dentro do protestantismo há o conceito de “sola scriptura”, ou seja, a compreensão de que a verdade está apenas na Bíblia. Ou seja, dentro da concepção protestante não há possibilidade de criação fora do que é relatado nos textos bíblicos.