Desmatamento na Amazônia: Fatores, Motivos, Características e Impactos


A questão amazônica

Durante séculos, essa imensa parcela do espaço brasi­leiro representou uma fronteira preservada e praticamente desabitada, a ser conquistada pela “civilização” que se ergueu no Centro-Sul do país. Seus primeiros habitantes já haviam estabelecido uma forma equilibrada de relacionamento com a gigan­tesca floresta. Se compararmos a sua forma de ocupação com aquela que viria a ser imposta por nossa sociedade ocidentalizada, veremos que os índios viviam em harmonia com seu espaço. As primeiras incursões de grande porte ocorreram no final do século XIX e início do século XX, motivadas pela exploração da Hevea brasiliensis (seringueira).

Desmatamento na Amazônia

A região recebeu nessa época um grande contingente de pessoas, mas as picadas (nome popular de uma trilha em ambiente florestal) e as poucas estradas não resultaram em grande devastação. Podemos afirmar que até meados da década de 1970 a Amazônia permaneceu preservada. Nessa década, os governos militares brasileiros, seguindo a doutrina de Segurança Nacional elaborada por eles, acreditavam que era necessário ocupar a fron­teira norte do país, pois temiam que, se continuasse desabitada (os indígenas, numerosos na região, não eram levados em conta), a re­gião amazônica constituiria um grave risco estratégico.

Por isso foi implementado um plano de ocupação e aproveita­mento da região. Em linhas gerais, destacam-se os seguintes pontos:
•       Criação da zona franca de Manaus, um polo industrial que oferecia muitos incen­tivos financeiros e fiscais, especialmente para o setor eletroeletrônico. A zona franca logo atraiu grandes levas de trabalhadores, que passaram a habitar a periferia de Manaus. A cidade passou de aproxima­damente 270 mil habitantes em 1970 para mais de 1,5 mi­lhão no início dos anos 1990, e esse crescimento gerou problemas graves relacionados ao crescimento urbano desor­denado.

•       Promoção de uma reforma agrária que distribuiu terras em áreas da região Norte distantes e de difícil acesso, na esperança de criar uma
frente pioneira de ocupação do espaço. Mas a iniciativa logo se mostrou um lastimável fracasso, pois as populações assentadas careciam de infraestrutura mínima, como hospitais e escolas.

•       Construção da Transamazônica. Inserida na política desenvolvimentista que marcou o período, essa estrada deveria integrar toda a região, porém sua construção nunca se completou. Atualmente está em péssimas condições de conservação, o que favorece a regeneração da floresta em muitos trechos. Uma das crí­ticas a essa rodovia diz respeito a seu traçado: ele é praticamente paralelo a muitos rios da região e, portanto, a opção mais racional deveria ser o transporte hidroviário, cujos custos são sabidamente menores.

• Implantação de grandiosos projetos de exploração agrícola e mineral, que abriram as portas da Amazônia para grandes conglome­rados empresariais estrangeiros, interessados na exploração de suas riquezas naturais.

Seja como for, esse conjunto de iniciativas promoveu o “desco­brimento” dessa importante par­cela do território nacional. Em meados da década de 1970 muitos agricultores do Sul dispuseram–se a emigrar para as terras mais baratas do Centro-Oeste e para as bordas da Floresta Amazônica propriamente dita, fato que, in­felizmente, contribuiu de forma decisiva para agravar a devastação da área.

Na década de 1980 muitos grupos económicos, especial­mente empresas multinacionais e especuladores, desencadearam o loteamento e a exploração des­se importante conjunto de terras florestadas. Vários desses grupos são madeireiras, que continuam devastando gigantescas áreas em pouco tempo e criando imensas clareiras na floresta. Na década de 1990, esse processo de degradação se acelerou devido à chegada de grandes madeireiras da Malásia e da Indonésia. Sentindo o esgota­mento dos recursos na Ásia, essas empresas passaram a atuar na Amazônia, associando-se a grupos brasileiros e japoneses.

Já no século XXI grandes empresas de mineração ainda destroem a cobertura vegetal para ex­plorar o subsolo. Nem sempre seus dirigentes consideram a necessidade de recompor a área. Os planos de manejo – é obrigatório, no Brasil, apresentar estudos denominados EIA e RIMA (Estudos de Impacto Ambiental e Relatórios de Impacto Ambiental, respectiva­mente) antes de explorar qualquer área – dificilmente podem recuperar locais intensamente afetados, cujo aspecto lembra as paisagens lunares.

O caráter predatório da agricultura e da pecuária itinerantes também agride a floresta por meio das queimadas, técnica antiquada para abrir espaços de forma rápida para o plantio e a criação. Em muitos lugares a devastação está ligada à obtenção de carvão vegetal. Além disso, segundo muitas denúncias e vários flagrantes policiais, essa atividade ainda utiliza trabalho escravo e trabalho infantil. De qualquer modo, a floresta está correndo grave risco. Até 1970, somente 2% dela havia desaparecido. Passados pouco mais de trinta anos, aproximadamente 20% já estão devastados.

