A Santa Inquisição


O episódio histórico conhecido como “Santa Inquisição” teve início oficial no século XIII, provavelmente no ano de 1229. Na ocasião, o Papa Gregório IX, no Concílio de Toulouse, proclamou oficialmente a instituição do Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição.

A Santa Inquisição

O flagelo da Santa Inquisição é um fenômeno típico da Idade Média, mas repercutiu para além daquele período histórico, se fazendo presente em países como Portugal até o limiar do século XVIII.

Ainda no aspecto formal, o Papa Inocêncio IV, em 1252, publicou o Ad Extirpanda, um documento que continha o plano para dar curso à eliminação de hereges. Eram considerados hereges todos aqueles que se opunham aos postulados da Igreja Católica.

Em 1320, após muitas revisões, sob o pontificado de João XXII, a Igreja declarou que a bruxaria e os rituais e religiões constituíam uma ameaça hostil ao cristianismo.

Os inquisidores eram homens de no mínimo 40 anos de idade, doutores em Teologia, Direito Canônico e Direito Civil. O sistema era instrumentalizado por informantes, que eram regiamente remunerados e ainda ficavam com parte dos bens e propriedades do condenado.

A forma como se deu a Santa Inquisição é um excelente manual para entender como se estruturam os regimes autoritários até os dias atuais. As massas de camponeses eram instadas a aceitar e colaborar com a Igreja Católica em troca de promessas de ascensão ao reino dos céus, mas a recompensa podia também ser financeira em caso de cooperação com os inquisidores, de modo que a chamada “caça às bruxas” se tornou um grande negócio e era disso que se tratava.

Poder e Riqueza

Embora o poder da Igreja Católica seja originário dos últimos imperadores romanos, a queda do Império, no século V, só fez aumentar a influência da mesma. Os séculos VI a VIII foram marcados pela expansão dessa influência, com o estabelecimento dos Estados Papais na Península Itálica.

Com a erosão dos poderes políticos na Europa Medieval, a Igreja Católica ganhou espaço e poder, alicerçado na disseminação dos dogmas, verdades que deveriam ser aceitas sem questionamento como desígnios divinos, representados pela Igreja Católica, sendo o Papa seu máximo executor.

Manter e expandir esse poder e riqueza nunca foi uma tarefa fácil, razão pela qual era preciso estabelecer um pensamento único, que sustentasse as condições para tais intentos. A estratégia da Igreja Católica foi dominar pela criação de um modelo de pensamento e comportamento controlado, pela instituição do medo e pela eliminação de qualquer tipo de oposição ao dogmatismo católico.

A estratégia conseguiu êxito, pois até o século XVIII a Igreja Católica era dona de grande parte das terras europeias, sendo detentora de grande poder político.

Séculos de Horror

A ignorância e o misticismo são parte da conjuntura que levou a Idade Média a ficar conhecida como Idade das Pedras. A Santa Inquisição aterrorizou populações e alimentou toda sorte de traições, intrigas, vinganças e injustiça. Milhares de pessoas morreram queimadas em fogueiras, foram presas e torturadas pelos inquisidores.

Às vítimas não era permitido conhecer seus acusadores, sendo que muitas vezes sequer sabiam do que estavam sendo acusadas. Bastava que representassem algum risco à perpetuação da conjuntura imposta pela igreja. Poderes políticos se aproveitavam para eliminar inimigos, criando um clima que nos dias atuais chamamos de insegurança jurídica, típico dos regimes de exceção.

O réu não tinha direito à defesa. Suas alternativas eram se retratar, renunciar às suas crenças e à sua fé, aceitando, por fim, a autoridade da Igreja Católica, o que era obtido mediante supressão sumária da liberdade e sob tortura. Os acusados eram obrigados a confessar suas heresias, enquanto há relatos de que as mulheres eram comumente vítimas de estupro.

As execuções eram públicas. O objetivo era atemorizar a plateia. O espetáculo oferecido às multidões tinha enforcamento, decapitação e, na maioria das vezes, as vítimas morriam queimadas.

O Malleus Maleficarum (Martelo das Bruxas), publicado em 1486, serviu como manual de investigação e condenação das bruxas. Segundo a tese defendida por aquele documento, as mulheres eram as mais propensas à feitiçaria, razão pela qual eram as mais perseguidas.

A carnificina chegou até ao território americano. Há notícias de que 139 pessoas foram queimadas vivas entre 1721 e 1777 no território brasileiro, então colônia de Portugal, outro país em que a Santa Inquisição viveu seu apogeu no século XVIII.

Nunca se viu um festival de sadismo e carnificina tão terrível e prolongado quanto o episódio que ficou conhecido como “Santa Inquisição”. Um exemplo é a conhecida e sangrenta, “Noite de São Bartolomeu”, quando com o consentimento do Papa Gregório XII, quase 70 mil pessoas foram massacradas na França.

O saldo desse empreendimento por poder e riqueza, segundo historiadores, é de quase dez milhões de pessoas executadas friamente, com requintes de crueldade. Na França, Escócia e Alemanha, com o intuito de prolongar o sofrimento dos condenados à fogueira, eram usadas madeiras verdes.

Em junho de 2004, séculos após o período de terror, sob João Paulo II, o Vaticano publicou mais de 800 páginas sobre o período da Inquisição, identificado como um escândalo de intolerância e violência. João Paulo II pediu perdão à humanidade, exortando os cristãos a não ter medo da verdade e manter o espírito aberto ao arrependimento.