A Fé e a Arte: A Igreja Anglicana e o Cinema São Luiz


Há 180 anos a Igreja Anglicana chegou a Recife, conhecida pela população como “’igrejinha dos ingleses”. A Holy Trinity Church iniciou suas bases brasileiras em 1838 onde hoje é o Cine São Luiz. Com uma população em média de 200 mil habitantes e uma pequena, mas expressiva colônia inglesa, as orações anglicanas eram feitas num prédio pequeno pelo primeiro ministro da igreja anglicana, G. Tuckins.

A Fé e a Arte: A Igreja Anglicana e o Cinema São Luiz

A primeira Igreja Anglicana do Recife ficava na antiga Rua Formosa, atual Avenida Conde de Boa Vista, esquina da Rua Aurora com o Rio Capibaribe e com uma beleza arquitetônica única. Com 12 metros de largura e 17 de extensão, um santuário com duas sacristias, mas que foi demolido pelo plano de expansão urban. Foi erguido o Edifício Duarte Coelho, imponente prédio de 13 andares e onde foi construído o primeiro cinema de Recife.

Como surgiu a Igreja Anglicana

A Igreja Anglicana nasceu no período da Reforma Protestante, através do Rei Henrique VII da Inglaterra. O monge alemão Martinho Lutero firmou suas ideias reformistas contra as indulgências católicas de onde foi julgado como herege e exilado. Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, já que só era permitida sua escrita em latim e liderou inúmeras revoltas contra os votos monásticos, adorações e a formação de cultos que consumou o rompimento definitivo dele e de outros monges com a igreja.

De rebeliões ideológicas surgiram lutas armadas e mais caminhos foram abertos na França com João Calvino e na Suíça com Ulrico Zuínglio. Mas na Inglaterra os caminhos foram um pouco diferentes, embora também ligados a reforma, já que Henrique VIII era católico e defendia a Igreja Romana. Casado com Catarina de Aragão, Henrique VIII queria um filho homem para sucedê-lo ao trono e pediu a anulação do casamento por não conseguir com a esposa. O Papa Clemente VII recusou a anulação e mesmo assim Henrique se separou de Catarina e casou com Ana Bolena, sendo excomungado pela igreja católica e iniciou sua própria, o Anglicanismo.

Essa ação ajudou a cortar o poder da Igreja Católica, que estava acima do poder absolutista monárquico e com o rompimento, todos os bens da igreja passaram para a nobreza. Houve um aumento da produtividade e riqueza do país com o uso das terras, além do apoio de nobres e plebeus.

O Ato de Supremacia precisou ser votado pelo Congresso e só confirmou que Henrique VIII e seus descendentes seriam os sucessores da liderança da nova igreja, chamada de anglicanismo. Quem não se submetesse ao anglicanismo seria perseguido excomungado, obrigando a todos a assistir cultos e não mais missas, onde nomes relevantes da história inglesa foram mortos.

Seu sucessor Eduardo VI manteve a religião, mas a rainha Maria I teve uma breve reconciliação com Roma, que seguiu também no início de reinado de Elizabeth I, mas que logo voltou ao anglicanismo que também sofreu reformulações em sua estrutura e permaneceu em todos os reinados posteriores.

No Brasil a Igreja Anglicana chegou ao Brasil junto com a corte portuguesa, através do Tratado de Comércio e Navegação que permitia a Inglaterra trazer missionários para o país. O acordo impedia a construção de templos e só permitia cultos realizados em inglês, voltados para a sua comunidade. A primeira capela anglicana foi construída no Rio de Janeiro, chamada Christ Church, seguidas por duas em Minas Gerais.

De Igreja à Cinema

Em Recife, a primeira igreja anglicana foi construída em 1838, já que havia muitos ingleses morando na cidade. A “igrejinha dos ingleses” obedecia a arquitetura de seu país de origem e aspectos suntuosos e delicados, inclusive com ladrilhos que formavam uma bela pintura em mosaico e com uma janela de vidro colorida. A mármore branca se destacava ainda mais sob o sol de Recife vindo de oito outras janelas.

Porém, sob as ordens do Prefeito Pelópidas da Silveira seguido por Clovis de Castro, foi necessário demolir o templo para a expansão das vias urbanas. No local foi construído o Edifício Duarte Coelho, com 13 andares sendo quatro ocupados pelo Cine São Luiz, pertencente ao grupo Luiz Severiano Ribeiro.

A inauguração do cinema foi em 06 de setembro de 1952, com as mais modernas instalações da época e símbolo do luxo na capital. Com mil lugares, o local era frequentado pela nata da sociedade Pernambucana, palco de grandes lançamentos e eventos, sendo o primeiro filme exibido “O Falcão dos Mares”, com Gregory Peck.

Um dos maiores clássicos do cinema nacional também teve sua estreia no Cine São Luiz, “O Canto do Mar”, de Alberto Cavalcanti, que na época não foi devidamente valorizado e compreendido. A data de 03 de outubro de 1953, dia do lançamento, foi marcante por também ser do assassinato de um deputado em frente ao local.

Em sua entrada o Cinema São Luiz apresentava um painel do artista Lula Cardoso Ayres, escudos e brasões no balcão, no teto da plateia detalhes florais e no palco dois vitrais de Aurora de Lima formavam a decoração do local.

Sua época de ouro foram nos anos de 1960 a 1980, com exibição de filmes para a juventude e outros que atraiam filas e lotação máxima, com pessoas sentadas em escadas. Mas na década de 90 o cinema começou a entrar em decadência onde os cinemas de bairro iam desaparecendo e teve uma breve esperança com o lançamento de Titanic em 1997. Em 2007 o grupo Luiz Severiano Ribeiro fechou o cinema, mas o prédio foi tombado como monumento histórico da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco.

Ele voltou a ser reaberta em 2009 por incentivo do Governo estadual e agora de posse de todos os cidadãos pernambucanos. Mantendo sua beleza e imponência original, o local foi reformado e os equipamentos modernizados, dando uma nova direção ao local, oferecendo preços populares para os cidadãos e uma programação mais ampla.