Resumo da desigualdade social no Brasil: A questão indígena


Dos cinco milhões de índios que habitavam as terras onde hoje o território brasileiro, na época da chegada dos portugueses restam cerca de 300.000. Esta drástica diminuição da população indígena está ligada às mortes provocadas pelos conflitos com os colonizadores, como ocorreu no Nordeste, no Sudeste e hoje em dia na Amazônia e no Centro-Oeste, além das epidemias provocadas pela introdução de doenças desconhecidas dos índios por parte dos brancos, como o sarampo e a sífilis.

Entre os grupos restantes, cerca de 60% encontram-se na Amazônia, porém existem grandes concentrações nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Entre estes diferentes grupos há diversas formas de relação com a sociedade dita como civilizada, desde grupos isolados, que não têm contato algum com os brancos, mantendo seus costumes, até outros completamente integrados, que acabam vivendo de artesanato ou trabalhando em atividades urbanas comuns.

A questão indígena

Há grandes porções do território nacional destinadas, pelo menos na teoria, para reservas indígenas. Formar reservas indígenas não significa produzir territórios em separado ao Brasil, mas apenas respeitar um tipo de vida diferente do restante da sociedade nacional. A relação de alguns grupos indígenas com a terra é completamente diferente daquela que encontramos normalmente em nossa sociedade. A relação estabelecida não é de propriedade, mas de uso e conservação de recursos naturais. Os índios necessitam de suas terras para serem o povo que são, estas são coisas indissociáveis.

As diferenças legais no reconhecimento das terras indígenas, são o principal problema desta população na atualidade. No caso das terras homologadas, que estão em minoria, já existe a legalização total do território dos índios, porém aquelas somente demarcadas esperam por sua legalização como território, enquanto as identificadas não têm quase nenhum apoio legal.

O objetivo de se legalizar as terras indígenas é evitar os inúmeros conflitos que estas populações são obrigadas a enfrentar para manter a posse de suas terras. São fazendeiros buscando pastagens e espaço para plantações, madeireiras querendo explorar a madeira nobre em posse dos índios e os garimpeiros à procura de metais e de pedras preciosas. Destes conflitos surge a continuidade do massacre dos índios realizado nestes mais de 500 anos de ocupação e de formação do Brasil.

O preconceito racial

Tanto povo de origem indígena, quanto os negros e mulatos sofrem com a discriminação racial velada ao Brasil. Por mais que se tente camuflar a situação com a ideia de que nosso país é uma grande democracia racial, a qual seria completamente diferente de países como os Estados Unidos ou a África do Sul, nos quais, com diferentes proporções, o preconceito racial é evidente, não podemos acreditar nisso.

Se formos buscar as estatísticas sobre a distribuição da população em termos de cor de pele nas universidades ou nas classes de renda, podemos verificar facilmente como os negros foram sendo excluídos dos benefícios da modernização de nosso país.

Evidentemente, o preconceito contra as populações negras é bastante antigo, o que pode ser observado no fato destes indivíduos terem vindo ao Brasil como escravos. Quer dizer, na época da escravidão havia um consenso de que estes povos podiam ser escravizados, o que demonstra a concepção de que seriam inferiores.

Após a libertação dos escravos no Brasil, a situação dos negros não melhorou muito, posto que estes passaram a ser vistos como cidadãos de segunda classe. Análises apressadas e superficiais sobre a economia de nosso país levaram a conclusões errôneas de que os negros seriam povos com pouca capacidade para o trabalho e para o desenvolvimento da economia. O ideário de cunho determinista produziu a crença de que a região Nordeste seria menos desenvolvida economicamente em relação ao Sul, justamente por ter uma população de grande índice de negros e mestiços. Nada mais absurdo. A verdade é que a diferença de desenvolvimento está ligada ao tipo de economia que se desenvolveu em cada uma das regiões, do qual os negros foram grandes vítimas.

Na região Sudeste afirmou-se a ideia de que o trabalho dos imigrantes italianos nas fazendas de café era melhor do que o dos negros. Esqueceu-se de se considerar que estes últimos foram trazidos para estas fazendas à força e trabalhavam como escravos, o que não lhes dava qualquer incentivo para aumentar a produtividade, enquanto os italianos vieram por opção própria, junto às suas famílias, para trabalhar como colonos, dividindo a produção com os donos das fazendas, condição bastante diversa e bem mais favorável.

Por estas e outras, os descendentes de escravos foram se tornando mão de obra desvalorizada e até os dias de hoje encontram grandes dificuldades para perfurar a barreira do preconceito na hora de conseguir um bom emprego e tentar garantir aos seus descendentes uma boa formação cultural e técnica, para competir em pé de igualdade com os outros brasileiros no mercado de trabalho.

Desta maneira, mesmo que não tenhamos choques violentos entre as populações negras e brancas no Brasil, o preconceito e a discriminação seguem existindo por caminhos obscuros e invisíveis, mas não menos perversos e segregadores.