Esse rico ambiente biodiverso está gerando agora a cobiça de novos grupos económicos. O desenvolvimento da biotecnologia desviou para a Amazônia a atenção de inúmeros laboratórios e órgãos de pesquisa de países ricos. Essas instituições sabem que o ambiente amazônico contém plantas ainda pouco estudadas, com imenso potencial para a produção de medicamentos. A atual corrida à Amazônia visa catalogar as espécies, isolar os princípios ativos capazes de curar doenças e reproduzi-los.

Caso obtenham sucesso, essas empresas vão patentear esses medicamentos e obter enormes lucros com sua venda. Trata-se de biopirataria, uma vez que as plantas estão em território nacional e o Brasil, país detentor desses recursos, deveria ser ressarcido pelo aproveitamento deles. Sabe-se que muitos pesquisadores estrangeiros passam longas temporadas dentro da floresta, em conversas com os habitantes locais (índios, seringueiros, os povos da floresta em geral), observando seus hábitos e estudando as maneiras como eles utilizam os vegetais.

Apesar das dificuldades, tem-se desenvolvi­do uma consciência em relação a essa questão no Brasil. Talvez o exemplo mais emblemático dessa forma de poluição seja o rio Tietê, que recebe uma carga gigantesca de dejetos de toda natureza ao atravessar a cidade de São Paulo e municípios vizinhos. Nos últimos anos têm sido desenvolvidos em alguns municípios, como São Paulo, sistemas de tratamento de esgoto para atenuar esse problema, mas são ainda casos isolados, insuficientes para reverter a tendência de degradação da água.

Outro elemento altamente poluente lançado nas águas são os rejeitos agrícolas. A agricultura tem sido desenvolvida com enormes aplicações de agrotóxicos (inseticidas, fungicidas, herbicidas etc.) que penetram no solo e atingem o lençol freático. A escassez de água tem como causa principal o mau uso desse recurso, especialmente o desperdício. Outras causas são a ocupação das áreas de mananciais por loteamentos irregulares e a destruição das matas que protegem as nascentes dos rios. Além disso, a expansão acelerada da agricultura tem promovido a devastação da mata ciliar, a floresta nativa que acompanha o curso dos rios. Sem essa vegetação, as margens dos rios ficam expostas à erosão pelas enxurradas, são destruídas e acarretam o assoreamento dos leitos, que constitui a principal causa da diminuição do volume de águas dos rios.

A cada ano esse problema torna-se mais importante no rio São Francisco. A diminuição da vazão fez com que alguns trechos, outrora navegáveis, se tornassem tão rasos que podem ser atravessados a pé. Enfim, tudo isso resulta em menos água para beber, irrigar os cultivos, gerar energia etc.
Os portos de areia, áreas de extração muito comuns nas várzeas dos rios que drenam terrenos sedimentares, também causam assoreamento. Nessas várzeas de onde se extrai areia o rio forma meandros e, portanto, fica mais lento, reduzindo sensivelmente o volume de água a jusante.

O impacto da agricultura sobre o meio ambiente

A modernização da agricultura também está causan­do profunda deterioração dos recursos hídricos, devido à utilização de agrotóxicos em larga escala. A fuligem produzida por elas atinge as cidades e provoca uma verdadeira “chuva negra”, que polui o ar e suja as roupas estendidas nos varais das residências. A queimada também destrói os nutrientes do solo, o que exige uso ainda maior de produtos químicos sob forma de adubos e corretivos; cria-se, por­tanto, um risco maior de poluição dos mananciais.

A monocultura acelera tam­bém o processo de erosão do solo. Ao longo dos anos, esse processo dá origem às voçorocas – profundos e extensos sulcos na terra resultan­tes da ação das enxurradas sobre o solo desprotegido. Os prejuízos decorrentes desse fenômeno são enormes: terras cultiváveis e fér­teis simplesmente desaparecem, transformando-se em milhões de toneladas de areia que vão assorear os rios, ao mesmo tempo que geram a desertificação de extensas áreas, como o sudoeste gaúcho, antes recoberto por pastagens e plan­tações de soja.

Finalmente, é preciso registrar a expansão rápida da cultura da soja nos estados das regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil. Esse avanço ocorre em terras que até recentemente eram recobertas por cerrado, motivo pelo qual a ONU incluiu recentemente o cerrado na lista dos biomas mais ameaçados de extinção do mundo. Calcula-se que restam apenas 20% das terras originalmente recobertas por cerrado em todo o Brasil, fato preocupante quando se considera que a soja ainda deverá crescer 163% nos próximos quinze anos só no estado do Mato Grosso.